sexta-feira, 23 de maio de 2014

TRÊS POEMAS SOMBRIOS E UM LEVEMENTE ENSOLARADO, JAMIL DAMOUS



TRÊS POEMAS SOMBRIOS E UM LEVEMENTE ENSOLARADO
JAMIL DAMOUS


 
TAURUS 38

Sobre a rede
estendida na tarde morna,
ele tornou-se imortal.
Os objetos quedaram-se imóveis
e o vento paralisou, como num sonho,
o mais real dos sonhos,
a tarde última em Belém,
a tarde última no mundo.
Antes, terá se olhado no espelho,
a vida ali contida,
o tempo entranhado
na barba por fazer.
Terá escrito o bilhete
prevendo que o mundo,
a essa hora da tarde já tão longe,
seguiria seu curso
na inconcebível esperança.
Só o Taurus 38 foi tangível
no quarto flutuante
onde seu corpo, por fim,
tocou, de leve,
o duro chão.

INSÔNIA
Dentro da noite silenciosa,
escuto a música de estar vivo.
Um bicho estranho e triste é o que sou.
Todos os limites me tocam: o limite
entre a vigília e o sono,
o entre a vida e a morte.
Entre o gelo e o fogo
me debato.
E emito o urro
de dentro da mais negra
e mais branca
das prisões.


AURORA, ALBOR, ALVA, ALVORADA

Madrugo só com palavras,
trancado aqui neste quarto.
Não escuto canto de galo,
não enxergo luz da manhã.
Acendo mais um cigarro,
sol portátil em minha mão.
Na mesa, um despertador
me faz as vezes do galo.
No relógio digital
vejo nascer a manhã.
Trancado aqui neste quarto,
madrugo só com palavras,
madrugada triste e vã.

BOLERO DE RAVEL

O rio se encorpa
e se incorpora
a outro rio,
maior e mais veloz.
Meu desejo o segue no crescendo
rumo ao desconhecido
e ao inominável.
Em que mar de silêncio
vão naufragar, por fim,
todos os sons?



[O primeiro poema é do livro "A Camisa no Varal", que reúne os escritos entre 1979 e 1988. Os demais são antigos e inéditos, devendo assim permanecer]
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