quinta-feira, 8 de maio de 2014

PARA O MEU BEBEZINHO, DO SEU CACHORRINHO, Elias Ribeiro Pinto



PARA O MEU BEBEZINHO, DO SEU CACHORRINHO
Elias Ribeiro Pinto

Diário do Para, 06-05-2014

O nosso Pedrão I assina-se o “Demonão”, oferecendo à sua Titília “abraços e beijos e fo...” – é isso mesmo que você pensou

1 Se tivesse vivido a tempo de ser contemporâneo de Fernando Pessoa, o escritor francês Gustave Flaubert teria incluído o verbete “Cartas” em seu famoso esboço do Dicionário das Ideias Feitas, assim definindo-o: “Num artigo sobre cartas, sempre remeter a Fernando Pessoa – ‘Todas as cartas de amor são/ ridículas/ Não seriam cartas de amor se não fossem/ ridículas’”.
2 Na verdade, esse poema leva a assinatura daquele que é o heterônimo mais conhecido de Pessoa, Álvaro de Campos. Completado em 21 de outubro de 1935, os versos seguintes como que estendem as mãos, solidárias, às paixões epistolares: ridículas são mesmo “só as criaturas que nunca escreveram/ cartas de amor”.
3 Confesse, leitor: você jamais escreveu uma carta, no florescimento da paixão, tratando a amada de “bebezinha”, de “meu anjo”, “filhinha do meu coração”, “a mais santa de todas as criaturas”, chamando-a por diminutivos alambicados, ou então se assinando como “seu cachorrinho” ou, enlaçados em amor eterno, um “sempre teu, sempre minha, sempre um do outro”?
4 Verdade que, em tempo de e-mails, torpedos e redes de relacionamento na internet, já não há o roçar da pena deslizando, ora melancólica, ora liricamente convulsiva, sobre o papel, tendo a distância e a lua por testemunhas, e o tempo infindo em que se alongavam as demoradas e ansiadas respostas, por mares nunca dantes navegados.
5 Há cartas, no entanto, dessas que nos chegam em fornidos, desusados, arcaicos envelopes, cujo conteúdo se desdobra em folhas infinitas, que guardamos para sempre, tesouros, talvez, da juventude, ou mesmo de um amor maduro que derrapou na curva dos anos. Pois há cartas de amor que a história guarda em seus escaninhos eternos – eterno enquanto dure, como já alertara o poeta, poetinha.
6 Uma das cartas de amor mais recuadas no tempo é datada de antes de Cristo. Foi escrita no exílio por Marco Túlio Cícero (106 a.C-43 a.C) a sua esposa, Terência. Mas como nem todo amor, ao contrário do que o padre falou, é para sempre, anos depois o advogado, político e filósofo romano separar-se-ia da amada, acusando-a de má gestão fraudulenta de seus negócios.
7 A lista de autores de cartas de amor ao longo da história honraria qualquer carteiro. Temos, entre outros: Cícero, Henrique VIII, Voltaire, Beethoven, D. Pedro I, Machado de Assis, Eça de Queiroz, Rui Barbosa, Cruz e Souza, Franz Kafka, Gibran Khalil Gibran, Augusto dos Anjos, Katherine Mansfield, Antonio Gramsci e Maiakóvski.
8 Prova de que o amor, muitas vezes, é capaz de perder a cabeça: Henrique VIII (1491-1547), rei da Inglaterra, declara seu amor imorredouro por Ana Bolena, com quem sua majestade casou-se em 1553. Para ele, o amor pode ter sido imorredouro, não para ela, decapitada, mais tarde, por ordem do esposo real, que, dez dias depois da execução, casou-se com Jane Seymour.
9 Prosseguindo no curso amoroso do leito imperial, D. Pedro I (1798-1834) escreve, sedento de fome, a uma de suas mais célebres amantes, Domitília de Castro, a Marquesa do Santos, ou melhor, a Titília. O nosso Pedrão I assina-se o “Demonão”, oferecendo-lhe “abraços e beijos e fo...” – é isso mesmo que você pensou.
10 Franz Kafka (1883-1924) nunca foi tão kafkiano quanto nas atormentadas cartas que escreveu a Felice Bauer, sua noiva e com quem se correspondeu por cinco anos, e com quem, a exemplo de Pessoa, jamais casou. Vladímir Maiakóvski (1893-1930), poeta russo, manteve um longo relacionamento amoroso com Lilia Brik, que era casada com o crítico literário Óssip Brik. Maiakóvski (que se assinava, nas cartas bem-humoradas e apaixonadas, como Cachorrinho) suicidou-se em 1930; Lilia, sua Liliônok, seguiu-lhe o gesto, só que bem mais tarde, em 1978. Neste caso, inverteu-se a etiqueta social: primeiro os cavalheiros.

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