domingo, 25 de junho de 2017

Casamento, Adélia Prado

Casamento
(Adélia Prado)



Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como ‘este foi difícil’
‘prateou no ar dando rabanadas’
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

Cantiga para não morrer (Ferreira Gullar)

Cantiga para não morrer
(Ferreira Gullar)



Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento
.

Amor é fogo que arde sem se ver, (Luís Vaz de Camões)

Amor é fogo que arde sem se ver
(Luís Vaz de Camões)


Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se e contente;
É um cuidar que ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.


Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Beauty, Elinor Wylie



Say not of Beauty she is good,
Or aught but beautiful,
Or sleek to doves’ wings of the wood
Her wild wings of a gull.
Call her not wicked; that word’s touch
Consumes her like a curse;
But love her not too much, too much,
For that is even worse.
O, she is neither good nor bad,
But innocent and wild!
Enshrine her and she dies, who had
The hard heart of a child.
Elinor Wylie was born in Somerville, New Jersey, on September 7, 1885. Her collections of poetry include Black Armour (George H. Doran Company, 1923) and Angels and Earthly Creatures (Alfred A. Knopf, 1929). She died on December 16, 1928.

About This Poem


“Beauty” was published in Nets to Catch the Wind(Harcourt, Brace and Company, 1921).

If space and time, as sages say,
    Are things which cannot be,
The fly that lives a single day
    Has lived as long as we.
But let us live while yet we may,
    While love and life are free,
For time is time, and runs away,
    Though sages disagree.

The flowers I sent thee when the dew
    Was trembling on the vine,
Were withered ere the wild bee flew
    To suck the eglantine.
But let us haste to pluck anew
    Nor mourn to see them pine,
And though the flowers of love be few
    Yet let them be divine.
https://mg.mail.yahoo.com/neo/launch?.rand=edopve8n8uapv#3659532992

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Cartas de James Joyce para sua mecenas serão reunidas em livro, Maria Fernanda Rodrigues

Cartas de James Joyce para sua mecenas serão reunidas em livro

Maria Fernanda Rodrigues

O Estado de S. Paulo - 13 Junho 2015

Escritor será lembrado esta semana por causa do Bloomsday, cuja programação começa hoje em SP; livro infantil também está no prelo


James Joyce (1882- 1941) estava em Paris, no dia 27 de junho de 1924, quando escreveu uma de suas inúmeras cartas a Harriet Weaver (1876-1961), sua benfeitora. Fazia 17 dias que ele tinha feito uma cirurgia no olho, a que ele se referiu como: “Mais desagradável do que eu esperava seja pela pouca cocaína usada seja pelo meu estado nervoso - a última razão provavelmente”. Mas mais importante do que suas reclamações acerca da saúde, uma constante em seus escritos, lemos, nesta carta, a primeira referência ao Bloomsday, celebrado anualmente no mundo todo em 16 de junho, dia em que o escritor irlandês situa sua obra-prima, Ulysses (1922). Aqui, a programação começa hoje; veja abaixo. 


O autor. Ele escrevia sobre tudo - de falta de leitores a esparadrapos


Ele escreve: “Há um grupo de pessoas que celebram aquilo que eles chamam de Bloom’s day - 16 de junho. Eles me enviaram hortênsias, brancas e azuis, tingidas. Tenho de convencer a mim mesmo que escrevi esse livro. Eu era capaz de falar com inteligência sobre ele. Se por acaso agora tento explicar às pessoas o que supostamente estou escrevendo eu vejo o assombro reduzi-las ao silêncio”. Este fragmento (leia a íntegra abaixo) está em um dos textos - extensos e econômicos em vírgulas - que integrarão Cartas à Minha Benfeitora (título provisório), organizado e traduzido por Dirce Waltrick do Amarante e por Sérgio Medeiros, e que a Iluminuras pretende lançar no último trimestre.

A quem pensa que esse fetiche todo poderia incomodar o autor, Dirce responde que ele, surpreso com a recepção da obra, ficou feliz com o Bloomsday. “Ele coloca na carta que foi um alívio, depois daqueles problemas de vista que ele teve, saber dessa festa, mas meio que dá uma reclamadinha dizendo que o próximo, o Finnegans Wake, não atingiria tantas pessoas assim”, conta Dirce, que prepara, ainda, um volume de ensaios sobre Joyce e seu universo.

Este não é o primeiro livro de correspondências de James Joyce que o casal organiza. Tudo começou com Cartas a Nora, de 2012. Depois eles pensaram em se debruçar sobre as cartas para o irmão, mas lendo biografias do autor foram percebendo o papel central que a mecenas teve na vida do escritor. 
“Quando falamos em Joyce, pensamos logo em Sylvia Beach (1887-1962; dona da lendária livraria Shakespeare and Company e editora de Ulysses), mas Harriet Weaver foi importantíssima. Ela não era apenas sua benfeitora; ela escutava, dava conselho, ajudava sua família, tanto que pagou o enterro dele e de Nora, cuidou da filha deles”, explica Dirce. A organizadora cita uma carta que comprova essa proximidade toda, embora os dois tenham se encontrado poucas vezes. “Ele estava falido, sem dinheiro para mais nada, já que ele gastou tudo no tratamento da filha, e diz: ‘Você não pode me culpar de ter gasto todo o meu dinheiro com a minha filha e ter ido à falência por causa disso porque você mesma gastou todo o seu dinheiro comigo’”.
Harriet Weaver. Eles se encontram poucas vezes, mas ela foi figura central na vida de Joyce
As cartas vão de 1914 a 1936. Elas serão organizadas cronologicamente e será possível acompanhar seu caminho como escritor, já que entre seus assuntos preferidos estavam as dificuldades de conquistar leitores e vender livros, a falta de espaço na imprensa para resenhas e as idas e vindas com suas obras. Ele também gostava de falar sobre a fragilidade de sua saúde e questões domésticas, como as frequentes mudanças de cidades e a dificuldade de levar a família, que a cada novo lugar tinha de aprender uma língua. Há momentos engraçados, também, como quando ele decide comentar todos os boatos que circulavam sobre ele - que era louco, perverso, libidinoso, espião da C.I.A., milionário, etc.
Os organizadores pensaram em traduzir todas as missivas, mas se deram conta de que ele era muito repetitivo. “Quisemos mostrar desde o Joyce escritor ao Joyce humano e preparamos um panorama geral do que ele escrevia para ela”, diz. Não se tem notícia das respostas.
Confira a carta de 1924
Para Harriet Shaw Weaver
27 de junho de 1924                                              
Victoria Palace Hôtel
6 rue Blaise Desgoffe, Paris
Cara senhorita Weaver: Passaram-se dezessete dias desde a cirurgia que foi mais desagradável do que eu esperava seja pela pouca cocaína usada seja pelo meu estado nervoso - a última razão provavelmente. O olho ainda está coberto de ataduras mas consigo ler com o outro tão bem quanto possível. Estou com muita dúvida sobre o resultado. Até agora não há praticamente nenhuma melhora na visão e isso me deprime muito. Eu gostaria de ir embora mas o Dr. Bosh continua a me assegurar que a visão vai voltar. A culpa não é dele. Até fico contente que ele tenha feito uma iridectomia pois é o único recurso seguro contra o glaucoma se eu tiver outro ataque de irite  - que talvez o destino não permita.
Eles dizem que eu estou muito bem e uma pessoa amável me presenteou com um apetite. Mas duvido do poder da íris de absorver os depósitos no olho. O duro trabalho maçante e os contratempos em Trieste (raramente eu comia alguma coisa, lecionava até tarde toda noite e comprei uma muda de roupa em nove anos, mas o movimento literário irlandês finalmente se deu conta da minha existência) e também o trabalho de Ulisses devem ter arruinado a minha força. Fui envenenado de muitas maneiras. Menciono isso porque toda vez que sou obrigado a me deitar com os olhos fechados eu vejo um filme passando sem parar e isso me faz lembrar de coisas que eu havia quase esquecido.
A visão que tenho agora é suficiente para eu ir tocando a vida, mas não para fazer o tipo de trabalho que me sinto estimulado a fazer exceto com muito vagar e sofridamente e em condições muito favoráveis de luz e clima que Paris não oferece. (Anexo uma carta da agência de Nice. Enviei-lhes o contrato  de volta para a inserção de uma cláusula que me permita sublocar e aqui está a resposta. Se eu posso me expressar assim a senhora não parece ser uma "boa" sogra.) Ainda espero que o Dr. Bosch esteja certo.
Há um grupo de pessoas que celebram aquilo que eles chamam de Bloom's day -- 16 de junho. Eles me enviaram hortênsias, brancas e azuis, tingidas. Tenho de convencer a mim mesmo que escrevi esse livro. Eu era capaz de falar com inteligência sobre ele. Se por acaso agora tento explicar às pessoas o que supostamente estou escrevendo  eu vejo o assombro reduzi-las ao silêncio. Por exemplo Shaun, depois de uma palestra quaresmal extensa absurda e para lá de incestuosa para Izzy, sua irmã, despede-se dela "com uma meia olhadela de maroto irlandês sob o tufo das sobrancelhas paralelas dele". Essas são as palavras que o leitor verá mas não aquelas que ele ouvirá. Ele também alude a Shem como meu irmão "soamheis" ; ele quer dizer siamês.    
Este é um quarto melhor, pé direito alto e mais iluminado. Eu acho que a minha memória está ficando fraca então na clínica eu comecei a decorar a Dama do Lago  de sir Walter Scott, primeiro Baronet. Em três dias eu decorei 500 linhas e posso repeti-las sem cometer erros. Nenhum dos meus filhos consegue fazer isso. Não é um sinal de inteligência (preciso continuar com a caneta da minha filha) mas é muito útil. Eu mesmo inventei todo um sistema - uma grande parte dele é bem pueril - graças ao qual evito que o meu cérebro se enfraqueça mas estou sendo forçado a renunciar a boa parte disso em razão do modo grotesco como vivo agora. Eu mostrei ao Sr. Larbaud os sinais que eu estava usando nas minhas anotações   HCE  Anna Livia [ Shem ? Shaun. Ele riu deles mas isso economiza tempo. Espero que vocês se encontrem. É um prazer conversar com ele. Ele sabe o que quer dizer, mais ou menos, diz e escreve o que tem que dizer.
Sim, o Sr. Tuohy  é a pessoa de quem eu lhe falei. Fico feliz que você tenha gostado do retrato. Eu gosto das pregas do paletó e da gravata. Ele não lhe contou tudo sobre a posse do retrato porque ele está indo tratar de um pequeno assunto com uma pessoa em Dublin primeiro. Como você deve ter visto pelos olhos dele ele é muito malicioso - no bom sentido da palavra se ela tem um. Posso imaginar a cena e ela me diverte também mas eu não faria isso. 
Tentei deixar esta carta alegre e não perderei a esperança.
(Tradução Dirce Waltrick do Amarante e Sérgio Medeiros)

Postal enviado para Stephen Joyce em 1937 vira livro
Quando James Joyce termina de escrever Finnegans Wake, conta Dirce Waltrick do Amarante, já muito cansado, ele diz que a partir dali se dedicaria à literatura para crianças. “Pena que não deu tempo”, comenta sua tradutora. Mas ele deixou material que seria transformado em publicações para crianças, como Os Três Macaqueiros de Zurique, feito com base em postal enviado ao seu neto e encontrado no meio da correspondência dele. A obra, também no prelo da Iluminuras, ganhou ilustrações de Michaella Pivetti. É uma história breve, mas muito criativa, explica Dirce, e uma boa forma de começar a apresentar o complexo universo de Joyce aos pequenos. 

Confira a programação do Bloomsday em São Paulo
Sábado, dia 13
‘Ulysses’ e o Cinema
Serão exibidos trechos de ‘Ulysses’ (1967), dirigido por Joseph Strick, e a íntegra de ‘Bloom’ (2003), com direção de Sean Walsh. Haverá debate depois

Performance Sim, Eu Quero Sim
A atriz Isabela Mariotto, do grupo Teatro da Peste, encarna Molly Bloom, apresentando a parte final do famoso monólogo da personagem de ‘Ulysses’. A noite será encerrada com degustação de uísque
Casa Guilherme de Almeida (Rua Cardoso de Almeida, 1.943. Tel. 3673-1883), a partir das 15 horas. A entrada é gratuita, mas é preciso se inscrever em casaguilhermedealmeida.org.br
Terça, dia 16
O Canto das Sereias 
A edição deste ano do evento que ocorre no Finnegan’s Pub será inspirado pela natureza paródica de ‘Ulysses’, de Joyce, e pelo capítulo correspondente ao episódio das ‘Sereias’, da ‘Odisseia’, de Homero, e focalizará o tema desde sua origem, evocando sua presença no mundo mítico da Grécia Antiga, na própria literatura e música brasileiras – incluindo correspondentes indígenas e afro-brasileiros do mito – para chegar ao romance de Joyce, com as garçonetes (as sereias) do bar do Hotel Ormond, em Dublin. Trechos serão lidos em diversos idiomas. Haverá, ainda, a performance erótico-cômica ‘As Sereias no Bar do Hotel Ormond: Miss Douce (Bronze) e Miss Kennedy (Ouro)’, com Júlia Bournier e Gabriela Mafud (Teatro da Peste). As atrizes, caracterizadas como as garçonetes do bar, manterão um diálogo baseado em breves fragmentos do capítulo, mostrando algo de suas relações de sensualidade e repulsa com os homens. Música também faz parte da programação, e estão previstas apresentações de gaita de fole, música instrumental irlandesa e canções voltadas ao tema das sereias, além de uma jam session de encerramento.
http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,cartas-de-james-joyce-para-sua-mecenas-serao-reunidas-em-livro,1705454

6 libros de escritores rusos que deberías leer - Tolstói, Dostoyevski, Chéjov, Pasternak, Solschenizyn, Grossman, Por Rómulo Parra



6 libros de escritores rusos que deberías leer
Tolstói, Dostoyevski, Chéjov, Pasternak, Solschenizyn, Grossman
Por Rómulo Parra

La literatura rusa ha deslumbrado ya durante siglos a Occidente, con obras que son consideradas joyas clásicas y universales. Aunque una lista más o menos competa sería demasiado larga para un sólo artículo, a continuación enumeramos algunos de los libros de escritores rusos cuya lectura es imprescindible.

1. Guerra y Paz, de León Tolstoi


Editorial Juventud

Uno de los más grandes exponentes de la literatura universal, León Tolstói escribió alrededor de 30 obras, entre novelas y ensayos. Sin embargo, es Guerra y Paz la más elogiada.
Ambientada en la campaña de Napoleón en Rusia a comienzos del siglo XIX, es un retrato no sólo de la sociedad de su país en esa época, sino de los horrores e insensatez de la guerra en general, y de los destellos de amor, desprendimiento y sacrificio que pueden surgir del corazón de las personas aún en horas tan menguadas.

2. Crimen y Castigo, de Fiódor Dostoyevski



Alianza editorial

Publicada en 1866, Crimen y Castigo, de Fiódor Dostoyevski, se convirtió en un referente de la novela psicológica, en la que el sentimiento de culpa se manifiesta como el verdadero protagonista.
La obra cuenta la historia de Rodión Raskólnikov, un estudiante muy pobre que asesina a una usurera y a la hermana de ésta y que es investigado como sospechoso, y abre un debate ético y psicológico en torno a la justificación o no del delito y de la pena como su consecuencia lógica.

3. Selección de Cuentos, de Antón Chéjov

Lectorum

La prolijidad de Antón Chéjov (escribió alrededor de 250 cuentos) no es lo único que lo ha convertido en el más reconocido autor de relatos cortos, sino su estilo -entonces muy original- que ha influido en muchos escritores occidentales.
Existen varias recopilaciones de sus más populares cuentos, entre los que podemos citar La dama del perrito, El monje negro, La cirugía y Las islas voladoras. Actualmente, Alice Munro, Premio nobel de literatura 2013 es tal vez el único escritor de cuentos con similar fama.

4.  Doctor Zhivago, de Boris Pasternak



Galaxya Gutenberg Circulo de Lectores

Doctor Zhivago no sólo le valió a Boris Pasternak el Premio nobel de literatura en 1958 sino también la persecución del régimen comunista, que lo obligó a rechazarlo. De hecho, la obra no fue publicada en Rusia hasta 1988.
Doctor Zhivago es una extensa obra, que busca describir la participación de los intelectuales en la Primera Guerra Mundial, la Revolución de Octubre y la Guerra Civil de 1918-1920. Su versión cinematográfica, galardonada con cinco premios Óscar, es antológica.

5.  Archipiélago Gulag, de Alexandr Solschenizyn


Circulo de Lectores

Si de persecusión política se trata, esta obra de Alexandr Solschenizyn es prototípica. Ganador del Premio nobel de literatura en 1970, el autor describe los horrores del sistema de campos de concentración, prisión, trabajo y "reeducación" (GULAG, por sus siglas en ruso), en base a sus propias experiencias y las de centenares de compañeros de reclusión.
La publicación de la primera parte de esta obra en Francia en 1973, burlando la censura comunista, le valió el exilio forzado. No pudo volver a su patria hasta la caída del régimen, a fines de los años 80.

6. Vida y Destino, de Vasili Grossman


Galaxia Gutenberg Circulo de Lectores

Debido a la censura soviética, Vida y Destino no pudo ser publicada por primera vez hasta 1980, en Suiza, 16 años después de la muerte de su autor, Vasili Grossman, y gracias a que los originales pudieron ser sacados clandestinamente de la entonces Unión Soviética.

Aclamada por la crítica mundial, se trata de una obra monumental que describe la sufrida vida de los ciudadanos soviéticos durante la Segunda Guerra Mundial, atormentados tanto por el enemigo externo como por su propio gobierno, que desconfiaba de todos, sin excepciones.

http://libros.about.com/od/novedades/tp/6-libros-de-escritores-rusos-que-deberias-leer.htm

quinta-feira, 23 de março de 2017

Todesfuge - Fuga da morte - Paul Celan - (tradução de Ricardo Domeneck)

Todesfuge - Fuga da morte - Paul Celan - (tradução de Ricardo Domeneck)

Leite negro da madrugada que bebemos à tardinha
nós bebemos ao meio-dia e de manhã
nós bebemos à noite
nós bebemos e bebemos
cavamos uma cova nos ares onde possamos espreguiçar-nos
Certo homem habita a casa e brinca
com víboras que escreve
que escreve quando escurece à Alemanha
teu cabelo doirado Margarete
ele escreve e posta-se diante da casa
estrelas chamejam ele assovia conclama seus cães
ele assovia enfileira seus judeus faz cavarem na terra uma cova ele ordena desferi os violinos
agora chacoalhemos os esqueletos
Leite negro da madrugada nós te bebemos à noite
nós te bebemos de manhã e ao meio-dia nós te bebemos à tardinha
nós bebemos e bebemos
Certo homem habita a casa
e brinca com víboras que escreve
que escreve quando escurece à Alemanha
teu cabelo doirado Margarete
Teu cabelo cinzento Sulamita
nós cavamos nos ares uma cova onde espreguiçar-nos
Ele grita pás mais fundo no miolo da terra vós e vós cantai e tocai
ele alcança o ferro na cintura
agita-o nos ares seus olhos são azuis
mais fundo com as pás mais alto com os violinos chacoalhemos os esqueletos
Leite negro da madrugada nós te bebemos à noite
nós te bebemos ao meio-dia e de manhã nós te bebemos à tardinha
nós bebemos e bebemos
Certo homem habita a casa teu cabelo doirado Margarete
teu cabelo cinzento Sulamita ele brinca com víboras
Ele grita dedilhai com mais doçura a morte
a morte é especializada na Alemanha
ele grita desferi azuis os violinos e escalai como fumaça aos ares
assim tereis uma cova nas nuvens onde podeis espreguiçar-vos
Leite negro da madrugada nós te bebemos à noite
nós bebemos ao meio-dia
a morte é especializada na Alemanha
nós bebemos à tardinha e de manhã nós bebemos e bebemos
a morte é especializada na Alemanha
seus olhos são azuis
ele acerta teu corpo com balas metálicas acerta na mosca
certo homem habita a casa
teu cabelo doirado Margarete
ele atiça contra nós seus cães
brinda-nos com uma cova nos ares
ele brinca com víboras e sonha
a morte é especializada na Alemanha
teu cabelo doirado Margarete
teu cabelo cinzento Sulamita

quarta-feira, 8 de março de 2017

BEBA VINICIUS, LEIA CLARICE, RESPIRE JOHN LENNON - ELIAS RIBEIRO PINTO

BEBA VINICIUS, LEIA CLARICE, RESPIRE JOHN LENNON

- ELIAS RIBEIRO PINTO

COLUNA DESTA QUARTA (8/3/17) NO JORNAL DIÁRIO DO PARÁ

E se um dia o amor acaba, como soletrou o nosso Paulinho Mendes Campos, saiba, à Vinicius, sair sem gritar, bater (nem mesmo a porta), levando, quando muito, a escova de dente e a senha do Facebook, e deixando uma luz acesa, para, quem sabe, a tristeza um dia quiser entrar

Cláudio da Conceição chega em casa e não gosta do cheiro da comida preparada por sua mulher, Maria de Nazaré. Joga fora a comida, ela reclama, protesta. Cláudio pula para cima dela, quer esganá-la. Vizinha socorre, a mulher aproveita e dá uma vassourada na cabeça do marido, que é preso.
Marido dá seis facadas na mulher. Não se sabe o motivo.
Além de balear a mulher, esposo dá uma surra e a expulsa de casa junto com os seis filhos. Ela fica paralítica.
Mulher é esfaqueada pelo amante porque lhe serviu café frio.
Atira na esposa e pensando tê-la matado, suicida-se. Motivo ignorado.
Marido é esfaqueado pela esposa.
Amarrou a esposa e a surrou.
Enciumado, marido matou a mulher a terçadadas.
Playboy boa-pinta assassina a “Pantera de Minas” à queima-roupa, na véspera do réveillon. Por causa desse crime passional, de grande repercussão no país, surgiu a frase: Quem ama não mata.
Marido agride mulher com um martelo.
Por ciúme, amante agride mulher a socos, pontapés e ainda dá uma facada em seu ventre.
Mulher abandona o lar. Volta para pegar a carteira da previdência.
No lugar da carteira, recebe do marido socos e pontapés.
Pai violenta sucessivamente suas quatro filhas, de 18, 17, 14 e 12 anos. Ameaçada de morte, a esposa só dá queixa à polícia quando o marido violenta a filha menor.
Esbofeteia a mulher porque ela pediu dinheiro para comprar remédio para o filho doente.
Enciumado, companheiro arranca orelha da amante.
Homem conformava-se com a traição da amante. Um dia, desespera-se e lhe pede explicações. Em vez das explicações, ele recebe 12 facadas.
Marido esconde-se debaixo da cama e flagra traição da mulher. Levanta-se, mata a mulher a tiros e agride o Ricardão.
Marido e mulher brigam e vão parar, feridos, no Pronto Socorro.
Atirou e matou a esposa no 7º mês de gestação, após espancá-la. A criança também morre. Antes a vítima havia se queixado à polícia dos maus tratos do esposo. A queixa foi dada horas antes do crime.
Cansada de apanhar, ao ser mais uma vez espancada, Kelly, para se defender, mata o companheiro, Ademar, com uma faca de cozinha.
Sônia, 24 anos, matou o marido, João, depois que uma discussão banal transformou-se numa sessão de pancadaria e insultos. Formavam um casal classe média, com carro e casa própria. Ela lhe derrama água quente, no ouvido, de uma panela que fervia. Ele lança urros desesperados. Ela diz: “Não grita. Eu apanhei e não gritei”. João morre no Pronto Socorro no dia seguinte.
Os casos acima narrados, com nomes fictícios ou crismados pela imprensa, atravessam séculos, décadas, ou ocorreram ainda ontem. Ou periga ser lido no caderno policial de hoje. Mesmo com a Lei Maria da Penha, os homens continuam espancando ou matando a quem dizem amar. Na periferia ou em área nobre, no Curuçambá ou em Batista Campos.
Tolos, pensam que Nelson Rodrigues falava a sério quando dizia que as mulheres gostam de apanhar. Era encenação do Nelson, uma flor de pessoa, um cavalheiro. Seu melhor papel era o de “reacionário”.
As mulheres às vezes também reagem, encaram, matam. O sexo frágil vai para a luta, o leito um ringue.
John Lennon cantou: faça amor, não faça guerra. Sua história de amor com Yoko Ono podemos acompanhar, como capítulos, através de suas canções, serenata cantada à beira do Central Park.
Mas aqui entre nós o poetinha Vinicius de Moraes ensinou o bê-á-bá para viver um grande amor. E se um dia o amor acaba, como soletrou o nosso Paulinho Mendes Campos, saiba, à Vinicius, sair sem romper, gritar, bater (nem mesmo a porta), levando, quando muito, a escova de dente e a senha do Facebook, e deixando uma luz acesa, para, quem sabe, a tristeza um dia quiser entrar.
Não mate, não morra por amor. Apenas deixa o seu amor viver. E se o desespero um dia bater, beba Vinicius, leia Clarice Lispector, respire John Lennon.
Já os casos acima citados parecem ter nascido da pena do grande contista curitibano Dalton Trevisan: grotescos Joões e Marias perdidos na selva selvaggia da guerra conjugal.

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