quarta-feira, 15 de novembro de 2017

ÉGLOGAS PARA UM SENHOR CHAMADO CARNAVAL

ÉGLOGAS PARA UM SENHOR CHAMADO CARNAVAL
Francisco Vaz Brasil


toda gente se achegou
por necessidade
por sadismo
talhando pedra e barro
aos empurrões
e palavrões
à praça
perplexa e apática

os blocos
- palhaços mambembes
costelas viventes
de uma inflação muda:
               punhal afiado

os blocos passando
- desfile macabro
corpos fantasiados
batucada fantasma
em desfile
na álgida metrópole

o Teatro –da Paz –
taciturno observa,
há tempos imemoriais
na espessura do gesso
na pauta sonora e fria
no espaço da moldura
nas vozes suplicantes
das noites da belle èpoque

no terraço dos edifícios
as pedras não entenderam e se calaram
em sua saliva de pó e calcário

nas escolas (de samba)
surgiram equações no gesto
e dúvidas no esquadro:
os passos seriam milimétricos;
os giros do compasso eram a agonia
da porta-estandarte e o mestre-sala tremia
como quem nasce (oh, carnaval)
em círculos de bronze
rodas de samba, brazões e tradições...

as evoluções do passista
no tapete vivo de carne e asfalto
são a esperança
e a voz do crooner , desafinada,
era talho e atalho no corpo
inerte e inerme
da plateia
(que se oferece dúbia,
nas curvas, como um rio
marmóreo, límpido, onírico)

a praça sozinha,
em meio à multidão, sorri
sua forma bem lavada
em barras de suor,
lágrimas felizes
e aço em combustão

mas o carnaval
nasce assim, maduro:
é o tempo
paridor de estrelas
cubos, alvoradas e cristais;
lágrimas congeladas,
sorrisos y sorridentes
- brincantes forjados em laboratório

é o carnaval
que da estrutura dos ritmos
criou a linha do viver
e o carnaval está nas gentes
incrustado como a ostra
à espera da semente perolar

está no tempo a descoberto
para o orvalho e o raio
sob a chuva e as margaridas
com prêmios de mil centavos

sim, e ele explode em nós
em glóbulos, nas artérias
e dele correm os homens tranquilos
em rodas e pedais do esquecimento

para quem amou
nele está o segredo, ou no umbigo,
o silêncio antigo, o ruído das palavras
o atrito e a entrada da lâmina
no subterrâneo do prazer!

e o museu com o que se disse
                  e o que não se disse
e o passado em retângulos de mármore
vê o carnaval como paralelos
cravados sobre o chão

lá estão o moço e a moça
os seus estremecimentos
e a criança
- seu medo de ser aborto e natimorta

no bar do parque, aqui sim,
aqui gasta-se o níquel
e o don Juan deseja o mulher do próximo
- aqui se ama, se amou, se amaram
o índio e a loira sob os lençóis do horizonte

a gênese do carnaval
líquido, alegre, sujo, loucoricida,
entrementes, é imensa e única:
- de um fio faz-se o tecido,
- por um fio faz-se a massa
  estonteante da mulher amada
(margens calculadas para o amor)
e por um fio fez-se o poema e a roupa
por um fio faz-se um filho e um rio
por um fio faz-se encurtar distâncias
por um fio também jorra
o sangue dos que fazem o crime, a guerra

por um fio,
podemos salvar o nosso carnaval...

[Publicado no jornal Folha do Norte, de Belém,

Em 30 de janeiro a 5 de fevereiro de 1978]
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