domingo, 2 de novembro de 2014

ERA EU? ELIAS RIBEIRO PINTO



ERA EU?
ELIAS RIBEIRO PINTO



COLUNA DE 28/10/14 NO JORNAL DIÁRIO DO PARÁ

A soma do vivido não é uma adição, como supõe a vã filosofia, mas
sim uma conta do menos, do que vamos deixando de ser

1 Quando a gente olha para o passado, para o nosso passado, a pessoa que fomos nos parece outra pessoa. Mas era eu mesmo aquele menino magrinho que corria pelas ruas da travessa da Cintra, na Cidade Velha, pondo barquinho de papel para ser levado pela enxurrada da chuva correndo na vala?

2 Era eu mesmo que estava na arquibancada no campo do Souza em 1970 quando a Tuna ganhou (de virada) do Paissandu (que ainda não atendia pelo falso nome de “Paysandu”) por 3 a 2 e se sagrou campeã daquele ano?

3 Era eu rapazinho, em Santarém, nas férias escolares, que saía do salão de festas do Fluminense, de madrugada, e caminhava, sem medo, no rumo da casa da minha avó, no bairro da Aldeia, mas antes parava na padaria do seu Dadá para comer um pão quentinho, recém-saído do forno, adubado com a manteiga que se derretia no calor da massa?

4 Era eu aquele bebê de colo que aparece nos braços do pai, o político Elias Pinto, depois nos braços da mãe (e nessas duas ocasiões enquadrado nas fotos que registram o momento) e finalmente transferido para outros braços, já fora do enquadramento das fotos? Nascido em Belém, com poucos meses de idade eu já viajava para Santarém, onde desembarcava no aeroporto da cidade, carregado de braço em braço.

5 Aliás, a Santarém da minha meninice e adolescência, meu destino nas férias escolares, as de julho e as grandes, de fim de ano, é o Sítio do Picapau Amarelo mítico das minhas melhores lembranças, em que eu, Pedrinho, deixava o desenxabido mundo urbano belenense para viver liberdades moleques de além-porteira. Mas sei que aquela minha Santarém de 1960, de 1970, de quando ouvi, pela primeira vez, “eu te darei o céu meu bem/ e o meu amor também” numa casa defronte à da tia Aida, a Santarém de Vera Paz, Maria José, nunca mais existirá, nem mesmo dentro de mim, onde já se apaga. E eu ainda existo dentro de mim?

6 Por falar em Sítio do Picapau Amarelo, quando deixou de existir em mim aquele menino extasiado que lia os inconformismos de Emília, os serões de Dona Benta, as histórias de Tia Nastácia, as gulodices de Rabicó, as sensatas ponderações do Visconde de Sabugosa, e despachava-me com Narizinho e Pedrinho a percorrer os Reinos de Águas Claras, a Hélade, a Lua de São Jorge, os labirintos de Minotauro, caçando onças e sacis, quando deixou-me aquele menino? Deixou-me? Ou, como Flaubert dizia de sua madame Bovary, “Bovary c’est moi”, eu também poderia dizer: “Emília sou eu”?

7 Nos poetas há essa busca de um eu perdido, de uma infância partida, da vida que poderia ter sido e não foi. Seria a poesia esse eu passado que está sempre a se despedir do eu que agora somos? A soma do vivido não é uma adição, como supõe a vã filosofia, mas sim uma conta do menos, do que vamos deixando de ser, do que deixamos de reconhecer em nós o eu passado?

8 Como queria a linda poesia de Elizabeth Bishop, a vida é a arte de perder? É um duro aprendizado este, a arte de perder, de se perder, inclusive a nós e o que julgávamos ter sido.

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