sexta-feira, 7 de novembro de 2014

BELÉM RUNNER MECÂNICA MILICIANA? Elias Ribeiro Pinto



BELÉM RUNNER MECÂNICA MILICIANA?
Elias Ribeiro Pinto


COLUNA DESTA QUINTA (6/11/14) NO JORNAL DIÁRIO DO PARÁ

Nas periferias o ovo da serpente há muito já deu cria. E ali o Estado precisa avançar e fincar suas ramificações, com educação, assistência, cultura, renda. Mas para isso precisa, claro, ir além do discurso de um governador reeleito de biografia reinventada. É possível fazer frente ao cano do 38 e à brasa da pasta, da droga. É toda uma geração de jovens que se desperdiça na linha de tiro, do crime.

1 Estarão as cidades, as metrópoles, condenadas a se transformarem na cidade futurista retratada no filme “Blade Runner”? Estamos irremediavelmente destinados ao caos urbano, a viver num sombrio cenário de devastação ambiental, habitantes da noite contínua, sob incessante chuva ácida?

2 Por esse aspecto até que sou otimista, bebadamente otimista, como se vivesse sob o nutritivo e apascentador efeito daquelas três doses recomendadas por Humphrey Bogart, quando dizia que a humanidade estaria sempre três doses abaixo do ideal.

3 Não sei se um super-homem, nietzschiano ou gilbertianogil, virá nos salvar. Mas boto fé na ciência – para o bem e para o mal, quase acrescento. (Claro que isso é um truque de estilo, este “quase acrescento”, uma vez que, categoricamente, acrescentei a frase em questão.) Bem, só isto aqui já daria para preencher toda uma coluna – não a discussão em torno do truque de estilo, mas a questão de botar fé na ciência – para o bem e para o mal, acrescentaria etc. etc. etc.

4 Sem descartar as consequências extremadas do dano ambiental (aliás, objetivamente previsíveis para uma cidade à porta de uma Amazônia implacavelmente espoliada), o cenário “Blade Runner” equatorial que prevejo para Belém estaria mais voltado para o caos social, gerado pela disseminação incontrolável da violência, do crime.

5 Vive-se sob um medo constante, latente. Ajudar o próximo? Não, desconfia de todo próximo que se aproxima demais, repentinamente, que surge na esquina, no meio do quarteirão. Pega ladrão!

6 Já escrevi, aqui, diversas vezes sobre nossa cotidiana criminalidade, que se estampa e se reproduz nas páginas policiais, que se multiplica nas ruas e repercute, replica nos habitantes.

7 Sabe-se que a violência nas grandes cidades é nacional, mundial (se pensarmos no México e assemelhados), mas precisamos, a par do conhecimento das boas soluções alheias, encontrar nossas próprias soluções.

8 Sabe-se da necessidade de não só armar, municiar e aparelhar a polícia (militar, civil), mas de também, e principalmente, refinar seu efetivo, combatendo e punindo exemplarmente a corrupção. A melhoria salarial é um item nesse conjunto de ações internas. A área de planejamento e inteligência é sabidamente vital, e, nesse ponto, a coordenação e harmonia entre as polícias é um objetivo a ser perseguido, conquistado.

9 Nas periferias o ovo da serpente há muito já deu cria. E ali o Estado precisa avançar e fincar suas ramificações, com educação, assistência, cultura, renda. Mas para isso precisa, claro, ir além do discurso de um governador reeleito de biografia reinventada. É possível fazer frente ao cano do 38 e à brasa da pasta, da droga. É toda uma geração de jovens que se desperdiça na linha de tiro, do crime.

10 Agora, se a sociedade não repensar-se, se as suas elites, as predadoras (não raro interligadas às pensantes), não deixarem o gueto do alpinismo social (cuja literatura, se tanto, resume-se à legenda das fotos do colunismo social), poderão até blindar-se, mas viverão reféns do medo.

11 Eis o caos nosso de cada dia. Belém, numa distopia muito próxima de ser realidade, será cenário adequado para um “Blade Runner” amazônico? Pois agora me ocorre que “Laranja Mecânica” também cabe.

12 Mas depois da matança de anteontem, quando, em resposta sangrenta à morte de um policial a polícia assassinou oito pessoas, a nossa realidade, aqui e agora, é a de “Tropa de Elite 2”, com a emergência das milícias e o casamento perverso entre política e polícia.

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