sexta-feira, 17 de abril de 2015

Revisitando Pasolini, Kenneth Maxwell



Revisitando Pasolini
Kenneth Maxwell


Folha de São Paulo

Pier Paolo Pasolini, cineasta, poeta e escritor italiano, foi assassinado em 2 de novembro de 1975. As circunstâncias de sua morte continuam incertas. Giuseppe Pelosi, prostituto de 17 anos, foi preso, acusado e confessou o homicídio.
O corpo de Pasolini foi encontrado com fraturas. Seus testículos haviam sido esmagados. O cadáver foi parcialmente incinerado com gasolina. O caso tinha muita semelhança com um homicídio por vingança ao estilo da máfia.
Em 7 de maio de 2005, Pelosi retirou sua confissão, em entrevista na TV. Ele disse que três pessoas haviam cometido o homicídio. Elas gritavam insultos contra Pasolini, chamando-o de "bicha" e de "comunista sujo".
Também surgiu a informação de que Pasolini estava tentando recuperar rolos de filme roubados de "Saló ou os 120 Dias de Sodoma", um trabalho cuja rodagem ele havia concluído pouco antes, baseado no compêndio de excessos sexuais escrito pelo Marquês de Sade. Mas o juiz concluiu que não havia provas suficientes para levar adiante o inquérito.
Pasolini havia sido comunista e apreciava a companhia de homens mais jovens. O filme se passava na República de Saló, a porção da Itália ocupada pelos fascistas em 1944-1945, e acompanhava quatro fascistas ricos, corruptos e libertinos depois da queda de Mussolini.
Eles sequestravam meninos e meninas e, com a assistência de quatro rapazes e quatro jovens soldados, selecionados pelo tamanho imenso de seus pênis, e de quatro prostitutas, sujeitavam os cativos a abusos sexuais, perversões e estupros.
Pasolini havia abandonado o comunismo no começo dos anos 70 e era inimigo fervoroso do consumismo. Ele via essa última tendência como "a forma última do fascismo". Denunciou os democratas cristãos por sua sujeição aos interesses da máfia. Atacava o papel da televisão e previu boa parte da corrupção que corroeria a democracia italiana na era Berlusconi. Também se opôs aos estudantes radicais de 1968.
Vi "Saló" em 1975, em Lisboa, pouco depois do lançamento e antes do assassinato de Pasolini. Era uma versão sem cortes e censura (o filme foi proibido ou severamente censurado em muitos países). Naquele período, o fervor revolucionário estava no ápice, em Portugal. O "fascismo português" havia sido derrubado pouco tempo antes.
O cinema estava lotado de camponesas do Alentejo, a área mais radical do Portugal rural, onde elas se haviam sublevado, expulsado os proprietários de terras e tomado o controle dos grandes latifúndios. Jamais esquecerei a reação delas ao filme de Pasolini. Não se chocaram em nada. Aplaudiram. Riram. Amaram cada momento.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Kenneth Maxwell
É historiador britânico graduado em Cambridge (Reino Unido) com doutorado em Princeton (EUA). É referência na historiografia sobre o período colonial brasileiro. Escreve às quintas.

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/kennethmaxwell/2015/04/1614147-revisitando-pasolini.shtml
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