terça-feira, 14 de abril de 2015

Pequenos tesouros de Manoel de Barros - Ubiratan Brasil



Pequenos tesouros de Manoel de Barros
Ubiratan Brasil


Entrevista. Martha Barros
Antologia reúne poemas de todas as fases do escritor, que se dedicou à palavra durante mais de 70 anos de ofício

O Estado de São Paulo - 30 Março 2015

O poeta Manoel de Barros (1916-2014) deixou uma obra singular – com uma linguagem artesanalmente construída, sem se ater a convenções gramaticais ou sociais, mas sempre em busca da simplicidade, ele se tornou, com o passar dos anos, um cultor da palavra. É justamente esse detalhe delicado que marca a edição de Meu Quintal é Maior do que o Mundo, antologia que reúne poemas de todas fases do escritor e marca a transferência da sua obra para a editora Alfaguara.
A seleção de textos foi feita por Martha Barros, filha do poeta, e o prefácio é assinado por José Castello, jornalista que, nos anos 1990, fez entrevistas com Manoel para o Estado. Uma tarefa árdua, pois o objetivo da poesia do escritor, como observa Castello, “não é explicar, mas ‘desexplicar’”.



O poeta. Na sua fazenda Rio Negrinho, em 2007

Uma atitude acertada é o livro não trazer, junto aos poemas, a época em que foram publicados e em quais obras – todos os detalhes estão no final do volume. Isso porque tempo, para o poeta, não seguia sua ordem cronológica – o que seria o livro da mocidade, por exemplo, se transformou em segunda infância, que é a forma como o poeta tratava de sua maturidade.
“Provavelmente, é uma poesia que se apega à infância, momento da vida em que todos os sentidos ainda estão por se fazer”, escreve Castello, no prefácio. “Seu olhar é sinuoso, e não reto. A razão ainda é uma quimera.”
“Minhas palavras se dão melhor no cisco do que no asfalto”, disse o autor ao Estado, em 2006. “Se dão melhor nas águas tristes do que nos salões (chamo de águas tristes aos brejos ). Porque no cisco as palavras encontram os bichinhos de brincar: as formigas, a lesma, as lacraias e os lagartos. E nos brejos as palavras podem se encontrar com as rãs, os sapos, os caracóis e as pedrinhas redondas. No chão minhas palavras florescem. Eu não comando as minhas palavras. Elas que gostam do chão e das coisas desimportantes.”
Nos últimos livros que publicou, Manoel contou com a participação de Martha que, artista, realizou delicadas iluminuras com sua interpretação da obra do pai. Sobre o assunto, ela respondeu, por e-mail, as seguintes questões.

Como surgiu o amor de Manoel pelas coisas sem importância?
Ele sempre teve esse olhar para baixo. Um pouco pela sua infância na fazenda, livre e integrada à natureza, um pouco pelo seu temperamento de caramujo. Vêm daí as coisas pequenas e sem importância que permeiam e inspiraram sua poesia.

O mundo contemporâneo estava explícito nos versos de Manoel. A prosa seria, assim, o melhor abrigo para histórias pessoais?
Sua poesia é autobiográfica, mas em sua prosa poética talvez fique mais explícita essa sua fonte que está na infância.

Manoel tinha algum ritual de criação ou a base da sua produção era a pura inspiração?
Manoel não acreditava na inspiração e dizia que somente o trabalho e a transpiração podiam lhe render um poema. Tinha um ritual de trabalho muito rígido, subia todos os dias para seu escritório,  das sete às onze horas da manhã, para ler e escrever. Até aos sábados. Esse ritual, no final de sua vida, se estendeu até aos domingos.

O Manoel que surgia da poesia não era o mesmo daquele pessoa física, em carne e osso. Quem era o verdadeiro Manoel?
Só houve um homem – alegre e brincalhão, amigo e conselheiro. Pelas tardes,  recebia qualquer pessoa com hora marcada para conversar. Gostava da família e se preocupava com todos. Um homem normal, extremamente humano e sensível. Na sua obra dava cambalhotas e se permitia ser criança. Como poeta, sua criação não tinha limites. Nessa antologia tem um poema – Os dois, de Poemas rupestres – em que ele fala poeticamente disso:
“Eu sou dois seres.
O primeiro é fruto do amor de João e Alice.
O segundo é letral:
É fruto de uma natureza que pensa por imagens,
Como diria Paul Valéry.
O primeiro está aqui de unha, roupa, chapéu
e vaidades.
O segundo está aqui em letras, sílabas, vaidades
frases.
E aceitamos que você empregue o seu amor em nós.”

Como era trabalhar ao lado dele? Seus desenhos o inspiravam também? O que mais a inspirava: a poesia ou a prosa dele?
Sua poesia sempre foi fonte de inspiração para muitos artistas. Acredito que por ser também uma poesia imagética. No meu caso, tem mais um componente. Somos parecidos de temperamento e bebemos da mesma fonte – a força da natureza do Pantanal. Sua poesia é libertadora e trabalhar ao seu lado sempre foi um prazer. 

MEU QUINTAL É MAIOR QUE O MUNDO
Autor: Manoel de Barros
Editora: Alfaguara (168 págs., R$ 16,90)

http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,pequenos-tesouros-de-manoel-de-barros,1660274
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