quarta-feira, 2 de julho de 2014

Metamorfose contemporânea 90 anos após a morte de Franz Kafka suas obras transcendem o século passado e permanecem atuais Por Gabriela Soutello



Metamorfose contemporânea
90 anos após a morte de Franz Kafka suas obras transcendem o século passado e permanecem atuais
Por Gabriela Soutello





Alguém certamente teria caluniado Franz Kafka – caso ele ainda fosse vivo –, pois uma manhã ele foi acusado sem ter feito mal algum. A estrutura da modernidade sobre a qual escrevia o autor há cerca de cem anos acabou por se refletir em páginas atuais, no mundo contemporâneo, em um estado de presença provavelmente parecido com o realista do século XX – tanto menos ou mais absurdo. A sentença a ser cumprida por Kafka, 90 anos após sua morte, é a de continuar sendo lido como o anunciante do novo século.

Ao lado de Marcel Proust e James Joyce, Franz Kafka foi um dos maiores autores do século passado. Imagético, expressionista e neurótico, escreveu  obras em um alemão límpido e protocolar diante da atmosfera pré-fascista que se estabelecia na Europa. Não havia espaço para discutir direitos humanos e a liberdade era, ao mesmo tempo que essencial e requisitada, frágil. Kafka nos mostra a partir de seus personagens, quase sempre subalternos a engrenagens autoritárias cujas ordens não conseguem compreender, uma realidade mecânica na qual prevalecem o automatismo raso, o medo e a perda de identidade. Humilhado e anônimo, resta ao heroi kafkiano o esforço de compactuar com esse universo onde viver é como arrastar-se sobre um pesadelo. A tentativa, no entanto, resulta na ilusão: frustrados e inadaptáveis, os personagens são incapazes de entrar em compromisso.
Diferentemente de Joyce, Kafka explora o panorama desse mundo intranquilo por meio do simbólico. Por isso, é comum encontrar em suas obras imagens que não dizem, mas que querem dizer, e instauram na narrativa uma atmosfera  enigmática. Para Modesto Carone, tradutor de todas as obras de ficção para as editoras Companhia das LetrasBrasiliense – com exceção das duas primeiras, as quais ele considera “pré-kafkianas”-, a postura do narrador se dá por uma técnica admirável: “É um narrador que não sabe nem como, nem por que as coisas ocorrem, e obriga o leitor a também não entender o sentido do que está acontecendo”.

Legado onipresente
Ainda que os fatos narrados por Kafka sejam próximos do onírico e do surreal, o autor os expõe de maneira óbvia, em linguagem burocrática. É por isso que, em A Metamorfose (1915), ser uma barata acaba não parecendo tão monstruoso assim. Carone explica: “Kafka é um paradigma da literatura moderna porque retrata aquilo que todos nós conhecemos: a nossa própria alienação, o deslocamento do homem no mundo contemporâneo”. Marcelo Backes, escritor e também tradutor de algumas obras do autor para a LP&M pocket, afirma que Kafka percebe esse estado universal de alienação e o descreve com suposto descaso em seu diário: “A Alemanha declarou guerra à Rússia. À tarde, escola de natação”. Para o tradutor, “a indiferença parece extrema, mas a compreensão do mundo, ainda assim, é a maior imaginável”.
“Ele tem uma escrita límpida e inteligível que se encaminha para o que é inteiramente obscuro, indevassável”, afirma Carone. O tradutor classifica a prosa kafkiana, repleta de advérbios, como “seca, mas carregada de sentido e de uma intensidade excepcional”. Backes, por sua vez, considera Kafka “um desses escritores que nos concedem seus olhos para que possamos ver melhor inclusive dentro de nós mesmos, entendendo a alma aqui dentro e o mundo lá fora, em processos de perturbação”.

Uma trágica história (familiar)
Nascido em Praga no ano de 1883, no império Austro-Húngaro, atual República Tcheca, Franz Kafka tinha dificuldade de se relacionar e costumava sentir-se à parte do mundo. Formou-se em direito porque seu pai não permitiu que cursasse filosofia, e trabalhou como funcionário público em uma companhia de seguros por anos, até se demitir quando contraiu tuberculose. Com o repertório concebido a partir da advocacia, as imagens produzidas em suas obras estão ligadas a questões de justiça. Kafka era um assíduo observador, fosse nos tribunais ou em qualquer relação não horizontal, como era dentro de sua casa.
O maior exemplo de autoridade com o qual o escritor entrou em contato foi seu pai, que influenciou sua obra e certamente sua vida. Hermann Kafka é descrito pelo filho como egoísta e exigente e a relação dos dois sempre foi conflitante. “Isso lhe serviu para mostrar que o homem autoritário dos nossos tempos pode resultar em um líder fascista”, afirma Modesto Carone. “Ele viveu essa repressão dentro de casa, mas o particular tornou-se universal: Hoje o autoritarismo continua presente, em plena luz do dia”. Essa conturbada relação com o pai pode ser observada na maioria das obras do autor, entre elas O Veredicto (1912), O Processo (1925), O Castelo (1926) e Carta ao Pai, escrita em 1919, onde o escritor descreve essa convivência em intensa exposição. Sigmund Freud afirmou, certa vez, que teria curado Kafka da obsessiva relação de amor e ódio que ele exercia com o pai.

Tímido, confuso e crítico, o autor chegou a se relacionar com algumas mulheres e inclusive a noivar, mas, a cada vez que se sentia cobrado, se afastava. “Kafka sempre viveu sozinho, fechado dentro de si”, afirma Backes. Enquanto estava vivo, sua obra foi pouco conhecida, e a maioria de seus clássicos acabou sendo publicada somente após sua morte, por Max Brod, escritor, jornalista e amigo próximo do autor, a quem ele pediu que queimasse todos os seus manuscritos.

 “Era uma exclusão total”, adverte Carone. Certa vez, em uma carta enviada a Milena Jesenska, com quem se relacionou, Kafka escreveu: “Creio realmente estar perdido para a convivência com os seres humanos”. O autor também dizia que tudo o que não fosse literatura o aborrecia. Esse sentimento de exclusão, refletido em sua obra, como afirma Carone, reafirma a atualidade do autor: “é uma experiência muito humana e muito moderna. Todos nós parecemos estar aqui sem saber bem por quê”.
“Kafka é feito um homem que esquia no cascalho, para provar com cambalhotas e arranhões àqueles que pretendem que o cascalho é neve, que não se trata, realmente, de outra coisa senão cascalho”, diz o jornalista e filósofo alemão Günther Anders, que classifica o autor como um “artista da neurose contemporânea”. Marcelo Backes acredita que a exposição de Anders “define com precisão o realismo doloroso da arte literária de Kafka, que tem um forte índice de invocação interior, inclusive no mal-estar que desperta em nós”. Para Modesto Carone, o fato de Kafka não nos dar soluções, mas levantar problemas é uma importante característica literária do escritor. “E há mais”, ele ressalta: “talvez Kafka seja o último dos escritores que nos faça sofrer. Porque todos nós sofremos com o destino de Gregor Samsa em A Metamorfose. Afinal, aquele inseto existiu ou não?”.

Kafka morreu há exatamente 90 anos, em 3 de junho de 1924. Em A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, comer a massa branca e viva de uma barata era necessário para o encontro da narradora G.H. consigo mesma, encaminhando-a para o autoconhecimento. Em Kafka, a transformação metafórica no grotesco é também um passo para o próprio conhecimento ontológico, mas, diferente de como ocorre na obra de Clarice, continua nos sendo vedado. Enquanto que G.H. engole o inseto, Gregor Samsa, sentindo o incômodo de um corpo estranho e a inadequação em um mundo desumano, incorpora a metáfora e é, ele mesmo, a barata. Carone afirma que “o centro de irradiação dos conteúdos de verdade de sua obra surge a partir da existência humana, e não da fixação cósmica”. Para ele, Kafka é um grande realista do nosso mundo, que transcende os séculos para continuar sendo interpretado. O próprio Carone assume que ainda hoje se surpreende com os livros de Kafka. “Sua obra é como uma folha de aço, fina e flexível, capaz de romper a parede que nos separa da verdade. E é por isso que nós continuamos falando dele hoje”, diz.

http://revistacult.uol.com.br/home/2014/06/metamorfose-da-atualidade/
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