terça-feira, 15 de julho de 2014

Do coração e suas amarras (Cantiga d´amor de refrão), João de Jesus Paes Loureiro



Do coração e suas amarras
            (Cantiga d´amor de refrão)
João de Jesus Paes Loureiro



Esconde o oceano em uma lágrima,
acumula navalhas na memória,
em óvulo reparte o nascituro,
cala os apelos da noite, silencia
todas as falas orantes por amor,
apaga-me as lembranças, retira-me
a força de meus braços, sufoca-me
os ais! de gozo, atira-me no abismo,
acumula calvários em meus passos,
embaralha equinócios, desregula
os astros e estações, os hemisférios,
entorna o rio-mar no vão da lua,
emudece o cantar dos encantados,
desvirtua o perdão dos tribunais,
desnatura os semáforos, conflita
o trânsito, embaralha os trilhos,
seca os lábios de preces, degenera
a via-láctea, aparta a unidade
da Santíssima Trindade, cala
o Cântico dos Cânticos, desliga
candelabros no céu, desvaira vídeos,
refaz na aurora a noite, desintegra
o DNA do ser, desassossega
o sono, afasta a mão amiga
e desespera Deus, arranca o sol,
acumula em meu peito as tempestades,
apaga minha sombra, me rumina
em ódio de cruentas profecias,
com sílabas de sabres castra o verso,
retém o curso ávido da vida,
sustem o aracnídeo fio da morte,
faz do Demónio meu Anjo da Guarda,
relega-me vazio no ardil da sorte,
livra meu coração de suas amarras,
desata-me da linha do destino,
quebra os fonemas de mim neste poema,
se eu não morrer de amar de amor amado
se eu não morrer de amor por ti amada.
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