sexta-feira, 4 de julho de 2014

CRAQUE (DESCALÇO) DA CALÇADA, Elias Ribeiro Pinto



CRAQUE (DESCALÇO) DA CALÇADA
Elias Ribeiro Pinto


DIÁRIO DO PARÁ  (1/7/2104)

Foi na calçada que ocorreu meu lance, não diria o mais genial, mas o mais marcante. A bola sobrou pra mim, o gol, duas pedras lhe servindo de trave, escancarado. Mandei um tirombaço e saí aos pulos, não comemorando o gol, mas urrando de dor. Esfolara a unha do dedão.

1 Muito em breve só teremos nos campos de futebol craques de laboratório. Se é que nesta Copa de agora já não estamos experimentando essa realidade de proveta. Lembram da de 1970, em que tínhamos um craque extraordinário, Pelé, rodeado de uma legião de craques como Tostão, Jairzinho, Gerson, Rivelino e Brito? Está bom, vamos dispensar o Brito dessa roda. E hoje? Temos um craque (que ainda não é excepcional), Neymar. E só. É verdade que em 1994 também só tínhamos um craque, o Romário. Que, na falta de coadjuvantes à altura (talvez o Bebeto), tinha um xerifão para limpar a área em torno do mocinho: Dunga.

2 Hoje, com as várzeas rareando e o perigo rondando as ruas, as crianças (que no passado atendiam pelo título de moleques) jogam futebol em escolinhas, expostas às idiossincrasias, para o bem e para o mal, de um “método”, de uma “escola”. Nesse processo, raramente sobrevive o improviso, desenvolvido pelos moleques de antigamente, quando viviam o futebol nos campinhos espalhados em volta da casa, fugindo do alcance do grito da mãe chamando para o almoço, o jantar, o colégio. Os improvisos vinham da necessidade de não só driblar o jogador do outro time, mas também a árvore no meio do campo, o toco, o banquinho da praça, o buraco, a poça, os carros que passavam, o poste, os passantes...

3 Eu tive minha época de moleque de rua. Eu era o Zanata, como era chamado numa das ruas em que morei, a João Balbi. Zanata era um meio-campo do Vasco. Jogávamos na rua, nos finais de semana, a circulação de carros escasseando (naquele tempo, os finais de semana tinham menos carros), e na calçada, no resto dos dias.

4 Foi na calçada que ocorreu meu lance, não diria o mais genial dessa fase, mas o mais marcante. A bola sobrou para mim, o gol, duas pedras lhe servindo de trave, escancarado. Mandei um tirombaço e saí aos pulos, não comemorando o gol, mas urrando de dor. Esfolara a unha do dedão, que pendia (a unha, não o dedão), inutilizada, a carne em brasa. Jogava descalço. Passei uma semana tendo de ir à farmácia para tomar injeção, acho que antitetânica, anti-inflamatória. Claro, minha fama como Zanata ficou um tanto quanto esfolada. E até hoje não sei se aquele chute cruento resultou em gol.

5 Com o passar dos anos, no entanto, vi-me obrigado a recuar no campo de batalha. Explico. Ali pelos 14 anos de idade, começou a falhar-me não o golpe de vista, mas a própria vista. Na minha primeira consulta ao oculista (que, ufa, não foi o Duciomar), saí de lá com mais de 1 grau de miopia, que só fez crescer com o passar dos anos.

6 Ora, atuando no ataque, tinha de estar atento à trajetória da bola, a fim de alcançá-la antes dos zagueiros. Com a vista enfraquecendo, principalmente no lusco-fusco do entardecer, vi-me obrigado a retroceder, a fim de armar o jogo no meio-campo. Não ficava nem longe da bola que vinha da defesa, nem distante dos atacantes a serem municiados, ambos ao alcance da minha visão em despedida.

7 Com mais de 3 graus de miopia, fui para a defesa, onde já não precisava ver a bola. Divisava apenas o atacante chegando, a tempo de levantar-lhe com bola e tudo. A bola podia passar, não o adversário. Finalmente, próximo dos 5 graus de miopia, só me restava, nas peladas, ser juiz, que, em geral, é cego, não vê nada.

8 Porém, com tantos erros, e me guiando apenas pelos xingamentos em torno, nem juiz me deixaram ser. Restou-me apenas o banco, não o de reserva, mas o do boteco, onde aguardava a volta dos companheiros. Encontrei, enfim, o meu lugar, onde estou até hoje. Lamento apenas que, por causa da miopia, tive de encerrar a venturosa carreira de jogador que se estendia diante de mim. Se prosseguisse, alcançaria a glória, e junto com ela minha libertação financeira: ser o camisa 10 da Tuna Luso Brasileira. Fica para outra encarnação. Isto se a Tuna também reencarnar

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