domingo, 17 de janeiro de 2016

DA JANELA DO QUARTO DE DORMIR (LICENÇA AÍ, LÔ BORGES), ELIAS RIBEIRO PINTO



DA JANELA DO QUARTO DE DORMIR (LICENÇA AÍ, LÔ BORGES)
ELIAS RIBEIRO PINTO
Ilustração de Luis Pinto
Para o Circular Campina

Eis a mais recente crônica para o Circular Campina, que já está nas ruas deste domingo. O texto é brilhantemente (ou melhor, "chamejantemente") ilustrado pelo desenho de Luiz Pinto, que captou minha ordem divina de despejo ao casal vira-lata que queria fazer "as coisa" debaixo da minha janela. Aqui na Campina, claro. Só lendo a crônica.
DA JANELA DO QUARTO DE DORMIR (LICENÇA AÍ, LÔ BORGES)

Um hóspede do principal hotel do bairro – a nossa Campina –, e um dos principais da cidade, é assaltado quando desce do táxi defronte ao hotel, em plena Presidente Vargas, por um ladrão que chega na garupa de uma moto.
Não deixa de ser um acontecimento extraordinário, mesmo numa cidade violenta como Belém, tão extraordinário quanto os que já testemunhei bem embaixo da minha janela, aqui na Ferreira Cantão, pertinho do Princesa Louçã, ex-Hilton, o hotel do primeiro parágrafo
Já fui acordado, de madrugada, várias vezes, com ladrões quebrando janela de carro. A última vez, tem pouco mais de uma semana (foi agora em janeiro), despertei às três da madrugada. Um barulho estranho. Alguém revirando lixo, rasgando sacos? Mas àquela hora da madrugada? Então, um rasgo mais forte. Resolvo ir à janela. A tempo de ouvir as exclamações que partem de outras janelas, o burburinho que se levanta. Alertado pelo barulho, chega o dono do carro: pois não rasgaram a lona que cobria a parte traseira de sua caminhonete e fugiram carregando uma prancha de surf?
Outra vez, fui acordado, madrugada alta, com o seguinte diálogo:
– Eu juro, não vou te enganar. Olha, pode segurar a minha bolsa. Eu vou, tomo um café ali numa banca, troco o dinheiro, e fico com quinze.
– Não vai mesmo? Olha, eu tenho cinco trocado. Não pode ser?
– Não, cinco não vale. Acredita em mim. Estou dizendo, fica com a minha bolsa. Agora, se fores embora, vou atrás de ti, faço um escândalo.
– Então prometes que trocas e trazes o resto de volta?
– Juro, pelo amor da minha filha.

O diálogo acima (ou ao menos a tentativa de reprodução que dele tentei esboçar) aconteceu bem debaixo da janela de casa, do meu quarto de dormir. Era por volta das quatro da madrugada, já no domingo do Círio passado.
A Ferreira Cantão, em geral uma rua quieta, principalmente no ermo das noites – quando as ruas centrais da cidade perdem o burburinho constante da gente que circula em torno de bancos, de prédios públicos, da vida que se faz diariamente no centro –, naquela madrugada o movimento, intenso, fugia da rotina, da quietude. Era a virada do sábado para o domingo do Círio.
Afinal, da noite da trasladação até o amanhecer com a procissão, a circulação não cessa, de carros (por causa do trânsito interrompido mais acima, na Presidente Vargas), de gente. E de cenas, digamos, paralelas, como se acontecessem nos bastidores da grande festa religiosa (e profana).
Naquela noite, madrugada chegando, já tinha visto, lá na esquina, um casal que se arrochava, daquele tipo que quando alguém passa, de carro, grita: “Paga motel!”. Em outro momento, uma mulher, conhecida na área, fumadora de crack, tossia desesperadamente no meio-fio, buscando ar, como num acesso de asma. E aí fui dormir.
Até que mais tarde, já por volta das quatro da madrugada, acordei com o diálogo transcrito no início desta coluna, bem debaixo da minha janela. Logo percebi que se tratava, digamos, de um acerto de contas. Acertava-se o valor de um serviço sexual. Era, afinal, uma transação (anexar o trocadilho) de livre mercado, lei de oferta e procura, de demanda reprimida, toma lá, dá cá.
Aguardei que chegassem a um “denominador comum” e enfim partissem rumo a um dos motéis baratos que abundam (sem anexar trocadilho) aqui na Campina. No entanto, para minha surpresa, definidos os valores, o acerto parecia que ia se consumar ali mesmo.
Não acreditei. Levantei, abri e janela e me deparei com a cena que nem Dante aceitaria liberar o adjetivo dantesco para descrevê-la. A mulher (a ouvi dizer, um pouco antes, que “de costas não”, que assim se machucaria, ficaria lanhada), já de quatro, se oferecia ao homem, branco, parecendo um trabalhador, ou saído ou a caminho do emprego, que arriava as calças, tentando liberar, digamos, a ferramenta. “Vocês vão fazer isso aqui mesmo?”, disse, surpreendendo-os. Como a voz vinha de cima, do nada, parecia que um deus, colérico, os flagrara no ato vira-lata.
 Ilustração de Paulo Emman

Desnorteado, ele levantou as calças e disse, à guisa de desculpa: “Vamos que a gente está incomodando”. Ela, depois do susto, saiu imprecando: “A gente não pode nem trabalhar em paz”. Era a mesma que há pouco se esganiçava, roncando em busca de ar, como numa crise asma. Só faltou que ele, antes de consumar o intercurso canino, fizesse uma selfie pornô. Selfie dantesca. Perdoa aí, Dante. E assim caminha a humanidade, se aliviando pela rua como cachorros.
E ele se foi com ela fazendo um escândalo às suas costas, como havia prometido.
Esta é a Campina. Nem pior, nem melhor que o resto da cidade. Mas é um bairro em que muitos circulam, vindos de todos os cantos da cidade. Mas de noite, noite alta, é a nossa Campina, que passa debaixo da janela do meu quarto de dormir.

https://www.facebook.com/elias.ribeiropinto/posts/10205674455922321
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