quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

CASTELINHO E A MULHER BELENENSE, ELIAS RIBEIRO PINTO



CASTELINHO E A MULHER BELENENSE, 
ELIAS RIBEIRO PINTO



COLUNA DESTA QUARTA, JORNAL DIÁRIO DO PARÁ (13/1/16)

Antes de se tornar o mais importante comentarista político do país, o ainda jovem jornalista Carlos Castello Branco (1920-1993) esteve pela primeira vez em Belém, em 1947. Entre suas impressões, constatou que “as mulheres têm perna fina, seios enormes e poucas são as que têm bunda digna de nota”. Quase 70 anos depois, a mulher belenense ainda cabe nesta descrição?
1 Lançada no ano passado, “Todo Aquele Imenso Mar de Liberdade” é a biografia de Carlos Castello Branco (1920-1993), que durante anos assinou a mais importante coluna política do país, a “Coluna do Castello”, publicada no “Jornal do Brasil”, já extinto.

2 De autoria do jornalista Carlos Marchi, a certa altura a biografia informa que um ainda jovem Castelinho (como Castello era conhecido) fez, no começo de 1947, “sua mais longa viagem até então, considerando a distância percorrida, e não o tempo gasto”. Piauiense, Castelinho fez seus estudos em Belo Horizonte, de onde se transferiu para a imprensa da então capital do país, o Rio de Janeiro.

3 Diz Marchi que seu biografado, em 1947, aos 27 anos incompletos, veio “a Belém para fazer alguma cobertura especial que os registros não legaram à posteridade”. Maravilhado pela experiência “exótica”, narrou em carta ao amigo Otto Lara Resende suas descobertas na terra desconhecida.

4 “Aqui chove estupidamente, como se não fosse necessário fazer outra coisa. O passo é lento, os homens trabalham lentamente. As mulheres têm perna fina, seios enormes e poucas são as que têm bunda digna de nota. É uma distração brincar com os seios das putas, geralmente com acentuados traços indígenas. Recebem qualquer dinheiro e pedem discos de presente. Gostam muito de vitrola. Tem a cidade velha, velhíssima, e a cidade nova, também velha. A luz é quase uma ficção, ou melhor, um anseio. Mas talvez seja melhor assim porque medievaliza as ruas quase coloniais.”

5 O biógrafo flagra, no texto, um “imperdoável preconceito”, embora, contemporiza, “compreensível à época”. O que vocês acham da descrição das paraenses por Castelinho, de que possuem “perna fina, seios enormes e poucas são as que têm bunda digna de nota”?

6 Nas décadas de 1940/50, o verão carioca ainda não tinha a força e o apelo atuais. A comparação se impõe diante do que Castelinho observaria no Rio, uma vez que seu Piauí natal, nem a BH que adotou por um tempo, estampariam bundas mais vistosas.

7 A propósito, a temporada do verão carioca, imposta pela mídia, traz, a tiracolo, ou à retaguarda, a maciça divulgação dos produtos que descem à praia junto com o veranista. Sob a estação dos torós amazônicos, a TV e as prateleiras nos impõem anúncios de cerveja e bronzeadores. Menos mal que, cá ao Norte, mesmo nessa época, sempre sobra uma insolação entre as chuvas.

8 Com as praias cariocas em alta, o horizonte é dominado por essa instituição nacional, ao menos do ponto de vista masculino (mas que as mulheres sabem ressaltar): a bunda. Como? (E por favor, aqui não vai nenhuma interrogação, hum, digamos, culinária.) Você considera bunda um termo grosseiro? Nádegas seria melhor? Ou então o familiar e infantilizado bumbum?

9 Esteja à vontade. Alternativas não vão lhe faltar. O jornalista Sérgio Augusto, em apropriado artigo escrito para a finada revista Bundas (que, sem fundos, fechou deixando abundante dívida), listou 211sinônimos para a palavra bunda, muito mais do que os americanos foram capazes de criar para o seu fetiche anatômico feminino, os seios.

10 Mas é verdade: as mulheres indígenas não se faziam notar por nádegas protuberantes, por bundas salientemente grandes. E, ao contrário do que você imagina, Pindorama não era exatamente o éden sexual. Talvez por tudo estar a descoberto, nossos nobres guerreiros não tinham o apetite carnal muito acentuado (canibalismo noves fora).

11 Foram as mulheres de origem afro-negra, a partir do século XVI, que deram voluptuosidade ao tema em questão. Gilberto Freyre flagrou isso como ninguém em “Casa-grande & Senzala”.

12 E, justiça seja feita, não vamos esquecer, em favor da aludida protuberância, a decisiva contribuição das mulheres ibéricas, inclusive portuguesas, presentes na colonização do Brasil: chegavam a rivalizar, com as negras, na curva do violão. Disso tudo, dessa miscigenação, composição, avultou o tipo brasileiro.

13 De graduação em graduação chegamos a esta cadência de bundas ondulantes, expressão mais bem acabada dessa miscigenação nacional. Que Castelinho não notou entre nós. Passados 70 anos, essa “realidade” mudou?

https://www.facebook.com/elias.ribeiropinto/posts/10205652597575876
Postar um comentário