segunda-feira, 23 de março de 2015

POEMA QUASE EXPLICAÇÃO, Moacyr Félix



POEMA QUASE EXPLICAÇÃO
Moacyr Félix



Luzes cortaram mais uma vez a noite básica
e desenharam o mundo em que vivemos.

E as estrelas derramaram pedra e cal
e construíram em cada olhar muralhas
onde fonte magra pinga sol e lua,
— e o relógio é um deus cantando as horas
horas de pedra e cal, prontas para o nada.

Simplificado como uma lágrima
cruzaste a tua ponte de meninos mortos:
não mais o refletido caminhar
de teus passos na noite iluminada,
mas o descer com os olhos a ladeira
e deixá-los no cárcere sem portas
onde os ratos e os anjos se devoram.

Impassível como um tronco de árvore, onde
os homens gravam a canivete o que calaram.
 

"Poema Quase Explicação"
    In Invenção de Crença e Descrença
   
Civ. Brasileira, Rio de Janeiro, 1978
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