sábado, 21 de março de 2015

ANTONIO MARIA



ANTONIO MARIA
antonio maria araujo de morais

ANTÔNIO MARIA (Antônio Maria Araújo de Morais) nasceu em Recife a 17 de março de 1921. O escritor mantinha colunas nas quais publicava suas crônicas diárias, em jornais importantes: O Jornal, onde permaneceu por 15 anos; O Globo, em 1959 (aí ficou por pouco tempo); e Última Hora.
Convidado por Assis Chateaubriand, dono da TV Tupi, que foi inaugurada em 1951, Antônio Maria assumiu o cargo de diretor de produção da emissora. No ano seguinte mudou-se para a Rádio Mayrink e daí para a TV Rio, onde, entre outras coisas, apresentou um programa com Ary Barroso durante o ano de 1957.
Na música, foi compositor, e teve como parceiros Geraldo Mendonça, Maestro Aldo Taranto, Fernando Lobo (pai de Edu Lobo). Antônio Maria também foi parceiro de Luiz Bonfá - escreveu a letra de Manhã de Carnaval, uma das músicas mais executadas no exterior, e que seria um dos temas musicais do filme franco-ítalo-brasileiro Orfeu Negro, ganhador da Palma de Ouro em Cannes e do Oscar de melhor filme estrangeiro.
Como bem salienta um artigo da revista Bravo! na edição de 100 canções essenciais da música popular brasileira (2008), a música Manhã de Carnaval, de Luiz Bonfá e Antônio Maria ganhou o mundo: “Com a projeção dada pelo filme e a aventura do violonista Luiz Bonfá nos Estados Unidos, a música se tornou um grande sucesso. Além disso, embarcou na carona da carreira internacional da Bossa Nova, que pouco tempo depois estouraria. Manhã de Carnaval se tornou um clássico do jazz ao ganhar uma versão em inglês chamada A day in the life of a fool”.
No dia 15 de outubro de 1964, na cidade do Rio de Janeiro, o coração desse artista versátil, que já vinha dando mostras de cansaço, não aguentou mais. Antônio Maria morreu muito cedo, aos 43 anos. Maria, como era conhecido, fez muitos amigos: Di Cavalcanti, Dorival Caymmi, Jorge Amado, Vinícius de Moraes, Carlos Heitor Cony, Aracy de Almeida, Luiz Bonfá, dentre tantos outros. Morreu o artista, mas a sua obra continua bem viva, não apenas no Brasil. Sua arte foi o seu legado.
 Segue a crônica de Antônio Maria intitulada Café com leite (In Crônicas de Antônio Maria. São Paulo: Paz e Terra, 1996, 59-60):

CAFÉ COM LEITE
(Antônio Maria)
  
É preciso amar, sabe? Ter-se uma mulher a quem se chegue, como o barco fatigado à sua enseada de retorno. O corpo lasso e confortável, de noite, pede um cais. A mulher a quem se chega, exausto e, com a força do cansaço, dá-se o espiritualíssimo amor do corpo.
Como deve ser triste a vida dos homens que têm mulheres de tarde, em apartamentos de chaves emprestadas, nos lençóis dos outros!  Como é possível deixar que a pele da amada toque os lençóis dos outros! Quem assim procede (o tom é bíblico e verdadeiro) divide a mulher com quem empresta as chaves.
Para os chamados “grandes homens”, a mulher é sempre uma aventura. De tarde, sempre. Aquela mulher, que chega se desculpando; e se despe, desculpando-se; e se crispa, ao ser tocada, e cerra os olhos, com toda força, com todo desgosto, enquanto dura o compromisso. É melhor ser-se um “pequeno homem”.
Amor não tem nada a ver com essas coisas. Amor não é de tarde, a não ser em alguns dias santos. Só é legítimo quando, depois, se pega no sono. E há um complemento venturoso, do qual alguns se descuidam. O café com leite, de manhã. O lento café com leite dos amantes, com a satisfação do dever cumprido.
No mais, tudo é menor. O socialismo, a astrofísica, a especulação imobiliária, a ioga, todo ascetismo da ioga... tudo é menor. O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira.

http://panorama-direitoliteratura.blogspot.com.br/2014/01/cronica-antonio-maria-cafe-com-leite.html



O coração de Antônio Maria
Por RUBEM

Revista da Crônica – Notícias, entrevistas, resenhas e textos feitos ao rés-do-chão.

Mas como passar pela vida sem ter lido crônica de Antônio Maria? Faz parte das coisas simples e bonitas, e por isso absolutamente essenciais para um bem-viver. Tanta ternura junta! O que Antônio Maria precisaria ter escrito para que fosse lembrado como um dos nossos melhores cronistas? Tem o Braga, tem o Sabino, tem o Paulo Mendes Campos… mas tem também o Antônio Maria, pô!
Estão falando por aí, e com razão, que a crônica do Paulo Mendes Campos não é tão valorizada quanto deveria e merecia. Pois imagine a crônica do Antônio Maria! No máximo inspira frases do tipo “Ah é, teve esse também”. Verdade é que Antônio Maria também não ajuda – a começar pelo nome. Hoje em dia, talvez fosse o caso de escrever na capa de seus livros: “Antônio Maria, mas não o padre”.
E também tem esse jeito de escrever como quem não quer nada, como quem joga conversa fora. Vejam vocês, o homem era cardiopata –  foi isso que o matou ainda jovem. E ninguém mais do que ele usou a crônica para escrever com o coração, e muitas vezes sobre o coração. Não à toa, um dos mais belos textos da coletânea “Benditas Sejam As Moças” se chama “O Coração dos Homens”.
Já falei da ternura? É a palavra que melhor encontro para classificar suas crônicas. Neste livro em especial elas versam sobre a busca pelo amor. E Antônio Maria é sincero demais para repetir clichês. Na verdade, Antônio Maria parece ser o sujeito que melhor incorpora aquilo que tradicionalmente se espera da crônica: um texto leve, de linguagem simples, falando de coisas cotidianas, dialogando e brincando com o leitor, em meio à uma ou outra tirada poética de embasbacar.
São textos divertidos e emocionantes. Antônio Maria tem um dos estilos mais agradáveis e fáceis de se ler da crônica.  É um dos monstros do gênero. Um monstro que é todo coração.
http://rubem.wordpress.com/2013/04/03/o-coracao-de-antonio-maria/


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