sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

CURTUME, Caio Fernando Abreu



CURTUME
Caio Fernando Abreu


Nenhum poema libertário
libera a tarde do gigantesco inútil
derramado em copos de cinza
sobre as paredes sujas.

Nenhum poema inflamado

desinflamaria o pus da paisagem mutilada
pelas chaminés vomitando fuligem
sem parar.

Nenhum poema possível

possibilita a transmutação do nada
curvado sobre cada uma das máquinas
em toques secos.

Nenhum poema pirado

pararia a voragem estúpida
gerando monstros coloridos
em papel couché.

Nenhum poema solto

soltaria outra vez as pandorgas perdidas.
Preso na gaveta, solto no vento: nenhum poema.
Nem mesmo este.

                  Caio Fernando Abreu, Poesias Nunca Publicadas
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