segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

ÀS MARGENS DESTE RIO CANTAREI, Moacyr Félix



Moacyr Félix



a Luiz Paiva de Castro

Às margens deste rio cantarei com alegrias e tristezas
várias faces de todo o ser do homem. De pé, atrás dos ponteiros
onde a vida é desnuda e o sangue não pergunta,
eu tentarei cravar entre os ossos do meu tempo
o pesadíssimo lamento do silêncio dentro das coisas.
Linha dos horizontes, o coração se estende
ao lado dos amantes e colhe o mel das luas
que aclararam o mar de amor entre dois corpos.
Assim surge a promessa e o fundamento de uma utopia
que minhas auroras cavoucam no que ainda não tem fala.
Cisne em rio noturno, se o coração se põe
em marcha e bebe os vinhos deste vento

que sopra o último adeus dos fuzilados
em direção a nós,
os rumos, de tão claros, arrancam choro e sangue
no canto que os celebra.

II
Às margens deste rio
cantarei
os pobres e os humildes
e a aurora sempre a mesma
no olhar dos que conduzem
os pobres e os humildes.
E as estradas tão longas
no coração dos velhos
e a navegante mesa
dos ébrios, e o sapato
imóvel dos defuntos,
e o férreo marche-marche
dos trens cruzando as pontes
cantarei como poeta às margens deste rio
que os ricos armadores sombrearam de navios
carregados de urânio e de ouro negro
e de perguntas prisioneiras.

III
Inalterável, eu, que atravessei o tempo
com a mensagem triste dos velhos outonos
presa no meu relógio,
eu, védica sandália, Atenas grave e trágica
ou doce fruto de uma dor hebraica,
às margens deste rio
cantarei no que fui como criança
a lenda
de uma princesa adormecida
(tão bela como a vida)
que dormia e dormia
(tão bela como a vida)

até que a despertaram
 
            tão bela como a vida. 
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