sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

ÉGLOGAS PARA UM SENHOR CHAMADO CARNAVAL Francisco Vaz Brasil



ÉGLOGAS PARA UM SENHOR CHAMADO CARNAVAL
Francisco Vaz Brasil



toda gente se achegou
por necessidade
por sadismo
talhando pedra e barro
aos empurrões
e palavrões
à praça
perplexa e apática

os blocos
- palhaços mambembes
costelas viventes
de uma inflação muda:
               punhal afiado

os blocos passando
- desfile macabro
corpos fantasiados
batucada fantasma
em desfile
na álgida metrópole

o Teatro –da Paz –
taciturno observa,
há tempos imemoriais
na espessura do gesso
na pauta sonora e fria
no espaço da moldura
nas vozes suplicantes
das noites da belle èpoque

no terraço dos edifícios
as pedras não entenderam e se calaram
em sua saliva de pó e calcário

nas escolas (de samba)
surgiram equações no gesto
e dúvidas no esquadro:
os passos seriam milimétricos;
os giros do compasso eram a agonia
da porta-estandarte e o mestre-sala tremia
como quem nasce (oh, carnaval)
em círculos de bronze
rodas de samba, brazões e tradições...

as evoluções do passista
no tapete vivo de carne e asfalto
são a esperança
e a voz do crooner , desafinada,
era talho e atalho no corpo
              inerte e inerme
               da platéia
(que se oferece dúbia,
nas curvas, como um rio
marmóreo, límpido, onírico)

a praça sozinha,
em meio à multidão, sorri
sua forma bem lavada
em barras de suor,
lágrimas felizes
e aço em combustão

mas o carnaval
nasce assim, maduro:
é o tempo
paridor de estrelas
cubos, alvoradas e cristais;
lágrimas congeladas,
sorrisos y sorridentes
- brincantes forjados em laboratório

é o carnaval
que da estrutura dos ritmos
criou a linha do viver
e o carnaval está nas gentes
incrustado como a ostra
à espera da semente perolar

está no tempo a descoberto
para o orvalho e o raio
sob a chuva e as margaridas
com prêmios de mil centavos

sim, e ele explode em nós
em glóbulos, nas artérias
e dele correm os homens tranqüilos
em rodas e pedais do esquecimento

para quem amou
nele está p segredo, ou no umbigo,
o silêncio antigo, o ruído das palavras
o atrito e a entrada da lâmina
      no subterrâneo do prazer!

e o museu com o que se disse
                  e o que não se disse
e o passado em retângulos de mármore
vê o carnaval como paralelos
cravados sobre o chão

lá estão o moço e a moça
os seus estremecimentos
e a criança
- seu medo de ser aborto e natimorta

no bar do parque, sim,
aqui gasta-se o níquel
e don Juan deseja o mulher do próximo
- aqui se ama, se amou, se amaram
o índio e a loira sob os lençóis do horizonte

a gênese do carnaval
líquido, alegre, sujo, loucoricida,
entrementes, é imensa e única:
- de um fio faz-se o tecido,
- por um fio faz-se a massa
  estonteante da mulher amada
  (margens calculadas para o amor)
e por um fio fez-se o poema e a roupa
por um fio faz-se um filho e um rio
por um fio faz-se encurtar distâncias
por um fio também jorra
o sangue dos que fazem o crime a guerra

por um fio,
podemos salvar o nosso carnaval...

[Publicado no jornal Folha do Norte, de Belém,
Em 30 de janeiro a 5 de fevereiro de 1978]
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