terça-feira, 22 de outubro de 2013

Walt Whitman e as Folhas de Relva Eduardo Pitta



Walt Whitman e as Folhas de Relva

Eduardo Pitta

Walt Whitman é um dos símbolos da América — libertário, aventureiro, entusiasta. Eduardo Pitta acompanha a par e passo o caminho da vida e obra de um dos mais polémicos poetas do seu e nosso tempo. No fundo, «as doutrinas libertárias dos sixties, o folclore hippy, o pacifismo, a ressaca dos «guerreiros» do Vietnam (que seria uma espécie de ressaca «sulista» actualizada, como num processo de transfert), as conquistas da ecologia, as exigências do black power e a afirmação planetária do movimento gay, pese sempre o americaníssimo tiro de partida, tudo situações que a obra de Whitman prenunciou». Um pretexto para, como leitores, revisitarmos Leaves of Grass

Walt Whitman nasceu em West Hills, Huntington (Long Island), a 31 de Maio de 1819, e foi educado com a rigidez característica dos quakers, comunidade de que sua mãe, Louisa Van Velsor, de origem holandesa, fazia parte. É do domínio das enciclopédias. Mas há um ponto obscuro em que os biógrafos de Walt Whitman divergem: é na abordagem que fazem do caso de Southold. Aconteceu mesmo ou tudo não passou de um boato sórdido? O futuro autor de Leaves of Grass terá sido apontado publicamente como violador de um rapaz. A acusação (1841) encontrou eco no púlpito da igreja local, e o mestre-escola não teve alternativa. Abandonou as funções e a terreola. O incidente parece não ter tido outras consequências. Justin Kaplan considera a história apócrifa, uma «lenda», a juntar a outras. David S. Reynolds, autor de Walt Whitman's America: a Cultural Biography (1995), sustenta que tudo não passou de um golpe sujo, de origem corporativa. O perfil de Whitman, que começara como paquete no escritório de um advogado e fora aprendiz de tipógrafo, era considerado pouco ortodoxo para um mestre-escola. Havia sido (1838-39) o editor-fundador do Long-Islander, um semanário de Huntington onde publicou poesia e prosa e, durante a campanha eleitoral de 1840, participou da fracassada tentativa de reeleger como presidente o democrata Martin Van Buren, que era contra a anexação do Texas (perdeu para o conservador W. H. Harrison — e o Texas foi anexado em 1845). Também se preocupava excessivamente em estimular o gosto pela vida ao ar livre e pelos valores da natureza. Não espanta que a tradição oral do pequeno burgo fosse malévola. Mas, sobre Southold, parece haver esqueletos no armário. Porém, activistas e historiadores da condição homossexual (ou como tal «apropriados» pelos sectores militantes da crítica gay), coevos de Whitman, casos de, entre outros, os escritores ingleses John Addington Symonds [1840--1893], Edward Carpenter [1844-1929] e Henry Havelock Ellis [1859-1939], omitem o facto. Do outro lado, há quem argumente com o imaginário sadista das prosas da juvenília. Seja como for, a legenda do propagador da adhesiveness parece ter começado aí. Adhesiveness era como no século XIX chamavam à sodomia, um eufemismo pateta equivalente ao gay love contemporâneo: «Por caminhos não percorridos,/ Pela vegetação das margens das lagunas,/ Fugindo da ostensiva vida,/ De todas as normas já promulgadas, dos prazeres, benefícios, convenções,/ Tudo isso com que, demasiado tempo, alimentei a minha alma [...] Sem envergonhar-me mais (pois neste lugar distante como em nenhum outro posso abandonar-me)/ Entregue à vida que não se revela ainda que tudo contenha,/ Decido-me hoje a cantar apenas os cantos de viril afecto/ Projectando--os ao longo da plena vida,/ Legando, desde já, as formas de másculo amor,/ Pela tarde deste delicioso Setembro dos meus quarenta e um anos,/ Dirijo--me a todos os homens que são ou foram jovens,/ Conto-lhes o segredo das minhas noites e dos meus dias,/ Celebro a necessidade de companheiros.» Este poema, escrito em 1860, abre o Calamus, terceira sequência de Leaves of Grass. Na versão portuguesa (muito concisa mas de assinalável qualidade), da autoria de José Agostinho Baptista, a ordem dos poemas não segue o original. É pena, porque «In Paths Untrodden» tem a ressonância de um manifesto. Ele aí está, a abrir Whitman's Men (1996), homenagem recente de sete fotógrafos (Mark Beard, John Dugdale, Robert Flynt, Bill Jacobson, Russell Maynor, Steve Morrison e Frank Yamrus), feita a partir da «encenação» fotográfica de poemas de Calamus. O cálamo é apenas uma erva, mas, de entre todas, é aquela que tem «o caule maior e mais duro, assim como um fresco, aquático e penetrante aroma», disse o bardo.

Os anos do jornalismo Em todo o caso, foi em 1841 que se mudou para Manhattan (na infância e adolescência tinha vivido largas temporadas em Brooklyn). Na grande metrópole, ele foi engrossar o «batalhão ligeiro dos publicistas». A expressão é de John Burroughs [1837-1921], que se tornou seu amigo (conheceram-se em Washington durante a guerra civil) e foi o primeiro dos seus biógrafos. Trabalha como jornalista no Broadway Journal, dirigido então por Edgar Allan Poe, no Columbia Magazine, em New World e no Brooklyn Eagle (1846-48), de que foi despedido pelas suas posições anti-esclavagistas. Ecléctico, assina crítica de ópera e teatro, relatos de jogos de baseball, crónicas do quotidiano, artigos sobre a questão esclavagista, pequenos contos, ficção «gótica», guias de viagem, etc. É também dessa época a publicação de Franklin Evans (1842). Participa com ardor da vida da cidade, e, apesar da reputação de dandy, não deixa de frequentar night-clubs e bares de má nota, nem prescinde de conviver com operários e marinheiros. Tem 29 anos quando lhe oferecem um lugar na redacção do Crescent, de Nova Orleães. Põe-se a caminho na companhia do irmão Jeff. Atravessa o Ohio e desce o Mississipi, «o rio mais importante do globo». Mais tarde, dirá: «Para melhor compreendermos quanto a poesia importada de Inglaterra ou de qualquer outro modo reproduzida e imitada aqui nos parece anacrónica [...], é necessário, asseguro-vos, ter viajado durante bastante tempo no Mississipi.» Instala-se no Vieux Carré, um bairro boémio (a antítese do preconceituoso Garden District), a miscigenação cultural da cidade fascina-o, mas a segregação social típica da Louisiana provoca nele uma rejeição natural. Ao fim de três meses, parte precipitadamente. Antes de regressar a Nova Iorque, onde editará o Brooklyn Freeman (1948-49), visita St. Louis e Chicago, atravessa o Michigan e vai até às cataratas do Niagara. Volta como free-lancer ao jornalismo, ajuda o pai na construção civil (com o mesmo desembaraço com que na adolescência havia alugado os braços à lavoura), trabalha numa papelaria e especula no imobiliário.

Leaves of Grass A morte do pai, Walter Whitman, ocorre em 1855. É o ano da primeira edição (anónima) de Leaves of Grass. O volume, de 100 páginas, não traz o nome do editor, nem o do autor. Apenas um retrato do poeta em mangas de camisa. O copyright é de Walter Whitman. Inclui doze cantos, sem título, o primeiro dos quais virá mais tarde a ser o emblemático «Song of Myself», que representa metade do conteúdo dessa edição inaugural: «Celebro-me e canto-me,/ E aquilo que assumo tu deves assumir,/ Pois cada átomo que a mim pertence a ti pertence também.// Vagueio e convido a minha alma,/ À vontade vagueio e inclino-me a observar a erva do Verão [...] Eu, aos trinta e sete anos, de perfeita saúde começo,/ Esperando que só a morte me faça parar.» O seu estilo determinado não atraiu o público e a generalidade da crítica. Um homem, porém, não hesita: R. W. Emerson [1803-1882] escreveu ao poeta, confessando ter «esfregado os olhos para ver se esse raio de luz não passava de uma visão», dizendo textualmente: «Encontro coisas incomparáveis, incomparavelmente ditas, como o devem ser.» A carta é naturalmente privada, mas Whitman publica-a, juntamente com a resposta, na 2.ª edição (1856). Na contracapa, aparece a célebre frase: «Saúdo-o no início de uma grande carreira.» E, em contraponto, transcreve no posfácio o conjunto dos insultos (mesmo os mais soezes) que a estreia provocou. Acusam-no de arrivismo por ter usado o nome impoluto e prestigiado de Emerson em proveito próprio. O volume vem assinado e inclui 32 poemas com título. É, como a primeira, uma edição de autor. A sociedade puritana da época reage com aspereza à ousadia de Whitman, a imprensa não o poupa, há quem peça o julgamento do autor, por «obscenidade». Na North American Review, escreve-se que o livro «não contém uma só palavra que se destine a atrair o leitor pela sua grosseria», e, no Intelligencer, de Boston, lê-se que «o autor devia ser corrido a pontapés de qualquer sociedade decente, por pertencer a um nível inferior ao das bestas». Na comunidade quaker, fazem-se autos-de--fé. O escândalo atemoriza os agentes, Fowler & Wells, que se desresponsabilizam. Emerson desloca-se de Concord (um subúrbio elegante de Boston) a Brooklyn, para o conhecer pessoalmente, e traz do encontro uma funda impressão. A poesia não o afasta do jornalismo. No Times, de Brooklyn, que edita entre 1857-59, escreve anoninamente textos laudatórios sobre si mesmo e acerca de Leaves of Grass. É a reacção à barragem hostil da crítica institucional, que via nele um «monstro». Alguns jornais chamam-lhe «itifálico», uma forma muito arrevesada de o injuriar, rotulando-o de homossexual (itifálicos seriam, por associação com o linga sânscrito da tradição hindu, os adoradores do falo). Emerson não desiste e envia um exemplar da obra a Carlyle [1795-1881], que ajudará a projectar o seu prestígio na Inglaterra. Quando, em 1860, vai a Boston para o lançamento da 3.ª edição (aumentada para 154 poemas), é já um autor reconhecido. Celebridades como Bronson Alcott, pedagogo e místico [1799--1888], H. D. Thoreau, escritor [1817--1862], ou Breck Trowbridge, arquitecto [1862-1925], não regateiam elogios e amizade. Trowbridge fala da emoção de um encontro comparável ao de Sócrates ou Salomão. O editor, Thayer & Eldridge, vai à falência no ano seguinte. Mas, como consequência do crescente sucesso junto daquele público que provavelmente teria inclinações «frenológicas»..., aparece nas bancas uma edição pirata de Leaves of Grass. Whitman é o ponto de chegada dos contrários: atacado violentamente pelos filisteus e incensado por amigos e correligionários. Tinha nascido a lenda: «[...] Os ecos estrilam com os nossos berros obscenos, e agarro no primeiro para amigo meu,/ Que seja um marginal, rude, analfabeto, marcado já por coisas que tem feito./ Vou deixar-me de representar, porque hei--de exilar-me de meus pares ?/ Ó vós, ó perseguidos, eu não vos persigo./ Eis que venho para o meio de vós a ser o vosso poeta,/ Mais serei vosso do que de todos os outros.» Jorge de Sena dirá que Whitman foi «um Verlaine sem senso do pecado, e com um sentido da grandeza e da majestade do mundo e da vida, que Verlaine não teve».

A Guerra da Secessão Whitman tinha quase 42 anos quando rebentou a guerra civil (1860--65). Estava então em Brooklyn, na companhia da mãe, e colaborava num semanário, o Standard. Tinha uma preocupação: encontrar editor para a 4.ª edição de Leaves of Grass. O irmão mais novo, George, tinha-se alistado como voluntário. O patriotismo de Whitman vai encontrar eco em Drum--Taps (1865), núcleo de poemas patrióticos que chegou a ter edição em volume. Na edição definitiva de Leaves of Grass (considera-se como tal a 7.ª, de 1881), esse conjunto, aumentado com os poemas de Sequel to Drum-Taps (1866), corresponde a uma das sequências autónomas. Os anos da guerra foram uma dolorosa experiência. Em Dezembro de 1862, tinha recebido a notícia do ferimento do irmão, durante a primeira batalha de Fredericksburg (Virgínia). Partiu imediatamente para Washington, fez uma busca exaustiva nos hospitais de campanha, instalados em igrejas e mansões, mas tudo em vão. O périplo deu-lhe uma imagem inescapável do conflito. Vai então para o front e encontra George, cujo ferimento não era grave. Mas, pela primeira vez na vida, viu a morte de muito perto. Mais de uma vez, assistiu a amputações. As epidemias alastram, o tifo e as desinterias são implacáveis. Está cercado de feridos e moribundos. Na ronda dos hospitais, onde se tornou uma figura familiar junto dos soldados, conforta esses rapazes na medida das suas possibilidades: incute-lhes coragem, escreve por eles as cartas, lê (histórias infantis, a Bíblia, poemas seus), ou faz-lhes simplesmente companhia. O relato dessa experiência foi mais tarde publicado em Memoranda During the War (1875-76). Durante a sua permanência em Washington, arranja emprego como escriturário, numa repartição pública ligada ao Departamento do Interior, graças ao empenho de Charles Eldridge, seu futuro editor, e de William Douglas O'Connor, um influente anti-esclavagista. No Inverno de 1865 conhece um adolescente irlandês, Peter Doyle, que se tornará o seu lendário companheiro. Escreve um diário e envia artigos para jornais do Norte: «Os sulistas, desesperados, cometem atrocidades, atacam os comboios, massacram feridos e prisioneiros. Os federados punem, vingam-se. A luta fratricida torna-se cada vez mais inumana [...] O Inferno, de Dante, com todas as suas dores, os seus tormentos imundos, não ultrapassa o espectáculo dessas prisões... e os mortos... os mortos... os nossos mortos.» Na opinião de Sena, as suas «reportagens da Guerra Civil da Secessão são obras-primas». A guerra provoca nele uma evolução ideológica decisiva, à luz da qual devem ser lidos poemas como «Beat! Beat! Drums!», «Bathed in War's Perfume» ou «Solid, Ironical, Rolling Orb». Na capital, assiste à segunda investidura de Lincoln: «Nunca vejo este homem sem deixar de sentir que é o tipo de pessoa por quem ficamos atraídos.» Porém, amargurava--o o facto de ver o presidente como símbolo da divisão do país. A guerra prossegue. Whitman dinamiza uma cadeia de solidariedade social (algo afim daquilo que hoje são algumas ONG) que recolhe e administra fundos e donativos oriundos de toda a nação americana.

Amante das nove musas Os burocratas são o que são, e, um dia, James Harlan, Secretário do Interior, demite Walt Whitman do modesto posto que este ocupava em Washington. O móbil era a «indecência» de Leaves of Grass... Nem a influência de Trowbridge demoveu o futuro senador, e a exoneração consumou-se. Até o vestuário de Whitman serviu de pretexto: evocava a «clássica silhueta do plantador sulista»! Um grupo de amigos bem colocados intercede junto dos círculos oficiais, e o Procurador-Geral acolhe-o no Ministério da Justiça, como assalariado (1865-74). Entretanto, uma gripe afasta-o por uns tempos da capital. Regressa antes da capitulação do general Lee, a 9 de Abril de 1865. A União triunfou. Dias depois, a 14, Lincoln morre às mãos de um sulista fanático, John Wilkes Booth. Whitman era um unionista convicto, e o assassinato de Lincoln provocou nele uma angústia desmedida. Escreve, sob o efeito da tragédia, «When Lilacs Last in the Dooryard Bloom'd», uma elegia que é considerada um dos textos mais tocantes da literatura americana de todos os tempos (Whitman editou-a numa pequena brochura, acolhida com indiferença no tumultuado rescaldo do conflito). O eco da sua reputação alastra: Burroughs publica na Galaxy um ensaio sobre o homem e o poeta, enquanto William Douglas O'Connor edita um panfleto apologético, O Bom Poeta dos Cabelos Grisalhos, onde, sem rodeios, faz a defesa desassombrada do amigo. Também se deve a O'Connor o plano de divulgação, nas páginas do New York Times, da 4.ª edição (1867) de Leaves of Grass, custeada pelo autor. Inclui oito novos poemas. A crítica «oficiosa» continua alérgica: «[...] Sou tão delicado com os intestinos como com a cabeça e o coração,/ Para mim a cópula não é mais grosseira do que a morte.// Creio na carne e nos apetites,/ A vista, o ouvido, o tacto, são milagres, e cada parte, cada migalha de mim, é um milagre.// Sou divino por dentro e por fora, e santifico tudo o que toca ou me toca,/ O odor destas axilas é mais belo que uma oração,/ Esta cabeça mais do que os templos, as bíblias e todos os credos [...].» Vendem-se apenas 100 exemplares. Mas, na Inglaterra, Carlyle, Ruskin, Swinburne (que o punha ao nível de Blake) e Anne Gilchrist, com quem se correspondeu regularmente e que se tornará uma das suas maiores amigas, fazem com que seja um autor respeitado. O pré-rafaelita William M. Rossetti (irmão do pintor Dante Gabriel Rossetti), edita Poems by Walt Whitman (1868), e Edward Dowden, uma autoridade em estudos shakespearianos, escreve Poesia e Democracia a pretexto de Leaves of Grass. Na Alemanha, em França e na Dinamarca, a ressonância é menor, mas a sua obra começa a ser um património comum. Em 1915 (isto é, com o proverbial atraso de sempre), Portugal entra no coro. Pela boca de Álvaro de Campos, Pessoa saúda-o num poema torrencial: «De aqui de Portugal, todas as épocas no meu cérebro,/ Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo,/ Eu, de monóculo e casaco exageradamente cintado,/ Não sou indigno de ti, bem o sabes, Walt,/ Não sou indigno de ti, basta saudar-te para o não ser.../ Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio,/ Sou dos teus, tu bem sabes, e compreendo--te e amo-te [...]». O engenheiro sensacionista não fez a coisa por menos e comparou a obra de Whitman a «uma erecção abstracta e indirecta no fundo da minha alma». Ofélia Queiroz nunca foi capaz de tanto.

The Good Gray Poet O ano de 1871 é o da emancipação dos negros e da XIV Emenda à Constituição (que lhes dá o direito de votar). É também o ano da Exposição Internacional de Nova Iorque, onde Whitman declama alguns poemas inéditos, e o da 5.ª edição de Leaves of Grass, de que são feitas duas tiragens com poucos meses de intervalo. A colectânea colige agora um total de 273 poemas. Publica, ainda nesse ano, Democratic Vistas. O estilo é seco e descritivo. A obra questiona a corrupção social e política daqueles tempos. No ano seguinte vai a Hanover, no New Hampshire, a convite do Dartmouth College, uma universidade de tradições liberais. E, em 1873, sofre dois reveses significativos. A 23 de Janeiro, fica paralisado do lado esquerdo. Corolário da temida «malária dos hospitais», que lhe havia sido diagnosticada em 1869? Peter Doyle não abandona a sua cabeceira. Os tratamentos eléctricos e a robustez física fazem o resto. Em Abril, recuperou parte da antiga agilidade. Mas, a 23 de Maio, Louisa Van Velsor, sua mãe, morre. Foi para ele o mais rude dos golpes. Tem crises de hemiplegia pertinaz, deixa-se abater, está um farrapo. Vai viver para casa do irmão George, em Camden (New Jersey). Ainda não recuperado da depressão, fisicamente debilitado, é informado, em Julho de 1874, da sua demissão do Ministério da Justiça. A imprensa sensacionalista lançara outra onda de insinuações torpes: perde o emprego. Não desiste. Em 1876, faz sair dos prelos a 6.ª edição de Leaves of Grass (chamada «do centenário» por coincidir com o centenário da declaração de independência dos Estados Unidos), manualmente composta por si, em Camden, na tipografia de um amigo. A obra aparece desta vez em dois volumes: o 1.º reproduz a edição anterior e no 2.º aparecem os ensaios e vinte poemas inéditos. Divide agora o seu tempo entre Camden e Filadélfia, onde vivia Anne Gilchrist [1828-1885]. A autora de Life of Etty (1855), estudiosa e biógrafa de Blake e Mary Lamb, grande admiradora da poesia de Whitman, viveu nos Estados Unidos entre 1876-1879, tendo ajudado a aglutinar à volta do amigo um elo de apoios materiais e cumplicidades electivas. Em 1879, Whitman faz a sua primeira viagem ao Oeste. Está meio-paralítico, tem 60 anos, mas vai até ao outro lado do continente: parte de Filadélfia e atravessa as Montanhas Rochosas. Em Specimen Days (1882), dirá: «Interrogo--me, na verdade, sobre se os habitantes deste interior do Continente, do Oeste Americano, sabem que arte de primeira ordem possuem nestas pradarias. [...] Se soubessem como essas pradarias correspondem absolutamente em grandeza ao firmamento e ao oceano com as suas vagas? Como elas alargam, acalmam, alimentam a nossa alma?» Sena traça com impressionante nitidez o retrato do poeta: «Os seus costumes, a sua franqueza, o seu erotismo, o seu radicalismo político, a sua expressão anaforicamente tumultuária e repetitiva, o seu gosto das apóstrofes e das enumerações, o seu verso esplêndidamente livre, é muito escândalo junto para ele ser o poeta nacional que ninguém foi como ele, ainda que muito mais por crença na democracia que por nacionalismo.»

Ícone panteísta Em 1882 publica Collect, que inclui relatos do tempo da guerra civil. É ainda nesse ano que conhece Oscar Wilde, então com 28 anos. Wilde está de visita a Nova Iorque para uma série de conferências a pretexto do lançamento do seu primeiro livro de poemas. Por essa altura, a opinião pública volta a ser agitada com o espectro dos bons costumes. Uma auto-intitulada Sociedade Para a Supressão do Vício patrocina, no Literary World, um inquérito público, de contornos duvidosos, com o intuito de bloquear futuras edições de Leaves of Grass. No ano anterior havia sido publicada a 7.ª, com o canon definitivo. Mesmo entre escritores e intelectuais, as opiniões dividem-se. Henry James [1843-1916], por exemplo, considerava a sua poesia «ofensiva» da arte. Não é de admirar. Sobre Oscar Wilde [1854-1900], que encontrou em Nova Iorque numa reunião social, debita que se trata de «um porco enfatuado». Os ânimos exaltam-se, o editor James R. Osgood, de Boston, suspende a distribuição da obra (devido a pressões do promotor público), a imprensa popular enfatiza os insultos, Douglas O'Connor contrapõe com veemência no New York Tribune, enquanto outro jornal, o Herald Tribune, toma partido por Whitman. A polémica atravessa o Atlântico. Os libertários fazem dele a sua bandeira. É natural. Um poema como «I Sing the Body Electric», de 1855, sintetiza todo um programa de libertação (e mística) sexual. Na Inglaterra, na Alemanha e em França, é a glória. Os novos editores são Rees Welsh e David McKay, ambos de Filadélfia. Em 1888 sofre novo ataque de paralisia, mais grave que os anteriores. Nesse ano, com o apoio mecenático de Horace Traubel, vê publicados dois novos volumes: November Boughs, que reúne 62 poemas inéditos, e Complete Poems and Prose of Walt Whitman, um catarpácio de 900 páginas. A 8.ª edição (1889), publicada simultaneamente em Glasgow, na Escócia, esgota rapidamente: «Quando soube ao fim do dia que o meu nome fora aplaudido no Capitólio, mesmo assim nessa noite não fui feliz,/ E quando me embriaguei ou quando se realizaram os meus planos, nem assim fui feliz [...] E quando pensei que o meu querido amigo, meu amante, já vinha a caminho, então fui feliz [...] Porque aquele a quem mais amo dormia a meu lado sob a mesma manta na noite fresca,/ Na quietude daquela lua de outono o seu rosto inclinava-se para mim,/ E o seu braço repousava levemente sobre o meu peito — nessa noite fui feliz.» Porém, quando John Addington Symonds, num ensaio justamente célebre, «explica» os poemas de Calamus à luz da homossexualidade do poeta, Whitman reage indignado: «I have had six children.» É um desabafo ridículo, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Whitman sabia-o. Estaria ele a piscar o olho à posteridade «respeitável»? Infelizmente o argumento fez escola, mesmo, ou sobretudo, entre autores que, ainda hoje, reivindicam o estatuto de artiste maudit. Mais tarde, D. H. Lawrence [1885--1930] faria notar aquilo que considerava os aspectos disfóricos e o desespero suicida da escrita whitmaniana. A 9.ª edição de Leaves of Grass, também conhecida por «deathbed edition», foi preparada numa altura em que o poeta se encontrava já muito doente. Fez as correcções finais e deu por «authorized» um corpus de 411 poemas. A 26 de Março de 1892, aos 72 anos, morre paralítico. Foi sepultado em Camden (New Jersey). Tinha sobrevivido três semanas ao lançamento de Complete Prose Works, que McKay editou num único volume. Setenta anos mais tarde, seria o ícone subliminar de duas gerações contestatárias. As doutrinas libertárias dos sixties, o folclore hippy, o pacifismo, a ressaca dos «guerreiros» do Vietnam (que seria uma espécie de ressaca «sulista» actualizada, como num processo de transfert), as conquistas da ecologia, as exigências do black power e a afirmação planetária do movimento gay, pese sempre o americaníssimo tiro de partida, tudo situações que a obra de Whitman prenunciou. Ezra Pound [1885-1972] havia feito o diagnóstico correcto, quando escreveu que ele era um génio «porque tem consciência do que é, e da sua função. Sabe que é um ponto de partida e não uma obra acabada à maneira clássica». O culto à sua memória tem-se manifestado sob todas as formas. Uma das mais bizarras relaciona-se com o misterioso desaparecimento dos seus Notebooks: roubados em 1942 da Biblioteca do Congresso, em Washington, foram devolvidos em 1995, precisamente no dia 24 de Fevereiro. A 10.ª edição de Leaves of Grass foi publicada cinco anos depois da sua morte, incluindo os seis poemas de Old Age Echoes, até então inéditos. O conjunto da sua obra (poesia e prosa) encontra-se coligido em The Collected Writings of Walt Whitman, 24 volumes editados entre 1961 e 1984.

Postar um comentário