terça-feira, 22 de outubro de 2013

A América do Norte na poesia de Walt Whitman e Allen Ginsberg



A América do Norte na poesia de Walt Whitman e Allen Ginsberg

Enquanto, Walt Whitman no século XIX elogiava o progresso da América do Norte em direção ao bem estar e às conquistas tecnológicas, no século XX, Allen Ginsberg da Geração Beat criticava este sistema de vida. Mesmo havendo uma ruptura na visão temática dos dois poetas, algo os aproxima, a imagem da América. Tanto em seu desenvolvimento industrial para Whitman, quanto em sua participação na II Guerra mundial para Ginsberg, como seu progressivo sistema de vida, sua defesa da Liberdade, elementos que motivaram tematicamente a ambos. América, poema de Allen Ginsberg, contém uma relação profunda com a poesia Whitmaniana. Esta relação baseia-se no foco distinto da imagem americana, tal imagem abordada de maneira divergente, mas dotada de um lirismo singular e original que marca estes dois poetas separados pelo tempo e unidos pela mesma geografia.

Aqui analisaremos três poemas de Whitman sobre a América para estabelecer uma interxtualidade com a poesia ginsberiana: Ouço o canto da América, Canto do Universal e Anos de Modernidade.


                                                                      Walt Whitman

Ocupemo-nos do primeiro poema citado:
Ouço o canto da América, as diferentes canções escuto,
A dos mecânicos, cada qual cantando a sua, como deveria ser, alegre e forte,
O carpinteiro a cantar a dele, enquanto mede prancha ou viga,
O pedreiro a erguer sua canção, enquanto se prepara para o trabalho
ou deixa o trabalho,
O barqueiro a cantar o que lhe ocorre no barco, o marinheiro a cantar no
tombadilho do navio,
O sapateiro a cantar sentado no banco, o chapeleiro a cantar de pé,
O canto do lenheiro, do lavrador a caminho, pela manhã,
ou na pausa do meio-dia ou ao pôr do Sol,
O delicioso canto da mãe, ou da jovem esposa a trabalhar,
ou da moça costurando ou lavando,
Cada qual cantando o que se refere a ele ou a ela e a ninguém mais,
De dia o que pertence ao dia – de noite a reunião de jovens companheiros,
robustos, cordiais,
A cantar, descerrados os lábios, suas canções fortes e melodiosas.

Whitman canta a América, canta a vida norte-americana, canta o Estado americano, canta os vagabundos, os trabalhadores, a família dos EUA. Canta porque acredita nesta América, canta o progresso americano, porque é americano, canta o individualismo (como ele mesmo escreveu em seu poema Eu canto o indivíduo), o capitalismo, e orgulha-se de viver assim egoisticamente, voltado só para si e então para a vida. Esta temática é focada e reforçada em toda sua poesia. Whitman não tem uma visão triste de sua América, ao contrário, a vê com alegria e entusiasmo, não só sua época, mas o futuro de toda a América, ela Norte, Central e Sul, por isto ele afirma sua universalidade em Canto do Universal:

E tu, América,
Para a culminação do plano, sua idéia e sua realidade,
Para isso (e não para ti mesma) tu chegaste.
Também tu abranges tudo,
Abraçando, levando, acolhendo tudo, tu também, por largos e novos
caminhos,
Diriges-te para o ideal.
Walt Whitman declara que a América avança para um fim que já existe em seu interior, uma declaração, por certo, teleológica.

No poema Anos de Modernidade o poeta diz:
Anos de modernidade! Anos do que ainda não foi feito!
Ergue-se o vosso horizonte, vejo-o afastando-se para mais augustos dramas,
Não vejo apenas a América, não somente a nação da Liberdade, mas as outras nações preparando-se,
Vejo tremendas entradas e saídas, novas combinações, a solidariedade das raças, ...
Vejo a Liberdade, completamente armada e vitoriosa e bem altiva com a Lei a um lado e a Paz do outro, ...
Vossos sonhos, ó anos como me imbuem!
(não sei se estou dormindo ou se estou desperto;)
As irrealizadas, mais gigantescas do que nunca, avançam, avançam ao meu encontro.

Como foi dito antes, Whitman enaltece o futuro, o homem, o Estado e os ideais do Estado e sente-se realizado neste grau de existência, enquanto Baudelaire prefere o outro mundo Whitman quer este mundo e este mesmo mundo é que ele celebra. Nos seus poemas, ele eleva a condição do homem moderno, celebrando a natureza humana e a vida em geral em termos pouco convencionais. Whitman exprime em poemas visionários certo panteísmo e um ideal de unidade cósmica que o Eu representa, além de uma profunda identificação com os ideais democráticos da nação americana, nunca deixando de celebrar o futuro da América.
Ginsberg, por sua vez, contesta esta América, contesta o Estado, contesta o mundo, embora apaixonado pelo homem.
América eu te dei tudo e agora não sou nada.
América dois dólares vinte e sete centavos 17 de janeiro de 1956.
América não agüento mais minha própria mente.
América quando acabaremos com a guerra humana?
Vá se foder com sua bomba atômica.
Não estou legal não me encha o saco.
Não escreverei meu poema enquanto não me sentir legal.
América quando é que você será angelical?
Quando você tirará sua roupa?
Quando você se olhará através do túmulo?
Quando você merecerá seu milhão de trotskistas?
América porque suas bibliotecas estão cheias de lágrimas?
América quando você mandará seus ovos para a Índia?
Eu estou cheio das suas exigências malucas.
Quando poderei entrar no supermercado e comprar o que preciso só com minha boa aparência?
América afinal eu e você é que somos perfeitos e não o outro mundo.
Sua maquinaria é demais para mim.
Você me fez querer ser santo.
...).
Estará você sendo sinistra ou isso é uma brincadeira?
Estou tentando entrar no assunto.
Eu me recuso a desistir das minhas obsessões.
América pare de me empurrar sei o que estou fazendo.
América as pétalas das ameixeiras estão caindo.
...).
América eu era comunista quando criança e não me arrependo.
...).
Passa pela minha cabeça que eu sou a América.
Estou de novo falando sozinho.
A Ásia se ergue contra mim.
Não tenho nenhuma chance de chinês.
É bom eu verificar meus recursos nacionais.
Meus recursos nacionais consistem em dois cigarros de maconha milhões de genitais uma literatura pessoal impublicável a 2.000 quilômetros por hora e vinte e cinco mil hospícios.
Nem falo das minhas prisões ou dos milhões de desprivilegiados que vivem nos meus vasos de flores à luz de quinhentos sóis.
...).
Ambiciono a Presidência apesar de ser Católico.
...).
Continuarei como Henry Ford meus versos são tão individuais como seus carros mais ainda todos têm sexos diferentes.
...).
América liberte Tom Mooney.
América salve os legalistas espanhóis
...).
América a verdade é que você não quer ir à guerra.
Os Russos os Russos e esses Chineses. E esses Russos.
A Rússia nos quer comer vivos. O poder da Rússia é louco. Ela quer tirar nossos carros de nossas garagens.
...).
É verdade que não quero me alistar no Exército ou girar tornos em fábricas de peças de precisão. De qualquer forma sou míope e psicopata.
América eu estou encostando meu delicado ombro à roda.

Ginsberg está criticando sua época, um período tomado pela perseguição política,- o machartismo -, pela Guerra Fria, pela perda dos valores americanos, critica o american way life, critica o preconceito americano aos estrangeiros, o medo americano de uma ameaça ideal, o sistema americano de viver, por fim, Ginsberg comenta a queda americana face ao surgimento de novas potências e ao desequilíbrio interno que surge por se autoconsiderar “perfeita”.



No poema Morte à orelha de Van Gogh! O poeta se auto-intitulando sacerdote, protesta e profetiza:
O dinheiro contabilizou a alma da América.
O Congresso desabou no precipício da Eternidade.
...).
O Século Americano foi traído por um Senado louco que não dorme mais com sua mulher.
Franco assassinou Lorca o filho queridinho de Whitman assim como Maiakovski se suicidou para evitar a Rússia Hart Crane Platônico insigne se suicidou para soterrar a América errada
assim como milhões de toneladas de cereal humano foram queimados em porões secretos sob a Casa Branca enquanto a Índia morria de fome e gritava e comia cachorros loucos encharcados de chuva
e montões de ovos eram reduzidos a pó branco nos corredores do Congresso
nenhum homem temente a Deus andará de novo por lá por causa do fedor dos ovos podres da América
...).
mas eu caminho, eu caminho e o Oriente caminha comigo e toda a África caminha
e mais cedo ou mais tarde a América do Norte também caminhará
pois assim como expulsamos o Anjo Chinês da nossa porta, ele também nos expulsará da Porta Dourada do futuro
nós não mostramos piedade para Tanganica
Einstein em vida recebeu zombarias por sua política celestial
Bertrand Russel expulso de Nova York por trepar
e o imortal Chaplin foi expulso das nossas praias com a rosa entre os dentes
uma conspiração secreta da Igreja Católica nos mictórios do Congresso negou anticoncepcionais ás incessantes massas da Índia
Ninguém publica uma palavra que não seja delírio covarde de um robô com mentalidade depravada
o dia da publicação da verdadeira literatura do corpo americano será o dia da Revolução a revolução do cordeiro sexual
a única revolução incruenta que distribuirá cereais
o pobre Genet iluminará os que trabalham nas colheitas de Ohio
...).
Não vejo nada a não ser bombas
não estou interessado em impedir que a Ásia seja Ásia
e os governos da Rússia e da Ásia se erguerão e cairão mas a Ásia e a Rússia não cairão
o governo da América também cairá mas como pode a América cair
duvido que mais alguém venha a cair alguma vez a não ser os governos
felizmente todos os governos cairão
os únicos que não cairão serão os bons
e os bons governos ainda não existem
Mas eles precisam começar a existir eles existem nos meus poemas
Eles existem na morte dos governos da Rússia e da América
...).
Esta é a hora da profecia sem morte como conseqüência o universo acabará por desaparecer
...).
A História tomará profético este poema e sua horrível estupidez será uma hedionda música espiritual
Eu tenho o arrulhar das pombas e a pluma do êxtase
O Homem não pode agüentar mais a fome da abstração canibal
A guerra é abstrata
O mundo será destruído
mas eu só morrerei pela poesia que salvará o mundo.

Inconformado com seu tempo, com sua América, Ginsberg profetiza a queda do Império e de todos os Impérios. Para ele, somente a poesia salvaria o homem do seu estado de miséria. Para ele o “dinheiro contabilizou a alma americana”, embora diga que a América esta em decadência por ter-se tornado egoísta negando ajuda o outros países, crê que esta América ainda caminhará com ele para algo melhor, crê, ainda que diga que esta mesma América, onde pôs sua fé, cairá por seus próprios pés.
Vemos um poema como o autor mesmo diz, profético, como os profetas bíblicos e, portanto, atual, haja vista que, hoje, a América do Norte encontra-se em decadência ameaçada pelos países da Europa e da Ásia Oriental e Ocidental.
Um dia, e aí esta a liberdade do poema e do poeta, a poesia salvará o homem pela mesma poesia.
Nota-se a diferença de abordagem de um mesmo tema: América, por cada um dos autores. Enquanto Whitman enaltece esta América, Ginsberg a contesta, mas cada um motivado por um período diferente, um no desenvolvimento industrial outro no tempo de entre guerras. Nestes poetas há, portanto, duas Américas: a América que cria suas raízes na terra em forma de arranha-céus, representada pelas destruídas Duas Torres, e, uma América em queda, — como o homem mítico que caiu pelo próprio pecado —, pela queda das Duas Torres.
A partir destes autores percebemos a mudança simbólica da América do Norte, da esperança à descrença, e, após seis anos, desde o 11 de setembro, perguntamo-nos se poesia deve surgir para esta América que ainda se ergue das cinzas.

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