sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

INDIGNAÇÃO, DE PHILIP ROTH, Por J. C. Guimarães, crítico literário




INDIGNAÇÃO, DE PHILIP ROTH
Por J. C. Guimarães, crítico literário


Em “Indignação”, Philip Roth cria um universo surpreendente para tratar de dois assuntos polêmicos, bastante conhecidos da geração de meados do século passado, nos Estados Unidos: a Guerra da Coreia e a tensão sexual entre jovens e adultos
John Casti, matemático e fundador do X-Center, em Viena, estuda eventos extremos. Em livro re­centemente traduzido no Brasil, “O Colapso de Tudo”, o cientista numera sete princípios da complexidade, entre eles o chamado Efeito Borboleta: “A ideia básica é que os sistemas complexos são patologicamente sensíveis a mudanças minúsculas em seu estado inicial”. Um exemplo aleatório, inacreditável e verdadeiro: George W. Bush se reelegeu presidente dos Estados Unidos, em 2004, porque uma funcionária do processo eleitoral americano, Theresa Le Port, aumentou o tamanho da tipografia na cédula eleitoral.
Imagino que esta seja uma maneira nada convencional de começar a estudar um romance; no caso, “Indignação”, do americano Philip Roth, traduzido por Jório Dauster. As últimas palavras do protagonista, Mar­cus Messner, justificam essa opção, ao referir-se à “forma terrível e incompreensível pela qual nossas escolhas mais banais, fortuitas e até cômicas conduzem a resultados tão desproporcionais”. A cadeia de eventos que conduzem o drama à tragédia, no caso de Messner, é desencadeada por um gesto erótico de extrema banalidade: a masturbação — é certo: executada em local inapropriado —, com que a namorada satisfaz uma ereção súbita do herói. “Por um rápido toque de mão de Olívia, minha recompensa seria a Coreia”, diz, e temos outro caso de efeito borboleta, só que agora dentro da ficção.
Um ato de amor — privado e insignificante — num extremo, e a morte numa guerra — consequência gigantesca —, no outro. Esta é uma associação aparentemente absurda, e compreender a lógica desse absurdo foi a tarefa que se propôs Philip Roth, com esse romance magistral, uma das melhores novidades literárias com as quais tive contato, no ano que passou. Roth, escritor americano de origem judaica, nasceu em 1933 e tornou-se um dos mais premiados autores dos Estados Unidos, tendo amealhado, entre outros, o Pulitzer de 1997, e o Príncipe das Astúrias de 2012. Tem 14 títulos publicados no Brasil. Em “Indignação” trata de dois assuntos polêmicos, bastante conhecidos da geração de meados do século passado, naquele país: a Guerra da Coreia e a tensão sexual entre jovens e adultos. O auge desse conflito de valores culturais, opondo rebeldes a conservadores, explodiria 15 anos mais tarde, durante a luta pelos direitos civis no contexto político da Grande So­ciedade, de Lyndon Johnson. Para tratar daqueles assuntos, com a propriedade de uma testemunha, é que Roth cria o universo inteiramente novo e surpreendente de “Indignação”.
O enredo da obra é o seguinte: Marcus Messner é um jovem judeu filho de açougueiros, único rebento de um pai atemorizado pela ideia de perdê-lo, em função de algum descuido, “a menor coisinha”. O drama se passa entre 1951 e 1952, nos Estados Unidos, durante a guerra mencionada, e o histórico da família, em conflitos dessa natureza, é negativo. Compreensível, o temor paterno vira obsessão, e é com o objetivo de livrar-se desse tormento doméstico que o rapaz entra na universidade: “Estava ansioso para me tornar adulto e independente, exatamente aquilo que vinha causando terror em meu pai”. Ao migrar de New­ark, nos arredores de Nova York, para a provinciana Wi­nesburg, na área rural de Ohio, ele se depara com os valores predominantes da direção e das confrarias de estudantes, que tentam cooptá-lo: “Quase toda a vida social dos cerca de mil e duzentos alunos da universidade se passava atrás das pesadas portas com ferragens negras das fraternidades”. Espírito livre e independente, Messner é incapaz de adaptar-se a essa situação, cuja única recompensa é a paixão contraída pela colega de turma Olívia Hutton, primeira e única experiência erótica de sua curta existência: “Jamais me sentira tão vulnerável ao repartido dos cabelos de qualquer pessoa”. Como ele pró­­prio, Olívia é uma estudante solitária e acima da média. De ato em ato, e de negativa em negativa, Messner acaba se enrolando e termina expulso. Ao ser expulso é convocado pelo exército. Convocado, mor­re na guerra da qual tentou, desesperadamente, escapar.
De um risco improvável o personagem termina aniquilado: “Memória em cima de memória — nada mais do que memória”. “Indignação” é a lembrança de um morto — a exemplo do melancólico Brás Cubas.
O romance de Roth organiza-se em cima de quatro núcleos dramáticos: a família, constituída de pai e mãe; a universidade, representada pelo diretor de alunos Howes D. Caudwell e pelo presidente Albin Lentz; as confrarias, sobressaindo os colegas Sonny Cottler, o endiabrado Bertram Flusser e Elvyn Ayers Jr.; por último o amor, Olívia Hut­ton. A guerra é a sombra que paira do primeiro ao último parágrafo; sombra que é o simulacro da morte, empestando de sangue a vida de Messner desde a adolescência até o campo de batalha. Grande ironia, o eviscerador de galinhas terminará fatiado por uma baioneta, aos 19 anos de idade, cumprindo as premonições do pai. É até possível que a causa primeira e insignificante deste destino desproporcional, ao menos em termos gerais e não da universidade, seja o medo paterno, incorporado pelo herói, a quem a rivalidade com os comunistas o destinava. Seu terror foi o terror de uma geração inteira de jovens norte-americanos.
O pai é um sujeito simples e trabalhador, tendo ensinado a Messner o ofício sangrento. Mas a relação de amor entre os dois termina em ódio, em função da paranoia que toma conta do velho açougueiro. Por medo, este começa a perseguir o filho e ameaçar a sua liberdade, transformando-se no símbolo de uma autoridade renegada que Messner, todavia, volta a reencontrar encarnado no poderoso e velho Caudwell, em Wi­nesburg. A guerra particular de Messner é contra a autoridade e tudo o que ela significa de repressão aos instintos vitais do homem. As únicas referências positivas na vida do estudante são as duas figuras femininas do romance: a mãe — “Era tudo, menos frágil e submissa” — e a namorada, Olívia, com quem finalmente perde a virgindade. Sua mãe não gosta de Olívia e tem sobre a família do velho Messner as mesmas reservas do filho racional agora tentado pelos sentimentos, dando-lhe o conselho memorável: “Não seja como eles. Você tem que ser maior que seus sentimentos. Não sou eu que exige isso de você; é a vida que exige. Se não, você vai ser levado de roldão pelos seus sentimentos. Eles vão te levar até o mar e você não será mais visto. Os sentimentos podem ser o maior problema na vida”.
Roth participa de uma tradição romanesca que vai de si mesmo a García Márquez, deste a Machado de Assis e de Machado a Flaubert: uma tradição que exalta a mulher como figura de fibra superior e mais heroica do que o homem, frágil e mesquinho.
Estou de acordo com isso. Porém, tenho opiniões sobre Olívia que talvez não sejam facilmente partilhadas pelos demais leitores de Roth, sobretudo mulheres. A mais importante: ela simboliza em primeira ordem o desejo masculino insatisfeito no mundo real, onde é recriminado. Qual desejo? Ser compreendido pelas mulheres em sua ânsia insaciável por sexo. Ela declara a Messner após a primeira experiência com ele: “Eu-queria-te-dar-o-que-você-queria. Será que é muito difícil entender essas palavras?”. A pergunta sobre a dificuldade de entender é principalmente dirigida ao leitor (ou melhor, leitora), e não poderia jamais ser a especulação de uma mulher, tampouco Olívia criação de uma romancista. Só poderia ser concebida por um homem; nesse caso Philip Roth, sensualista inveterado tanto quanto J.M. Coetzee (“De­sonra”) e Sérgio Sant’Anna (“O Livro de Praga”).
Mas a sondagem da psicologia feminina não fica a dever: o que as excita, ao menos de um ponto de vista masculino, é o poder — o carrão de Elvyn Ayers Jr., dentro do qual Messner e Olívia iniciam sua aventura amorosa — e, pelo menos em 1950, os limites, proibições e tabus que impediam as moças de reestabelecer os vínculos familiares perdidos. Ou seja: nada a ver com as tentações da carne, como para os homens, antes com a segurança e estabilidade pessoal e da prole.
Olívia é, porém, exuberante demais e comporta outra interpretação fundamental, ao lado de seu amante: a vítima do modelo educacional e da moral repressiva capitaneados por Caudwell, que atinge a medula da sociedade — a família. A­final: “Seu pai é um cirurgião de Cleveland e ilustre ex-aluno da Winesburg, por isso a recebemos a pedido do doutor Hutton. Não deu certo nem para o doutor Hutton nem para a universidade, e muito menos para Olívia”. Trata-se de uma confissão inconsciente de Caudwell. No mesmo capítulo, o que dirá Messner? Que “Eu próprio havia sido tragado pela insipidez não apenas dos costumes de Winesburg, mas da retidão que tiranizava minha vida, a retidão sufocante que, eu estava pronto a concluir, levara Olívia à loucura”. Vale lembrar, a pobre moça corta os pulsos duas vezes e termina num sanatório.
Outro efeito colateral, e desta vez coletivo, dessa educação re­pressiva, é implacavelmente diagnosticado: a catarse desenfreada dos estudantes que culmina no Grande Ataque às Calcinhas Bran­cas, no epílogo: “Vez por outra, uma voz masculina profunda, articulando o pensamento de todos aqueles que não eram mais capazes de obedecer ao sistema prevalecente de disciplina moral, urrava abertamente: ‘Queremos as garotas!’”. A conformidade perturbadora dos estudantes termina explodindo de maneira irracional, culminando naquelas consequências desproporcionais, aludidas no começo. Mes­sner, devido ao ato libidinoso, ao desacato da autoridade e à fraude, é expulso de roldão, junto com colegas insubordinados.
De Philip Roth eu li “O Animal Agonizante”, romance mais intimista e, a meu ver, menos interessante do que “Indignação”. De qualquer modo permite estabelecer uma tendência do autor: a de colocar seus personagens em choque contra os valores institucionalizados da família e da sociedade. Outra vez deparamos com o tema da liberdade sexual, e outra vez nos vemos dentro de uma narrativa parcialmente histórica, colidindo duas ideologias por intermédio da ação individual. Ignoro se por isso Roth — autor de pelo menos 30 obras literárias — pode ser definido co­mo escritor emersoniano. Mas não tenho dúvida em classificar “In­dignação” nessa categoria.
Emerson era gnóstico e Mes­sner, apesar do sangue judeu, ateu convicto. Mesmo assim foi capaz de sugerir irresistivelmente a manifestação do mal em dois colegas: Sony Cotller, figura luciferiana, e Merty Ziegler, bem próximo de Judas ao aceitar o suborno de Messner para substituí-lo nos serviços religiosos da Winesburg, ao custo de um dólar e cinquenta centavos: “Esse Zigler era um erro, eu tinha certeza — o erro final”.

No longo e tenso diálogo ocorrido no primeiro encontro com o diretor Caudwell — quando o conselho da mãe cede ao impulso e ele manda o diretor “se foder”—, nesse encontro Messner evoca Bertrand Russel para fundamentar sua recusa em aceitar as regras impostas pela instituição, dizendo que pretende viver em conformidade com o ideário contido no ensaio “Por que não sou um cristão”, do filósofo inglês. As altercações do diretor se voltam todas para a preferência religiosa, o relacionamento social e o convívio familiar de Messner, permitindo acompanhar como a moral puritana se infiltra na intimidade das pessoas, até dominá-las completamente. Trata-se do diálogo mais absurdo do mundo, no qual o diretor de alunos faz perguntas que poderiam ser feitas a si mesmo diante do espelho para cair em contradição. É um capítulo de alto humorismo, de onde aliás se extrai o título “Indignation”. Caudwell não admite as “dificuldades de socialização” e “isolamento” de seu aluno, seguro o bastante para afirmar a própria independência: “Não tenho interesse pela vida nas fraternidades”. Então, apesar de Russel, a idiossincrasia de Messner reverbera a do próprio Emerson, quando este proclama que “quem deseja ser um homem tem de ser um dissidente”.
Messner é a perfeita encarnação do dissidente: individualista consumado, não liga para “fraternidades” — latu sensu, partidos, clubes, grupos, associações, igrejas — e só se interessa pelo conhecimento. “Meu único interesse são os estudos”, declara provocativamente o jovem que “não tem medo de ficar sozinho”; o jovem que não faz o tipo da sociedade e que ridiculariza sua moral hipócrita. Essas outras palavras de E­merson poderiam seguramente constituir o credo de Marcus Mes­sner: “Por toda parte a sociedade está em conspiração contra a virilidade de cada um de seus membros. A sociedade é uma companhia por ações, na qual os sócios concordam, para melhor assegurar o pão de cada acionista, em renunciar à liberdade e à cultura de quem dela desfruta. A virtude de maior demanda é a conformidade. A autoconfiança é causa de aversão. À sociedade não aprazem realidades e criadores, mas nomes e costumes”.
John Casti, citado no começo deste ensaio, faz lembrar, como os antropólogos, que as relações sociais caracterizam, por si só, um sistema complexo e altamente organizado. Sus­tentam-se por meio de ritos, valores e tabus assimilados pelos indivíduos e materializados em instituições de diversas naturezas. Essas relações são ultrassensíveis aos comportamentos dissonantes, ao escândalo — escândalo que muitas vezes é só uma maneira diversa de encarar o mundo, como a de Messner, infelizmente resultando em tragédia familiar. O panorama final de “Indignação” reflete a nulidade das associações humanas — creio que sem chegar ao extremismo niilista — com a combinação explosiva das religiões institucionalizadas. Para Roth — cuja única crença possível parece ser no individualismo — não é daí que emergem os indivíduos moralmente sãos.
Por fim, um dos baratos de “Indignação” é nos fazer querer descobrir se a Winesburg existe de verdade ou não (ou existiu). O leitor cai na cilada de uma “Nota histórica” que conclui o romance, no qual a instituição de ensino é mencionada com todas as letras. Tudo leva a crer que tal nota é uma artifício ficcional, uma vez que não há indícios da existência de tal universidade no Estado de Ohio, onde se passa a história. Se, portanto, procede a sugestão de que Roth a criou, “Indignação” poderia ser caracterizado como romance hiperrealista, porque engana muito bem — tão bem quanto uma pintura de seu conterrâneo Robert Bechtle. Passaria aos desavisados por romance histórico sem sê-lo, na verdade: ao menos porque nenhuma criatura em cena foi uma vez de carne e osso — nem mesmo os famigerados Albin Lentz e Hawes D. Caudwell. E, no entanto, acreditamos que essas pessoas são reais como a rebelde Jenie Wyatt, ao que parece outra saborosa invenção do escritor, em “O Animal Agonizante”. Quem nos criou deve admirar o criador dessas criaturas.
http://www.revistabula.com/170-indignacao-de-philip-roth/

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