sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

DEIXEMOS DE FRIAGEM, Elias Ribeiro Pinto



DEIXEMOS DE FRIAGEM
Elias Ribeiro Pinto


"Na esperança do eterno retorno nietzschiano do açaí-papa"

DIÁRIO DO PARÁ, (20/2/2014)

1.  Temos anoitecido e amanhecido nublados, chuvosos. É a parte que nos cabe nesse frente fria latifundiária amazônica. Para os sudestes de lá, crestam-se em calores recordes. Para as baixadas de cá, de noites equatoriais, o frio amesquinha-se e, se tanto, dardeja-se em friagens, nada que não possa ser enfrentado de peito nu. Já as neves russas onde deslizam esquis e snowboards nos Jogos de Inverno mais quentes da história não são como as neves d’antanho: derretem, como o salário, antes do final do inverno (ou do mês).

2. Nas viagens por aí, jamais me aconcheguei a cachecóis e sobretudos para barrar inéditas temperaturas abaixo de zero. Peguei, no máximo, ou melhor, no mínimo, uns quatro ou cinco graus, que é de bater queixo, ainda mais para um mundurucu guajarino. Era noite, abeirando-se da madrugada, e eu insistindo-me no pátio de um bar, tomando cerveja como se estivesse sob o mormacento toldo da República do Peixe Frito. Houve um momento, o vento cortante varrendo a varanda, em que supus o nariz – não, supus é horrível, ainda mais acasalado com nariz fungando de frio.

3. Houve um momento, suspeitei, o nariz cristalizava-se, geava-se, igual como vemos, no dia seguinte, na TV, aquelas folhas pendendo em forma de lâminas após uma noite enregelada nas serras catarinenses.

4. Mais um pouco e, congelado como aquele professor aloprado do filme "A Dança dos Vampiros", de Roman Polanski, os amigos me carregariam, travestido em tábua, para dentro do bar, para o socorro de uma descongestionante lareira.

5. Em geral, suporto bem o frio, sem precisar acomodar-me em camadas de roupas, feito cebola. Mas, num período mais elástico de tempo que curti na garoenta São Paulo (quando por lá ainda fazia frio), já não suportava aquela chuvinha oleosa, que não cessava nunca, os céus cortinados de nuvens escuras de manhã à noite.

6. Houve lá um dia que me bateu uma depressão sueca, bergmaniana. Queria o nosso amazônico céu de opalas, as manhãs de incandescente luminosidade, o "glorius clime" de Bates, o "delightful clime" de Wallace, viajantes que por aqui passaram e celebraram o bafo solar que nos banha, vitalmente viscoso.

7. Para sobreviver a esse permanente banho de vapor, nossos músculos desenvolveram a elástica firmeza das fibras dos buritis, nas artérias correndo-nos o sangue frio das sucuruiubas, como bem assinalou Euclides da Cunha ao por aqui passar em 1905.

8. Pois a elástica firmeza das fibras dos buritis e o sangue frio das sucuruiubas continuam, ambidestros, nos servindo quando nos transportamos para o frio, tornando-nos espécies de seres anfíbios, fertilmente híbridos (à Jarbas Passarinho). O que me denuncia, ao sair, de supetão, dos quarenta graus para dez graus são os lábios, que, espalhafatosos, estouram.

9. Certamente o sol glauberiano de julho não tardará, quando tostaremos em lento assado, lambidos por línguas de fogo nas praias de Mosqueiro, Salinópolis, Outeiro, à beira-mar, beira-rio e à beira de um ataque de nervos. É quando também, no horizonte da rua, começa a tremular a bandeira rubra anunciando que o primeiro litro de açaí do bom, aleluia, já está sendo batido. Mas, por enquanto, é só aquele travoso, no gosto e no bolso. Vivamos, então, na esperança do eterno retorno nietzschiano do açaí-papa. E deixemos de friagem.
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