domingo, 4 de setembro de 2016

AH, QUEM QUISER QUE SE FUME, ELIAS RIBEIRO PINTO

AH, QUEM QUISER QUE SE FUME
ELIAS RIBEIRO PINTO


COLUNA DESTA QUARTA (31/8/16) – JORNAL DIÁRIO DO PARÁ
“Era preciso muito caráter para não me vestir e sair de madrugada e procurar algum boteco aberto para comprar cigarro. Nem quero falar do vexame de juntar baganas dos cinzeiros sujos, e até do chão”

Na segunda-feira passada, 29 de agosto, Dia Nacional de Combate ao Fumo, o DIÁRIO, em reportagem sob o título “Dia ideal para largar o cigarro”, divulgou que dados oficiais registram que um terço da população brasileira adulta não abre mão do cigarro, apesar de informada sobre os malefícios do hábito. 

Semanas atrás, na coluna “Cigarros são sublimes?”, escrevi sobre minha experiência como ex-fumante. O título da coluna remete a um livro, de Richard Klein, de título quase homônimo, apenas sem a interrogação.
Mas se o leitor fumante quer largar a praga do vício, quer um padroeiro para lhe dar força na difícil hora da abstinência, então é bom conhecer Zeno Cosini. Enredado em sua decisão de parar de fumar, as tentativas de Zeno sempre resultam em fracasso.

Zeno Cosini é o personagem-narrador de “A Consciência de Zeno”. Publicado em 1923, o romance (um dos maiores do século XX) de Italo Svevo, pseudônimo do italiano Ettore Schmitz (1861-1928), é atravessado pelas recordações do protagonista, que passa a vida em busca de uma salvação que o liberte da fumaça aliciante.

O romance é tema de um dos capítulos de “Cigarros São Sublimes”. Richard Klein diz que “qualquer discussão séria sobre cigarros que pretenda determinar seu significado filosófico, julgar seu prazer estético e pesar seu valor tem de considerar a obra-prima de Italo Svevo”.

Mas o fumante que, sem fôlego, não quiser enfrentar as 400 páginas de “A Consciência de Zeno” pode, sem sobressalto e arritmia, percorrer as oito páginas da crônica “Fumando espero aquela...”, do mestre Rubem Braga, incluída no livro “Recado de Primavera”. 

Entre deliciosas reminiscências esfumaçadas, o cronista descreve a própria experiência como fumante, desde os 17 anos de idade. Já maduro, passou por duas operações de hérnia, causadas por acesso de tosse, esta como consequência do tabagismo. 

Ainda assim continuou pitando seus dois maços e meio por dia até que lhe descobriram “um ponto no pulmão”. É intimado a operá-lo; convida um amigo, médico, para assistir à operação. Quando abrem o pulmão do cronista, o convidado leva um choque, que assim Braga transcreveria: “Quando o Jesse (o cirurgião) abriu seu pulmão, levei um choque. Lembrei-me do tempo da Faculdade: eu guardara aquela imagem do pulmão, um órgão rosado... O seu era todo escuro, e com uns picumãs dependurados...”. Este amigo (e médico), que fumava, nunca mais fumou.

Sem outra alternativa, o autor de “Ai de Ti, Copacabana” largou o vício. “Quando a gente para de fumar é que começa a sentir como o fumo embota o paladar e o olfato. A gente volta a sentir sabores e cheiros que tinha esquecido”. E emenda: “Tudo melhora, desde a disposição geral até a memória, a capacidade de trabalho, a respiração e... o vigor sexual”.

Nada a ver com o tempo em que era fumante compulsivo. “Às vezes, acontecia que meus cigarros acabavam e, como havia fumado o dia inteiro, e era tarde da noite, eu resolvia ir dormir assim mesmo, sem fumar. Dali a pouco, acordava: estava sonhando que havia um maço de cigarros na gaveta da mesinha de cabeceira... Era preciso muito caráter para não me vestir e sair de madrugada e procurar algum boteco aberto para comprar cigarro – coisa que, aliás, fiz mais de uma vez. Não quero falar do vexame de juntar baganas dos cinzeiros sujos, e até do chão.”

E conclui: “Fumar foi das piores bobagens que fiz na vida, mas não pretendo convencer ninguém. Já tentei fazer isto, e o sujeito ainda caçoa da gente, de cigarro no bico. Ah, quem quiser que se fume”.


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