domingo, 4 de setembro de 2016

Como escolher um deus, Edson Aran



Como escolher um deus



REVISTA BULA, em Colunistas

Troque sua divindade antiga por uma totalmente nova e com garantia! Talvez o deus que você esteja usando no momento seja surdo, mudo e nunca o socorra em momentos de real necessidade (“Oh, Poderoso Kahuma, permita que esse seu indigno servo passe o rodo na gostosa do marketing!“).

Mas antes de sair por aí cultuando bezerros de ouro, certifique-se de orar à divindade certa. Pedir abundância a um deus da destruição ou chuva a um deus do submundo só vai complicar a sua vida. E tenha sempre em mente que muitas deusas do amor também são deusas da fertilidade. Você até vai passar a vara na gostosa do marketing, mas pode ganhar uma ninhada de mini-marqueteiros de fraldas sujas.

Deuses omissos acabam com a fé de qualquer um, mas deuses hiperativos são uma fonte interminável de problemas. Sim, eles atendem às suas preces, mas enchem o saco com arbustos flamejantes, chuvas de fogo, estátuas de sal e anjos batendo na sua porta às três da manhã.

Um anjo na sua porta às três da manhã nunca é notícia boa: ou é pra você sacrificar o próprio filho ou o Poderoso Congamonga está de olho na sua mulher.

Escolha um deus que você sabe pronunciar o nome. Se você não consegue dizer “Quetzalcoalt”, arrume outra divindade ou seus rituais vão ficar ridículos. “Seu indigno lacaio o saúda, oh grande Qeatlz… Quoatlz… Qwertyuoip…ah, foda-se!”

Deuses são caprichosos e exclusivistas. Tenha muito cuidado com deidades ególatras que se acreditam únicas, permitem apenas o monoteísmo e punem os faltosos com enchentes de rãs e terremotos de gafanhotos. Se puder optar, prefira o politeísmo. Se não puder, experimente pelo menos o catolicismo.

Deuses onipresentes são como parentes chatos que nunca vão embora. Deuses oniscientes são como vizinhos bisbilhoteiros que não tem o que fazer. Deuses onipotentes são como argentinos: pensam que são grande coisa, mas é só pretensão e água benta.

Deuses nórdicos são ok, mas você terá de enfrentar e matar de dois a seis gigantes por dia para manter o panteão feliz. Além disso, os nórdicos são obcecados por martelos, ragnaroks e brigas de rua. São uma espécie de Gaviões da Fiel no mundo dos deuses.

Deuses gregos são muito mais divertidos, mas tenha cuidado. Se você for mulher, não dê mole para cisnes tarados, por mais sedutores que eles pareçam. Você pode acabar mãe de um semideus e eles dão sempre muito trabalho. Doze, na média.

Cuidado com deuses que têm caras de elefante. Onde eles pisam não nasce na grama. Deuses de muitos braços nunca dão o braço a torcer. Deuses incorpóreos são os primeiros a tirar o corpo fora. Deuses do vinho são ótimos, mas te deixam em péssimo estado na manhã seguinte.

E lembre-se: deuses que exigem sacrifícios humanos prometem mundos e fundos, mas nunca explicam como esconder os corpos.


http://www.revistabula.com/6960-como-escolher-um-deus/
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