sábado, 16 de agosto de 2014

Indizíveis, Francisco Vaz brasil




Indizíveis
                       Francisco Vaz brasil


No instituto médico-legal
Dissecaram o corpo da palavra
Com um ereto cinzel diamantado...
- a placa de Petri, horrorizada observa
Paredes hirtas, tijolos escarlates
Espectros imemoriais, silêncios lancinantes
(gritos, lascívia, preguiça, prazer...)

De gesso, tosco pensamento urge:
A palavra, sonora e fria solenemente
Reage, nega, renega, sonega, protesta,
Em súplicas, réplicas e tréplicas;
Mexe, remexe, fragmenta-se em sóis:
Pedaços de literariedades e sons de cítara escorraçada...

E o meu computador insiste em escondê-la
E agora multiplicam-se, saltando como uma matrix
Projetando-se na tela (e não sei como ordená-las
Em frases para dizer que te amo,
Nem canções que explicitem adeus)
- puras reflexões incorpóreas, sem arquitetura.

Murmúrios, marulhos, lamúrias, entretendendo-se,
Originam a frase (?)
Travestida, mal-acabada entre grãos de areia multicolor,
entre verbos  e pronomes, sujeitos mal-predicados,
Predicativos de erros e metáforas  sem rumo,
Intertextualidade arrítmica
( um rosto novo, pele nova e opressora)

A geografia de teu corpo, palavra,
Inacessível-sensaborosa-transcendental,
Está na curva, inscrita na íris do olho,
Circunspecta, onde dúvida e incerteza pairam
Numa canção do aonde se insere o onde
E o quando se faz porque,
E a seta de um seio duro aponta a direção
Do pensamento incoeso/perplexo, sem
Amparo, Nexo, plexo, ponto  em desconexão...

Silêncios perniciosos de fonemas inservíveis,
Cobras y lagartos mudos – e tu, palavra, não sais
- você não sabe o que é sentir-se
hirto como um morto,
Náufrago do pensamento perdido:
- parir um poema é mais fácil que criá-lo.

Se bem que além-mar os peixes combinam danças
E seus colares de letras indizíveis
projetam meu olhar em tua direção, palavra...
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