domingo, 24 de agosto de 2014

COMO O DIABO GOSTA, Elias Ribeiro Pinto



COMO O DIABO GOSTA
Elias Ribeiro Pinto


Quarenta anos atrás, podíamos atravessar a cidade, no mocotó, a pé, vindos do Patesco, do Palácio dos Bares, do Lapinha, triscando pelo Benzinho, pelo Pagode Chinês, a tempo de tomar a saideira na Casa de Chá Corumbá

Publicado no jornal Diário do Pará, em 12/8/2014

1 No final de semana, na casa de um amigo, ouvi um dos discos que fizeram minha cabeça nos anos 70, o “Alucinação”, do Belchior. Aliás, eu que levei o CD, comprado, o preço uma baba, na Livraria Cultura, de São Paulo, na minha passagem por lá, em julho. Já é a segunda ou terceira vez que torno a comprar o disco (nem sei por onde anda o CD anterior), a primeira vez quando ele, recém-lançado, em 1976, chegou à praça de Belém.


2 Em cada esquina que eu passava, cantava o Belchior naqueles idos, um guarda me parava, pedia os meus documentos e depois sorria, examinando o 3x4 da fotografia e estranhando o nome do lugar de onde eu vinha.


3 Vivia-se então a ditadura braba, os anos de chumbo, os canas preocupados em deter subversivos, comunistas e cabeludos em geral.
Hoje, em cada esquina que eu passo, tem sempre alguém falando de um assalto que testemunhou, de um roubo acontecido na vizinhança. Vou colhendo esses comentários assim, de passagem.


4 Mas que não se idealize – para contrastar com o presente – um passado nostalgicamente bucólico, de uma Belém edênica, ou quase isso, com uma bandidagem ainda incipiente.


5 É certo que caminhávamos sem a sensação de que a cada esquina nos pularia no cangote um bandido, um sequestro-relâmpago, e protagonizaríamos uma cena de cinema-verdade, no papel de refém (ou, na pior das hipóteses, de morto).


6 Quarenta anos atrás, podíamos atravessar a cidade, no mocotó, a pé, vindos, quem sabe, do Patesco, do Palácio dos Bares, do Lapinha, triscando pelo Benzinho, pelo Pagode Chinês, a tempo de tomar a saideira na Casa de Chá Corumbá, sem ser assaltados ao longo dessa maratona etílica. E nem por isso bateríamos algum recorde, merecedores até de uma medalha olímpica.


7 Mas, como disse, não vamos idealizar o passado. Que nem a gente ouve falar, digamos, da Seleção Brasileira de 1970. Foi um grande time, para muitos, o melhor que já tivemos. Mas o escrete tricampeão não se fez apenas de “melhores momentos”. Basta assistir a uma partida completa daquela equipe nos gramados mexicanos. Tem o Rivelino dando chute para as nuvens, o Pelé dando passe torto, o Tostão sumido do jogo, o Gerson errando lançamentos, sem falar no Félix e na dupla Brito e Piazza furando. Mas esse time nem em pesadelo perderia de 7 a 1.


8 Da mesma forma, basta consultar os jornais da Belém, por exemplo, de 1960, 1970, para ver que o crime também marcava presença nas ruas. Crianças eram estupradas e mortas, pessoas eram brutalmente assassinadas, latrocínios ocorriam com frequência.


9 Mas nada se compara, realmente, aos dias de hoje. O varejo do crime nos espreita a toda hora, e sentimo-nos assim, sob constante ameaça.
Se saímos de férias, como em julho, o crime nos acompanha, em Mosqueiro, Salinas, Outeiro, Marajó. Além de esses locais terem, vá lá, vida criminosa própria, recebem os colegas da capital, que chegam “a trabalho”. Vai ver que a concorrência é bem-vinda, há mercado para todos. Sinto-me bem mais seguro andando pelas ruas paulistanas.


10 O árido solo da criminalidade é terra fértil para a disseminação das drogas, cujo comércio, por sua vez, aduba a bandidagem. É o que, na agricultura, suponho, chamam de cultura consorciada, duas plantações que se combinam para se obter o máximo de produtividade, rendimento. Neste caso, da bandidagem, é consórcio de ervas daninhas, venenosas.


11 Como cantaria o Belchior, tudo está como o diabo gosta.
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