quinta-feira, 26 de junho de 2014

O dia que durou seis anos No Bloomsday, o tradutor premiado Caetano Galindo fala de “Ulysses” e do dia 16 de junho de 1904 na vida de Leopold Bloom Patrícia Homsi



O dia que durou seis anos
No Bloomsday, o tradutor premiado Caetano Galindo fala de “Ulysses” e do dia 16 de junho de 1904 na vida de Leopold Bloom
Patrícia Homsi


       



“Trieste – Zurique – Paris/ 1914-1921”. Durante a Primeira Guerra Mundial, o escritor irlandês James Joyce percorreu as três cidades europeias e obteve resultado mais significante e imensuravelmente cravado na cultura mundial do que o autor da morte do herdeiro do Império Austro-húngaro, cujo ato desencadeou o conflito: a produção do que é considerado um dos maiores romances da literatura.
As ações rotineiras do dia 16 de junho de 1904 de Leopold Bloom, um judeu irlandês, seriam minuciosamente descritas em Ulysses (grafia retomada da última tradução do livro para o português, de Caetano Galindo). Enquanto isso, na realidade, o criador de Bloom, James Joyce, tivera seu primeiro encontro com Nora Barnacle, que seria sua esposa pelo resto de sua vida. Com o propósito de “escrever o maior romance de todos os tempos”, James Joyce recortou e narrou um dia da vida de um homem considerado “estrangeiro” na Irlanda, como Marcelo Tápia, escritor e organizador do Bloomsday São Paulo, define o judeu Bloom.
Em aproximadamente 265 mil palavras, utilizando um vocabulário composto por mais de 30 mil, o intuito de Joyce era continuar a denunciar a paralisia dos irlandeses com relação à própria cultura, como fizera anteriormente em Dublinenses, seu primeiro livro. “Havia na Irlanda uma visão nacionalista da qual Joyce não compartilhava. Ele tinha outro projeto para lidar com a dominação inglesa. A questão era que James Joyce se sentia um tanto exilado”, reflete Marcelo Tápia. Adotando uma postura crítica em relação ao poder, em geral, Joyce opta pela demonstração dos detalhes escatológicos de um simples cidadão de Dublin. Como escreve Declan Kiberd na introdução da edição brasileira, “Joyce acreditava que o maior dever de um escritor era insultar,mais do que bajular, a vaidade nacional. Desejava chocar seus compatriotas com uma consciência mais profunda de seus autoenganos”.
Em vez da narrativa épica, heróica do Ulisses grego, o escritor irlandês expõe o comum, o banal, com detalhes de descrição. “Neste livro, a própria normalidade do Ulisses moderno, Sr. Leopold Bloom, torna-se uma repreensão constante ao mito do heroísmo militar antigo”, afirma Declan Kiberd. O heroísmo, como questionou Joyce numa carta direcionada ao irmão, em 1905, não seria uma estrutura mentirosa que encobre a força da paixão individual nas ações do homem?
Para Marcelo Tápia, Joyce se apóia na filosofia do italiano Giambattista Vico com o intuito de resgatar a humanidade em detrimento da perfeição grega. “A história da humanidade como um todo faz parte da produção de Joyce. Tanto que, em Finnegan’s wake, ele fala de quatro ‘fases’ na história da humanidade, utilizando como referência esses estágios da história que retornam, pensados por Giambattista Vico.”
Comparado pelo tradutor Caetano Galindo com Shakespeare, Dante Alighieri, Liev Tolstói, Gustave Flaubert e João Guimarães Rosa, James Joyce avisara, desde a época do lançamento de Ulysses, em 1922, que a obra ainda renderia muito trabalho à crítica. De fato, até hoje o romance é interminavelmente estudado. “Apesar de muitos críticos terem escrito sobre Ulysses e mostrado suas relações simbólicas, a cada releitura o livro desperta novas possibilidades de compreensão, vai amadurecendo junto com a gente”, diz Marcelo Tápia.
Traduzido pela primeira vez para o português pelo intelectual brasileiro Antônio Houaiss, Ulysses – que não perdeu o “y” na versão de Caetano Galindo, a mais atual (Penguin Companhia das Letras, 2012) – não é indicado para joyceanos de primeira viagem: Caetano Galindo sugere Os Mortos (Companhia das Letras, 2013) ou Finn’s Hotel (Companhia das Letras, 2014), com tradução recém-lançada por ele, como porta de entrada para a complexidade estética e metafórica de Joyce. “Para ‘começar pelas bordas’”, completa Galindo. Outro modo de se introduzir na produção joyceana é Dublinenses, indicado por Galindo e Tápia como a melhor maneira de entrar nesta literatura. Para Marcelo Tápia, a ordem de escrita dos livros, Dublinenses, Retrato de um artista quando jovem, Ulysses e Finnegan’s wake, representa a opção mais sensata na leitura do autor irlandês.
No dia em que Leopold Bloom andou por Dublin e teve seus passos guiados pelas palavras de Joyce, 16 de junho, comemora-se no mundo inteiro o Bloomsday, uma tradição que começou com amigos do escritor reunidos num bar. A comemoração sobre a trajetória de Bloom em Ulysses, cuja circulação chegou a ser proibida pelo aspecto grotesco das descrições, se tornou uma data política em toda a Irlanda, e teve sua primeira movimentação pública em 1954, com o encontro de intelectuais nas ruas de Dublin.
No Brasil, quem começou a lembrança do Bloomsday foi Haroldo de Campos, poeta concretista: a partir de 1988, o Finnegan’s Pub abrigou a “bebemoração”, como Haroldo dizia, da “Sociedade dos amigos de Joyce no Brasil”, que evoluiria para a Associação Brasileira de Estudos Irlandeses da Universidade de São Paulo (USP). Desde 1988, o Bloomsday continua sendo comemorado em São Paulo e em outras cidades. Marcelo Tápia, organizador das festividades, afirma que o Bloomsday “é o evento literário mais longevo, mais antigo da cidade de São Paulo, e tem a ver com a cultura irlandesa, ativada pela obra de Joyce”.
Neste Bloomsday, CULT conversou com o tradutor Caetano Galindo sobre Ulysses e James Joyce:
CULT – Joyce escreveu Ulysses principalmente durante a Primeira Guerra Mundial. Qual a crítica contida no livro sobre a Guerra?
Caetano Galindo - A estória se passa em 1904, mas há quem veja numa série de imagens de inspiração blakeana, sobre o fim do tempo e a destruição, que passa pela cabeça do Dedalus no segundo episódio, um reflexo da violência da guerra. E há alguma reflexão sobre a guerra como fenômeno geral, porque a guerra russo-japonesa estava acontecendo bem naqueles dias. Mas acima de tudo o que fica é o pacifismo do Bloom, como eu digo pros alunos, quase totalmente anacrônico, tolstoianamente deslocado, na sua pregação pelo amor no bar, no fim da tarde.
Como foi a primeira vez que você leu Ulysses? O que sentiu no final da leitura?
A minha primeira leitura corrida me gerou uma sensação de pasmo, de que eu nunca ia entender de fato aquele livro a não ser que o desmontasse pra ver como funcionava. Daí o projeto de doutoramento em 2002, daí a tradução. Eu peguei o livro pela primeira vez tarde, em 1997.
Desde a sua primeira leitura até hoje, depois de traduzi-la, o que mudou na sua interpretação da obra?
Tudo. Eu costumo dizer pros alunos que o Ulysses tende a atrair um tipo de leitor, como eu, atraído pela forma, pela invenção, e é claro que ele responde bem a essas expectativas. Mas o que mantém os leitores presos por décadas ao livro nunca é isso. É aquilo. O de sempre. O material dos grandes romances, da grande arte. Gente, um potencial humano fodido. O Ulysses mudou a minha cabeça, mudou a minha vida, mudou minhas ideias de literatura e de ser, neste mundo, entre os outros. E com isso foi também mudando minha leitura do Ulysses.
Quais aspectos da personalidade de Joyce podem ser notados em Stephen Dedalus?
Toda a biografia, muito do caráter do Joyce de 22 anos visto pelo Joyce de 40. Ou seja, nada necessariamente favorável sem polemização.
O que se destaca nas ações e pensamentos de Leopold Bloom?
O outro lado de Joyce [além de Stephen Dedalus], o pai de família, o homem. Dedalus é ‘o artista’. Eu costumo dizer que, como se sabe, o dia 16 de junho de 1904 foi o dia em que começou a união de Joyce com aquela que seria sua esposa por toda a vida, e que ele parece ter usado essa data, no Ulysses, como fulcro, como símbolo de uma encruzilhada. Sem ela, ele estaria condenado a permanecer sendo Stephen Dedalus. Com ela, ele pode somar Bloom a Dedalus e se tornar Joyce.
De que maneira os capítulos de Ulysses se ligam à Odisseia? Que outras obras estão presentes nessa construção de Joyce?
A conexão com a Odisseia é variadíssima. Às vezes é pontual, às vezes temática, outras é só como que uma inspiração. E há muitas outras obras presentes, acima de tudo o Hamlet, talvez mais central que Homero. E muita música. O Don Giovanni de Mozart é, na minha leitura, tão central quanto as outras duas obras citadas.
Por que Ulysses virou um símbolo tão forte, uma obra tão cultuada?
Porque ele quis e ele fez. Escrever o maior romance de todos os tempos. Mas a resposta passa por aquela fusão de invenção formal e profundidade filosófico-psicológica. Humana… É como fala o (Harold) Bloom: uma grande obra deve ter um conteúdo estético, um intelectual e um sapiencial. E o Ulysses tem muito de todos eles. Eu, hoje, inclusive continuo me pasmando com a centralidade desse lado sapiencial.
Quais são seus próximos projetos de tradução? Após Ulysses, quase tudo seria possível, não?
Após o Ulysses vem o Finnegans wake. Logo, nada está garantido. O Finnegans wake é impossível de jeitos inconcebíveis por um leitor do Ulysses. Mas é um projeto de médio/longo prazo, pra mim. Agora estou fazendo o romance inacabado de David Foster Wallace (The pale king) e ainda tenho que entregar Dublinenses para lançamento no Bloomsday 2015 e Um retrato do artista menino pro de 2016.

http://revistacult.uol.com.br/home/2014/06/o-dia-que-durou-seis-anos/
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