sábado, 11 de janeiro de 2014

PAUL CELAN - poemas



PAUL CELAN - poemas




CANÇÃO DE UMA DAMA NA SOMBRA

Quando vem a taciturna e poda as tulipas:
Quem sai ganhando?
                  Quem perde?
                        Quem aparece na janela?
Quem diz primeiro o nome dela?
É alguém que carrega meus cabelos.
Carrega-os como quem carrega mortos nos braços.
Carrega-os como o céu carregou meus cabelos no ano em
                                                                        [que amei.
Carrega-os assim por vaidade.    
E ganha.
              E não perde.
                         E não aparece na janela.  
E não diz o nome dela.  
É alguém que tem meus olhos.
Tem-nos desde quando portas se fecham.
Carrega-os no dedo, como anéis.
Carrega-os como cacos de desejo e safira:
era já meu irmão no outono;
conta já os dias e noites.
 
E ganha.
             E não perde.
 
                  E não aparece na janela.    
E diz por último o nome dela.
É alguém que tem o que eu disse.
Carrega-o debaixo do braço como um embrulho.
Carrega-o como o relógio a sua pior hora.
Carrega-o de limiar a limiar, não o joga fora.  
E não ganha.
                    E perde.
                          
   E aparece na janela.
E diz primeiro o nome dela.    
E é podado com as tulipas.  
(tradução: Claudia Cavalcanti )
  
CORONA
Da mão o outono me come sua folha: somos amigos.
Descascamos o tempo das nozes e o ensinamos a andar:
o tempo retorna à casca.
No espelho é domingo,
no sonho se dorme,
a boca não mente.  
Meu olho desce ao sexo da amada:
olhamo-nos,
dizemo-nos o obscuro,
amamo-nos como ópio e memória,
dormimos como vinho nas conchas,
como o mar no raio sangrento da lua.
Entrelaçados à janela, olham-nos da rua:
já é tempo de saber!
Tempo da pedra dispor-se a florescer,
de um coração palpitar pelo inquieto,
É tempo do tempo ser.. É tempo.
(tradução: Flávio Klothe)

CRISTAL
Não procura nos meus lábios tua boca,
não diante da porta o forasteiro,
não no olho a lágrima.    
Sete noites acima caminha o vermelho ao vermelho,
sete corações abaixo bate a mão à porta,
sete rosas mais tarde rumoreja a fonte.
( tradução: Claudia Cavalcanti )

DO AZUL que ainda busca seu rosto, sou o primeiro a beber.  
Vejo e bebo de teu rastro:
Deslizas pelos meus dedos, pérolas, e cresces!
Cresces como todos os esquecidos
Deslizas: o granizo negro da melancolia  
Cai num lenço, todo branco pelo aceno de despedida.  
( tradução: Claudia Cavalcanti )

DISTÂNCIAS  
Olho no olho, no frio,
deixa-nos também começar assim:
juntos
deixa-nos respirar o véu
que nos esconde um do outro,
quando a noite se dispõe a medir
o que ainda falta chegar
de cada forma que ela toma
para cada forma
que ela a nós dois emprestou.  
( tradução: Claudia Cavalcanti )    

ERRÁTICO  
As noites se fixam
sob teu olho. As sílabas re-
colhidas pelos lábios — belo,
silencioso círculo —
ajudam a estrela rastejante
em seu centro. A pedra,
um dia perto da fronte, abre-se aqui:  
ante todos os
espalhados
sóis, alma,
estavas, no éter.
( tradução: Claudia Cavalcanti )       

QUANDO ME ABANDONEI EM TI,  
eras pensamento,
  
algo  
murmura entre nós dois:
 
do mundo a primeira
 
das últimas
 
asas,
em mim cresce  
a pele sobre 
 
tempestuosa
 
boca,
  tu não chegas até ti.
( tradução: Claudia Cavalcanti )       

COMO TE EXTINGUES em mim:  
ainda no último  
e gasto
 
nó de ar
 
estás lá com uma
 
faísca
 
de vida.
  
( tradução: Claudia Cavalcanti )
 
http://www.culturapara.art.br/opoema/paulcelan/paulcelan.htm

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