sábado, 14 de setembro de 2013

Mário de Andrade Francisco Vaz Brasil (org.)



Mário de Andrade
Francisco Vaz Brasil (org.)




  Mário de Andrade, por Lasar Segal

“Eu bailo em poemas, multicolorido! Palhaço! Mago! Louco! Juiz! Criancinha! Sou dançarino brasileiro!
Para mim, felicidade não implica antagonismo com dor. Vivem elas muito bem e frequentes vezes dentro de mim.
Nós vivemos eternamente adquirindo convicções novas e num eterno trabalho de reeducação de nós mesmos.”

     Mário Raul de Morais Andrade nasceu no dia 9 de outubro, na Rua da Aurora, na cidade de São Paulo em 09/10/1893, filho de Maria Luisa e de Carlos Augusto de Andrade, que era de origem humilde e ascendeu socialmente através do próprio esforço.
     Concluiu o ginásio e entrou para a Escola de Comércio Alves Penteado, tendo abandonado o curso depois de se desentender com o professor de Português. Em 1911 ingressou no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, formando-se em piano, onde lá mesmo tornou-se professor.
     Em 1917, com a morte de seu pai, dava aula particular de piano para se manter. Nesse mesmo ano conhece Anita Malfatti e Oswald de Andrade, tornando-se amigos inseparáveis. Mário de Andrade foi um dos líderes da Semana de Arte moderna. Ainda nesse ano com o pseudônimo de Mário Sobral, publica seu primeiro livro "Há uma gota de sangue em cada poema", no qual critica a matança produzida na Primeira Guerra Mundial.
     Mário realizou várias viagens pelo Brasil, com o objetivo de estudar a cultura de cada região. Visitou cidades históricas de Minas, passou pelo Norte e Nordeste, recolhendo informações como festas populares, lendas, ritmos, canções, modinhas, etc. Todas essas pesquisas lhe renderam obras como Macunaíma, Clã do Jabuti e Ensaio sobre a Música Brasileira. Mário foi Diretor do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo, entre os anos de 1934 e 1938.
     Por motivos políticos foi afastado do cargo. Em 1938 foi para o Rio de Janeiro, onde lecionou Filosofia e História da Arte na Universidade. Incapaz de ficar longe de São Paulo, a cidade que amava, pata lá retornou em 1940. Foi ainda funcionário do Serviço do Patrimônio Histórico do Ministério da Educação.
     Andrade morreu em sua residência em São Paulo devido a um enfarte do miocárdio, em 25 de fevereiro de 1945, quando tinha 51 anos. Dadas as suas divergências com o regime, não houve qualquer reação oficial significativa antes de sua morte. Dez anos mais tarde, porém, quando foram publicados em 1955, Poesias completas, quando já havia falecido Vargas, começou a consagração de Andrade como um dos principais valores culturais no Brasil. Em 1960 foi dado o seu nome à Biblioteca Municipal de São Paulo.
Mário de Andrade foi um dos participantes da Semana de Arte Moderna que ocorreu entre os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal, em São Paulo. Junto a ele, participaram nomes consagrados do modernismo brasileiro como Oswald de Andrade, Víctor Brecheret, Plínio Salgado, Anita Malfatti, Menotti Del Pichia, Guilherme de Almeida, Sérgio Milliet, Heitor Villa-Lobos,Tácito de Almeida, Di Cavalcanti entre outros, e como um dos organizadores o intelectual Rubens Borba de Moraes, entre outros.

Obras publicadas

§  Há uma Gota de Sangue em Cada Poema, 1917
§  Pauliceia Desvairada, 1922
§  Losango Cáqui, 1926
§  Primeiro Andar, 1926
§  O clã do Jabuti, 1927
§  Ensaios Sobra a Música Brasileira, 1928
§  Macunaíma, 1928
§  Compêndio Da História Da Música, 1929 (Reescrito como Pequena História da Música Brasileira, 1942)
§  Modinhas Imperiais, 1930
§  Remate de Males, 1930
§  Música, Doce Música, 1933
§  Belasarte, 1934
§  O Aleijadinho de Álvares De Azevedo, 1935
§  Lasar Segall, 1935
§  Música do Brasil, 1941
§  Poesias, 1941
§  O Movimento Modernista, 1942
§  O Baile das Quatro Artes, 1943
§  Os Filhos da Candinha, 1943
§  Aspectos da Literatura Brasileira 1943
§  O Empalhador de Passarinhos, 1944
§  Lira Paulistana, 1945
§  O Carro da Miséria, 1947
§  Contos Novos, 1947
§  O Banquete, 1978 (Editado por Jorge Coli)
§  Dicionário Musical Brasileiro, 1989 (editado por Flávia Toni)
§  Será o Benedito!, 1992
§  Introdução à estética musical, 1995 (editado por Flávia Toni)

Trechos de algumas obras de Mário de Andrade

Há uma gota de sangue em cada poema

Assim como há resquício de barro
Nas estradas asfaltadas
E ruínas pelo impacto das guerras
                                             e catástrofes
Há em cada poema uma lágrima;

Assim como ecoam aplausos e vaias
Da grande semana!  Onde sobram
Pedaços mastigados na antropofagia
Mário não desperdiçaria uma ideia
Sem que esfacelasse fontes, rituais e oferendas.

Há uma gota de suor em cada letra
E em cada verso um gozo de dor
Por que sempre a dor do poeta?
Simples...  É exatamente aí que sucumbi
As mágoas de exprimir pelo dom;
E despedir a força vital paulatinamente...

Mas há de deixar cada poeta, em cada página seca
A ata boêmia, ideia difusa e
      sua vida latente!

PAULICÉIA DESVAIRADA
Paulicéia desvairada pode ser lida como um inventário das vivências, percepções e sensações desencadeadas pela modernização de São Paulo, com a qual Mário de Andrade terá uma relação ambígua ao longo de sua obra. A cidade ora é tumba de homens massacrados pelas "monções da ambição", de bandeirantes ou de capitalistas, ora é palco de multicoloridos festejos.”

Paisagem nº 1
Minha Londres das neblinas finas...
Pleno verão. Os dez mil milhões de rosas paulistanas.
 
Há neves de perfumes no ar.
 
Faz frio, muito frio...
 
E a ironia das pernas das costureirinhas
Parecidas com bailarinas...
 
O vento é como uma navalha
Nas mãos dum espanhol. Arlequinal...
 
Há duas horas queimou Sol.
 
Daqui a duas horas queima Sol.
 

Passa um São Bobo, cantando, sob os plátanos,
 
Um tralalá... A guarda-cívica! Prisão!
 
Necessidade a prisão
Para que haja civilização?
 
Meu coração sente-se muito triste...
 
Enquanto o cinzento das ruas arrepiadas
Dialoga um lamento como o vento...
 

Meu coração sente-se muito alegre!
 
Este friozinho arrebitado
Dá uma vontade de sorrir!
 

E sigo. E vou sentindo,
 
À inquieta alacridade da invernia,
 
Como um gosto de lágrimas na boca...
(Mário de Andrade, Paulicéia Desvairada, págs. 87-88)
INSPIRAÇÃO

São Paulo! comoção da minha vida...
Os meus amores são flores feitas de original...
Arlequinal!... Traje de losangos... Cinza e Ouro...
Luz e bruma... Forno e inverno morno...
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes...
Perfumes de Paria... Arys!
Bofetadas líricas no Trianon... Algodoal!
São Paulo! comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América!

Ode ao Burguês é o nono poema da obra Paulicéia desvairada, de Mário de Andrade. Foi lido durante a Semana de Arte Moderna de 1922, para o espanto da platéia, alvo evidente dos versos: 

ODE AO BURGUÊS
Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!


PAULICÉIA DESVAIRADA, MÁRIO DE ANDRADE
Prefácio Interessantíssimo

Leitor: 
Está fundado o Desvairismo.
 
Este prefácio, apesar de interessante, inútil.
  
Alguns dados. Nem todos. Sem conclusões. Para quem me aceita são inúteis ambos. Os curiosos terão o prazer em descobrir minhas conclusões, confrontando obra e dados. Para que me rejeita trabalho perdido explicar o que, antes de ler, já não aceitou. 
  
Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar tudo que meu inconsciente me grita. Penso depois: não só para corrigir, como para justificar o que escrevi. Daí a razão deste Prefácio Interessantíssimo. 
  
Aliás muito difícil nesta prosa saber onde termina a blague, onde principia a seriedade. Nem eu sei. 
  
E desculpem-me por estar tão atrasado dos movimentos artísticos atuais. Sou passadista, confesso. Ninguém pode se libertar duma só vez das teorias-avós que bebeu; e o autor deste livro seria hipócrita si pretendesse representar orientação moderna que ainda não compreende bem. 
  
Não sou futurista (de Marinetti). Disse e repito-o. Tenho pontos de contacto com o futurismo. Oswald de Andrade, chamando-me de futurista, errou. A culpa é minha. Sabia da existência do artigo e deixei que saísse. Tal foi o escândalo, que desejei a morte do mundo. Era vaidoso. Quis sair da obscuridade. Hoje tenho orgulho. Não me pesaria reentrar na obscuridade. Pensei que se discutiram minhas idéias (que nem são minhas): discutiram minhas intenções. Já agora não me calo. Tanto ridicularizaram meu silêncio como esta grita. Andarei a vida de braços no ar, como indiferente de Watteau. 
  
Um pouco de teoria? 
Acredito que o lirismo, nascido no subconsciente, acrisolado num pensamento claro ou confuso, cria frases que são versos inteiros, sem prejuízo de medir tantas sílabas, com acentuação determinada. 
  
A inspiração é fugaz, violenta. Qualquer impecilho a perturba e mesmo emudece. Arte, que, somada a Lirismo, dá Poesia, não consiste em prejudicar a doida carreira do estado lírico para avisa-lo das pedras e cercas de arame do caminho. Deixe que tropece, caia e se fira. Arte é mondar mais tarde o poema de repetições fastientas, de sentimentalidades românticas, de pormenores inúteis ou inexpressivos. 
  
Que Arte não seja porém limpar versos de exageros coloridos. Exagero: símbolo sempre novo da vida como sonho. Por ele vida e sonho se irmanaram. E, consciente, não é defeito, mas meio legítimo de expressão. 
  
"O vento senta no ombro das tuas velas" Shakespeare. Homero já escrevera que a terra mugia debaixo dos pés de homens e cavalos. Mas você deve saber que há milhões de exageros na obra dos mestres. 
  
Belo da arte: arbitrário, convencional, transitório - questão de moda. Belo da natureza: imutável, objetivo, natural - tem a eternidade que a natureza tiver. Arte não consegue reproduzir a natureza, nem este é seu fim. Todos os grandes artistas, ora consciente (Rafael das Madonas, Rodin do Balzac, Beethoven da Pastoral, Machado de Assis de Brás Cubas), ora inconscientemente (a grande maioria), foram deformadores da natureza. Donde infiro que o belo artístico, tanto mais subjetivos quanto mais se afastar do belo natural. Outros infiram o que quiserem. Pouco me importa. 
  
O impulso lírico clama dentro de nós como turba enfuriada. Seria engraçadíssimo que esta dissesse: "Alto lá! Cada qual berre por sua vez; e quem tiver o argumento mais forte, guarde-o para o fim!" A turba é confusão aparente. Quem souber afastar-se idealmente dela, verá o impotente desenvolver-se dessa alma coletiva, falando a retórica exata das reivindicações. Minhas reivindicações? Liberdade. Uso dela; não abuso. Sei embricá-la nas minhas verdades filosóficas e religiosas, não convencionais como a Arte, são verdades. Tanto não abuso! Não pretendo obrigar ninguém a seguir-me. Costumo andar sozinho. 
  
Virgílio, Homero, não usaram rima: Virgílio, Homero, têm assonâncias admiráveis. 
  
A língua brasileira é das mais ricas e sonoras. E possui o admirabilíssimo "ão". 
  
Marinetti foi grande quando redescobriu o poder sugestivo, associativo, simbólico, universal, musical da palavra liberdade. Aliás: velha como Adão. Marinetti errou: fez dela sistema. É apenas auxiliar poderosíssimo. Uso palavras em liberdade. Sinto que meu copo é grande demais para mim, e inda bebo no copo dos outros. 
  
Sei construir teorias engenhosas. Quer ver? A poética está muito mais atrasada que a música. Esta abandonou, talvez mesmo antes do século 8, o regime da melodia quando muito oitava, para enriquecer-se com os infinitos recursos da harmonia. A poética, com rara exceção até meados do século 19 francês, foi essencialmente melódica. Chamo de verso melódico o mesmo que a melodia musical: arabesco horizontal de vozes (sons) consecutivas, contendo pensamento inteligível. 
  
Ora, si em vez de unicamente usar versos melódicos horizontais: 
"Mnezarete, a divina, a pálida Frinéia comparece ante a austera e rígida assembléia do Aerópago supremo..." fizemos que se sigam palavras sem ligação imediata entre si: estas palavras, pelo fato mesmo de não seguirem intelectual, gramaticalmente, se sobrepõem umas às outras, para nossa sensação, formando, não mais melodias, mas harmonias. 
Explico melhor: 
Harmonia: combinação de sons simultâneos. 
Exemplo: 
"Arroubos.. Lutas... Setas... Cantigas... Povoar!..." 
Estas palavras não se ligam. Não formam enumeração. Cada uma é fase, período elíptico, reduzido ao mínimo telegráfico. 
Si pronuncio "Arroubos", como não faz parte de frase (melodia), a palavra chama atenção para seu insulamento e fica vibrando, à espera duma frase que lhe faço adquirir significado e que não vem."Lutas" não dá conclusão alguma a "Arroubos"; e, nas mesmas condições, não fazendo esquecer a primeira palavra, fica vibrando com ela. As outras vozes fazem o mesmo. Assim: em vez de melodia (frase gramatical) temos acorde arpejado, harmonia, - o verso harmônico. Mas, si em vez de usar só palavras soltas, uso frases soltas: mesma sensação de superposição, não já de palavras (notas) mas de frases (melodias). Portanto: polifonia poética. Assim, em "Paulicéia Desvairada" usam-se o verso melódico: 
"São Paulo é um palco de bailado russos"; o verso harmônico: 
"A cainçalha... A Bolsa... As jogatinas..." e a polifonia poética (um e às vezes dois e mesmo mais versos consecutivos): "A engrenagem trepida... Abruma neva..." Que tal? Não se esqueça porém que outro virá destruir tudo isto que construí. 
  
Pronomes? Escrevo brasileiro. Si uso ortografia portuguesa é porque, não alterando o resultado, dá-me uma ortografia. 
Escrever arte moderna não significa jamais para mim representar a vida atual no que tem de exterior: automóveis, cinema, asfalto. Si estas palavras freqüentam-me o livro é porque pense com elas escrever moderna, mas porque sendo meu livro moderno, elas têm nele sua razão de ser. 
  
Mas todo este prefácio, com todo a disparate das teorias que contém, não vale coisíssima nenhuma. Quando escrevi "Paulicéia Desvairada" não pensei em nada disto. Garanto porém que chorei, que cantei, que ri, que berrei... Eu vivo! 
  
Aliás versos não se escrevem para leitura de olhos mudos. Versos cantam-se, urram-se, choram-se Quem não souber cantar não leia Paisagem nº 1. Quem não souber urrar não leia Ode ao Burguês. Quem não souber rezar, não leia Religião. Desprezar: A Escalada. Sofre: Colloque Sentimental. Perdoar: a cantiga do berço, um dos solos de Minha Loucura, das Enfibraturas do Ipiranga. Não continuo. Repugna-me dar a chave de meu livro. Quem for como eu tem essa chave. 
E está acabada a escola poética "Desvairismo". 
Próximo livro fundarei outra. 
E não quero discípulos. Em arte: escola=imbecilidade de muitos para vaidade dum só. 
Poderia ter citado Gorch Fock. Evitava o Prefácio Interessantíssimo. "Toda canção de liberdade vem do cárcere".

Macunaíma
Macunaíma nasceu na floresta brasileira e desde pequeno já mostrava como tinha um caráter indigno. Sempre com preguiça acabou formando assim o seu slogan: ”Ai! Que preguiça!” Na necessidade de uma companhia para seus passeios pela mata ia com a mulher de seu irmão Jinguê, mas no meio do mato ele se tornava um príncipe e assim ficava toda a tarde a ter relações com sua cunhada.
     Depois de pouco tempo o irmão descobriu e acabou lhe cedendo a mulher, mas Macunaíma logo se envolveu com a nova índia do irmão. E esse acaba por aceitar. Então nessas transformações em príncipe ele acabou se tornando homem. E como não tinha um bom caráter continuava a enganar a todos, até mesmo ao caipora.
     Um dia, na tentativa de caçar uma veada, aprisionou o seu filhote e ela como mãe voltou. Foi nesta oportunidade que Macunaíma a matou, porém quando se aproximou viu que na verdade tratava-se de sua mãe; ele tinha sido enganado pelo Anhangá.
     Assim, Macunaíma, junto com seus dois irmãos, Maanape e Jinguê, seguiram pela mata indo embora. No caminho encontrou com Ci, a mãe do mato, os dois tiveram relações e ele se tornou o Imperador do mato virgem. Os dois se amavam e tiveram um filho que logo foi abençoado para trazer muitas riquezas aos pais, principalmente a Macunaíma. Entretanto o menino adoeceu e morreu; Ci, cansada e desiludida, parte para as estrelas, o que significa a morte, mas antes deu ao esposo o muiraquitã – um talismã que lhe garantiria a felicidade.
     Eles seguem uma vida no mato até que o “herói sem caráter” parte pra São Paulo porque descobriu que o muiraquitã que ganhara e tinha perdido estava com o comerciante Venceslau Pietro, um colecionador de pedras. Macunaíma vai atrás do talismã e em São Paulo conhece as chamadas máquinas. Buscava por ainda mais dinheiro e se diverte enganando os irmãos e dormindo com as mulheres da cidade. Porém as coisas com Venceslau Pietro não correram bem como ele esperava.
     O comerciante era na verdade o gigante Piaimã, comedor de gente. O nosso anti-herói sofre muito na tentativa de reconquistar o presente de Ci, até que finalmente procura a macumba e lá pediu a exu que desse uma bela surra na alma do gigante, pois assim ele teria de volta o muiraquitã.
     Tendo o talismã de volta, os três voltaram a Amazônia, mas lá os irmãos de Macunaíma morrem e ele acaba sendo encantado pela Iara, perdendo assim a pedra que ganhou de Ci de uma vez por todas. Assim como sua companheira, mãe do mato, cansado da vida e desiludido, ele sobe ao céus, dando origem a constelação da Ursa Maior.

Amar, verbo intransitivo
Publicado em 1927, o Idílio causou impacto.   Desafiou preconceitos, inovou na técnica narrativa. Sem nenhum prêambulo, Souza Costa e Elza surgem no livro. Souza Costa é o pai de uma típica família burguesa paulista do início do século. Elza, uma alemã que tinha por profissão iniciar sexualmente os jovens. Professora de amor. Souza Costa contrata os ?serviços; de Elza ,que por todo o livro é tratada por Fräulein – senhora em alemão; com o intuito de que seu filho inicie sua vida sexual de forma limpa, asséptica, sem se -sujar- com prostitutas e aproveitadoras. Ela afirma naturalmente que é uma profissional, séria, e que não gostaria de ser tomada como aventureira. Oficialmente, Fräulein seria a professora de alemão e piano da família Souza Costa.
     Carlos aparece brincando com as irmã, ainda muito -menino. Fräulein se ressente por não prender a atenção de Carlos no início, ele era muito disperso, mas gradualmente vai envolvendo-o na sua sedução. Eles tinham todas as tardes aulas de alemão e cada vez mais Carlos se esforçava para aprender -o alemão?!; e aguardava ansioso as aulas.
     Fräulein, em momentos de devaneios, criticava os modos dos latinos, se sentia uma raça superior, admirava e lia incessantemente os clássicos alemães, Goethe, Schiller e Wagner. Compreendia o expressionismo mas voltava à Goethe e Schiller. A esposa de Souza Costa, vendo as intimidades do filho para com ela, resolve falar com Elza e pedir para que deixem a família. Fräulein esclarece seu propósito de forma incrivelmente natural, e após uma conversa com o marido, a mãe decide que é melhor para seu filho que ela continuasse com suas lições.
     O livro é permeado de digressões. Mário de Andrade freqüentemente justifica alguns pontos (antes que o critiquem), analisa fatos, alude à psicologia, à música e até mesmo à Castro Alves e Gonçalves Dias. Mário compara a vida dos extrangeiros nos trópicos, entre Fräulein e um copeiro japonês. Mostra a dicotomia de pensamento de Fräulein entre o homem-da-vida ;prático, interessado no dinheiro do serviço; simbolizado por Bismarck – responsável pela unificação da Alemanha em 1870 à ferro e fogo e Wagner, retratando o homem-do-sonho. O homem-do-sonho representa seus desejos, suas vontades, voltar a terra natal, casar e levar uma vida normal. Mas quem vence em Fräulein é o homem-da-vida, que permite que ela continue o serviço sem se questionar.
     Carlos após ter tido ;a; aula mestra, começa a viciar-se em -estudar;. Certamente a didática de Fräulein era muito boa. Era tempo para Fräulein se despedir, tendo este trabalho concluído. Ela sabia que os afastamentos eram sempre seguidos de muitos protestos e gritos. Souza Costa surpreende Carlos com Fräulein ;tudo já armado; e utiliza-se deste pretexto para separá-los. Carlos reage defende Fräulein, mas mesmo ele fica aturdido diante do argumento do pai: e se ele tivesse um filho? Ainda relutante, ele deixa-a ir.
     Depois algumas semanas apático, Carlos volta a viver normal. O livro acaba mas continua. Escreve Mário de Andrade – ;E o idílio de Fräulein realmente acaba aqui. O idílio dos dois. O livro está acabado. Fim. … O idílio acabou. Porém se quiserem seguir Carlos mais um poucadinho, voltemos para a avenida Higienópolis. Eu volto.
     Após se recupear, Carlos avista acidentalmente Fräulein, já em um novo trabalho, e apenas saudou-a com a cabeça. A vida continua para Carlos. Fräulein ainda iria seguir com 2 ou mais trabalhos para voltar à sua terra.


FONTES CONSULTADAS:
RODRIGUES, A. Medina (et al). Antologia da Literatura Brasileira: Textos Comentados. São Paulo: Marco, 1979. vol. 2, p. 28-32.  
 


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