sexta-feira, 22 de maio de 2015

As mães e as filhas, Maria Lucia Dahl



As mães e as filhas

Maria Lucia Dahl
 Maria Lucia Dahl na Praia do Arpoador, Rio de Janeiro, década de 1970

Uma é mãe, a outra é filha.  Uma , a extensão da outra, difícil destino que se entrelaça, revolta, recusa-se, esperneia, reflete-se, trapaceia.  Uma é  a outra amanhã, a outra foi aquela ontem.  Uma sabe , intui, adivinha o que a outra esconde, inverte, imita, finge que não é.  Uma menina, outra mulher.
Brincando de casinha de boneca, procurando estrela do mar, fazendo castelo, aprendendo a nadar.
- Não quero comer, não quero.
- Come os legumes, eu espero.  Olha só o aviãozinho.  Anda, vai, logo, come, se não o aviãozinho some!
À noite a mãe conta história.  A filha tem medo da bruxa.
- Que maldade, mamãe, puxa!
- Não tem que se preocupar!  Branca de Neve caiu dura, mas chega o Príncipe, e a coisa toda muda de figura...
Se a mãe sai, a filha lhe deixa bilhetes presos na parede e fica esperando a mãe, balançando-se na rede.  Espera, não lê agora.  Ainda não está na hora.  Assim que a gente deitar.  Você pode começar.
Saem, riem se completam.  Não querem saber de ninguém.  Ficam as duas muito bem.
A mãe veste a blusa da filha, a filha, a saia da mãe, mãe e filha refletidas numa inversão divertida.
Mas a filha vai crescendo e a mãe nem vai percebendo.
A mãe corta o cordão umbilical da filha quando nasce.  A filha, quando adulta, corta os laços.  A mãe, pra existir, se dá à filha.  A filha, pra poder viver a rejeita.
Em que momento da vida deixaram de ser cúmplices  Quando é que pararam de se divertir?  Contar histórias? Trocar de roupa, rir? Desde quando que a mãe chora? Quando é que a filha foi embora?
Uma já viveu ao seu modo o que a outra vive agora.
A filha é a criança da mãe, a mãe, o superego da filha.
A filha se enche de impaciência diante da mãe, a mãe de amor pela filha.  Ambos os sentimentos se extrapolam em ninharias ridículas.  Uma fez isso, a outra aquilo.  Uma agiu assim a outra assado.
- Olha, mãe, tudo acabado.
- Quem terá razão, as mães ou as filhas?
A filha não aguenta mais nada.  A mãe sempre aguenta mais uma.  As dores são ondas que oscilam de intensidade.  Uma ou outra mais forte tirá-lhe o fôlego, joga-a no chão.  Nada que não a faça voltar à  tona, ver de novo a onda verde, retomar a respiração.
A filha nada contra a mesma maré que um dia embrulhou a mãe.  A mãe estende-lhe a mão, delicada.  A filha recusa, indignada.
- Me deixa nadar sozinha.
Sempre a mesma ladainha...
Quantas ondas grandes a mãe teve que furar? Quantas arrebentações driblar?  Ali boiando, esquecida, e a mãe a se preocupar que não se afogue, nas ondas verdes da vida.
- Me empresta o carro pra eu ir à festa?
- Por que não põe uma roupa mais transada, uma blusa decotada, um vestido de outro tom?  Minha filha , não acredito: cê vai sair sem batom?
- Ai, meu saco, vou me embora.  Dá pra me emprestar agora?
- Como é que foi o trabalho? Cê fez aquela leitura ?
- Mãe,  foi tudo uma chatura.  Anda mãe, cadê a chave? Estou atrasada.  Ave!
- Queria saber da peça.
- Já disse que é chata... Anda, mãe, que eu to cansada e ainda por cima com fome...
- Então dorme aqui, vê se come...
- Esquece.  Não quero ficar.
- Pena... Tinha tanta coisa pra contar...
- Ora, mãe, para de fazer drama...Cê quer mesmo é cair na cama.
- Já voltou a essa hora?
- Se não quiser, vou me embora...
- Levei um susto, foi isso.  É que você me acordou...
- Dorme de novo, eu já vou...
- Vai de novo viajar?
- E você me controlar? Saco, tá mais que na hora. Escuta, mãe, vou me embora.
- Não esquece de fechar a porta.  Apagar a luz... Cuidado com a violência.
- Aí , mãe, tenha paciência...
Em cima da mesa um bilhete: “Mãe, desculpe o mau humor, mas é que eu ando uma pilha...”
Quem tem razão ? As mães ou as filhas?

http://www.jb.com.br/maria-lucia-dahl/noticias/2013/02/05/as-maes-e-as-filhas/
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