terça-feira, 30 de setembro de 2014

O escritor é uma contradição, Marguerite Duras



O escritor é uma contradição
Marguerite Duras



          Um escritor é uma coisa curiosa. É uma contradição e, também, um contrassenso. Escrever também é não falar. É calar. É gritar sem ruído. Um escritor é, muitas vezes, repousante: ouve muito. Não fala muito porque é impossível falar a alguém de um livro que se escreveu e, sobretudo, de um livro que se está a escrever.

          É impossível. É o oposto do cinema, o oposto do teatro e de outros espetáculos. É o oposto de todas as leituras. É o mais difícil de tudo. É o pior. Porque um livro é o desconhecido, é a noite, é fechado, é assim. É o livro que avança, que cresce, que avança em direções que julgávamos ter explorado, que avança em direção ao seu próprio destino e ao do seu autor, então aniquilado pela sua publicação: a sua separação dele, do livro sonhado, como da criança recém-nascida, sempre a mais amada.

In “Escrever”.

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