segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

A RAZÃO NA CULTURA ILUMINISTA - diversos autores


A RAZÃO NA CULTURA ILUMINISTA

ANNA CAROLINA COSTA BRASIL
BENEDITA DE SOUZA ALMEIDA
MARIA DE NAZARÉ ARAÚJO VAZ
MARIA ELZA PINHEIRO DA COSTA BRASIL
PAULINA DE JESUS PAIXÃO DE FREITAS
SELSON FERNANDO FERREIRA


1.      O lema do iluminismo:  "tem a coragem de servir-te de tua própria inteligência!"

Em sua resposta à pergunta "o que é iluminismo", Kant  ensina que o iluminismo é a saída do homem
de seu estado de minoridade,  por seus próprios  meios, fazendo uso de sua inteligência, adotando uma atitude crítica em relação ao mundo, deixando de ser guiado pelo outro.
        Somente a consciência, pelo uso crítico da razão pode libertar o homem da servidão dos juízos pré-concebidos,  dos dogmas metafísicos, dos preconceitos morais, das superstições religiosas,  das relações desumanas e das tiranias políticas.
        O programa do iluminismo:  acabar com o medo dos homens, tornando-os senhores; libertar o mundo da magia, propondo-se a dissolver os mitos e derrubar a imaginação, com a ciência.
        Os iluministas se configuraram como um exército em luta contra todos os pré-preconceitos onde a razão humana é a única fonte da verdade e autoridade. Logo o iluminismo tomou o papel de filosofia hegemônica na Europa do século XVIII constituindo-se em um articulado movimento filosófico, pedagógico e político que conquistou as camadas cultas e a ativa burguesia em ascensão pregando a confiança na razão humana, cujo desenvolvimento representa o progresso da humanidade e libertação frente a ignorância, a tradição, a superstição, ao mito e a opressão.
        A razão dos iluministas se volta a defesa do conhecimento científico e da técnica enquanto instrumentos de transformação do mundo e de melhoria progressiva das condições espirituais e materiais da humanidade.

2.      A "razão" dos iluministas

        O iluminismo se caracteriza por ser uma filosofia otimista que por ser adotada pela burguesia             assumiu papel de ciência que se empenha e trabalha pelo progresso humano. Onde os iluministas põem na base desse progresso espiritual, material e político o uso crítico e construtivo da razão.
        Mas que razão é essa? Segundo Cassirrer no século XVII para Descartes e Malebranche, para Spinoza e Leibniz, a razão é o território das verdades eternas, as quais são comuns ao espírito humano e ao espírito divino. Já no século XVIII a razão não é tanto uma posse mas muito mais uma determinada forma de aquisição, é a força originária do espírito, que leva a descoberta da verdade e à sua determinação, com isso o conceito de razão se caracteriza por ser o conceito de um fazer e não de um ser, o fazer voltado à experiência e fiscalizado pela experiência que não busca a causa ou essência das coisas mas sim procura desvendar as leis de seu funcionamento e as submete à prova.

3.      A "razão iluminista" contra os sistemas metafísicos

        A razão iluminista está limitada à experiência e controlada pela experiência, limitada em seus poderes e progressiva em seu desenvolvimento não excluindo nenhum campo de investigação, é uma razão que diz respeito a natureza e, ao mesmo tempo, também o homem, onde o homem não se reduz apenas à razão mas tudo aquilo que lhe diz respeito pode ser indagado através da razão dos princípios do conhecimento, comportamentos éticos, estruturas e instituições políticas entre outros.
        A razão iluminista tem caráter crítico enquanto empirista e devido apresentar idéias "experimentais" e "indutivas" o racionalismo iluminista começa por infringir a forma anterior de conhecimento filosófico baseado nos sistemas metafísicos não acreditando mais no direito e no rendimento do espírito do sistema encarando-o como um limite e u obstáculo à razão filosófica.
        Assim a filosofia não é um bloco de conhecimentos que se colocam além ou acima dos outros conhecimentos, sendo assim a filosofia não se separa mais da ciência natural e social, mas de certo modo constitui para todas elas a respiração vivificante, a única atmosfera na qual podem existir ou atuar. Para o iluminismo, a filosofia não é o próprio tempo apreendido com o pensamento e a filosofia iluminista não é um modo de acompanhar a vida e refletir sobre ela na reflexão, o iluminismo atribui ao pensamento não apenas méritos secundários e imitativos, mas também a força e a tarefa de plasmar a vida.

4.      O ataque contra as superstições das religiões positivas

        Ligado à experiência e contrário aos sistemas metafísicos, o racionalismo iluminista ironiza com desprezo sarcástico as religiões positivas através de uma postura cética e até mesmo irreverente caracterizando-se como um grande processo de secularização do pensamento, porém a filosofia iluminista através das vertentes inglesa e francesa trouxeram a idéia do filosofia do deísmo que é parte integrante do iluminismo como religião racional e natural sendo tudo aquilo e só aquilo que a razão humana pode admitir como a existência de Deus, a criação e o governo do mundo por Deus na vertente inglesa visto como governador do mundo físico e moral e a vida futura em que recebe a paga pelo bem e pelo mal.
        Voltaire defende a existência de um ser supremo "Deus", porém ataca a aceitação dos conteúdos, dos ritos, as histórias sagradas e as instituições das religiões positivas como as superstições, fruto do medo e ignorância, sendo tarefa do iluminismo iluminar as trevas das religiões positivas mostrando a variedade dessas religiões, analisando suas origens históricas e seus usos sociais evidenciando toda a sua humanidade.
        Após Voltaire sempre continuou sendo destacada a crença em Deus, as religiões positivas e Igrejas, onde ambas as vertentes passaram a ser encaradas como obstáculos frente ao progresso do conhecimento servindo como instrumentos de opressão e geradores de intolerância, sendo assim passíveis de discriminação.    

5.      "Razão" e direito natural

        O racionalismo iluminista estabeleceu a razão como base  das normas jurídicas e das concepções do Estado.  Ao referir-se à religião e moral naturais, refere-se, também a direito natural, significando natural, também, racional.
        Os direitos do homem e do cidadão, originaram-se na França, durante a sua revolução, por uma declaração jusnaturalista estruturada no iluminismo jurídico-político.
        O iluminismo orienta a pesquisa cognoscitiva, para fins práticos, objetivando tornar melhor a condição do homem, em bases racionais.
        Em O espírito das Leis, Montesquieu declara que "em seu significado mais amplo, as leis são relações necessárias que derivam da natureza das coisas". São leis imutáveis, como as leis matemáticas.
        Em Voltaire, temos que "Deus deu ao homem sentimentos que nunca poderá renegar: são os vínculos eternos e as primeiras leis da sociedade humana".
        Mário Cattaneo, um filósofo do direito,  ensina que as características gerais da doutrina iluminista são
"uma atitude racionalista em relação ao direito natural e uma atitude voluntarista, em relação ao direito positivo".
        Os direitos naturais do homem e do cidadão, conforme a Assembléia Constituinte Francesa, de 1789,  são a liberdade, a igualdade, a  propriedade, a segurança e a resistência à opressão. A propriedade privada e a livre concorrência são "naturais".

6.      Iluminismo e burguesia

O desenvolvimento do iluminismo é simultâneo ao desenvolvimento variado da burguesia nos vários
países europeus. O interesse dos intelectuais voltou-se para a classe burguesa que era o agente desse pro-gresso – o desenvolvimento do comércio e do artesanato fez nascer uma classe de homens ricos.
       A luta travada contra um poder incapaz de interpretá-la,  e deixar que fosse feita, contra os privilégios feudais da nobreza e do clero, a burguesia iria utilizar como poderosa arma as idéias propugnadas pelos iluministas, que, por seu turno, haviam visto nessa classe o agente de progresso e em suas iniciativas os efetivos passos adianta no caminho da realização de tal progresso.


7.      Como os iluministas difundiram as "luzes".

As idéias iluministas não penetraram nas classes populares da Europa do século XVIII, que permane-
ceram ao movimento, enquanto os iluministas conseguiam difundir as novas idéias nas camadas intelectuais e entre a burguesia avançada de toda a Europa, interessando, cultural e politicamente nações muito diferentes entre si no continente europeu.
      Os philosophes, como eram chamados os expoentes das "luzes", consideravam-se mestres da sabedo-ria, conselheiros natos dos monarcas e gurus da classe média,  utilizaram como meios para divulgar e cir-cular as idéias iluministas, as academias,  a maçonaria, os salões, a Enciclopédia, o epistolário (as cartas e os ensaios) este constituindo-se um meio rápido para os iluministas difundirem suas idéias e o apreço pelas luzes da razão.

 8.      Iluminismo, história e tradição.

O Iluminismo assumiu uma atitude altamente crítica, chegando a rejeitar à tradição filosófica, religio-
sa e política em defesa de uma razão que se ergue como um tribunal a-histórico de qualquer acontecimento histórico; as próprias idéias de natureza humana, de estado natural ou de direitos naturais em seu conjunto, fizeram com que os pensadores românticos acusassem o século XVIII como um século anti-histórico. O iluminismo seria a filosofia de uma razão abstrata, de uma razão sem história, de uma razão  em que os valores éticos, as teorias filosóficas, os princípios teológicos ou as normas jurídicas seriam desprovidos de dimensão histórica.
        Para o marxismo  "o iluminismo é um movimento de progresso e emancipação humana no plano ideológico, ao passo em que a burguesia é uma força social revolucionária, mas é um movimento de compromisso ideológico e de conservação".
       Abstrato para os românticos ou superficial e incapaz de captar o verdadeiro sentido da história, conforme Hegel, o "reino da razão" iluminista é para o marxista Lukács, como o "reino da burguesia". Assim, também críticos aos iluministas foram os tradicionalistas e os neo-idealistas. Muitos autores foram incisivos em "emascular o século XVIII para cancelá-lo da história da cultura".
      Na verdade, foi precisamente a filosofia iluminista que conquistou aquele mundo histórico do qual tanto o romantismo iria se vangloriar, com justa razão.
      W. Dilthey escreveu que foi com o Iluminismo que, pela primeira vez, a história universal alcançou uma conexão que nascia da própria consideração empírica: ela era racional em virtude da concatenação de todos os acontecimentos segundo o princípio de causa e efeito e era criticamente superior em virtude da rejeição de qualquer superação da realidade dada em representações que a transcendessem. Os fundamentos de tal construção estavam no emprego inteiramente despreconceituoso da crítica histórica, que não se detinha sequer diante das mais sagradas relíquias do passado, e em um método comparativo que se estendia a todos os estágios da humanidade".
     
Junho, 2002.

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