sábado, 28 de novembro de 2009

ÁLVARO DE CAMPOS



ÁLVARO DE CAMPOS

De meus arquivos dormidos


Álvaro de Campos nasceu no final do século XIX, em Tavira. Engenheiro naval for formação, estudou em Glasgow, na Escócia. Visitou o Oriente mas, desiludido, volta a Portugal, onde tem contato com Alberto Caeiro, que se torna seu mestre. Desperta para o sensacionismo e para o futurismo.

Do Oriente, em Opiário, escreveu:

Eu acho que não vale a pena ter
Ido ao Oriente e visto a Índia e a China.
...
Por isso eu tomo ópio. É um remédio.
Sou um convalescente do Momento

Menos objetivo que o mestre, porém, deixa de lado a sensação plácida de Reis e pura de Caeiro e centra-se sobre o sujeito, caindo no que viria a ser a consciência do absurdo, a experiência do tédio e da desilusão. De tão nervoso e emotivo, por vezes chega à histeria.

Do tédio, em Adiamento:

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...


Em Tabacaria, define sua desilusão em relação a si mesmo e ao mundo nos versos:


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


A poética inventada:

Campos é um poeta que admira a inovação e a criação, a força da modernidade. Transporta esses dados para sua criação poética, em um estilo modernista, definido pela escrita da sensação e do movimento, que pode ser resumido em sentir tudo, de todas as maneiras, em uma ânsia de sentir e de abarcar a complexidade das sensações.

Uma modernidade deslumbrada e descrente, conformada e que quer se inteirar do novo, da sensação do novo. Em Ode Triunfal, Campos escreveu:


À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!


Assim como Ricardo Reis e Alberto Caeiro, a poesia de Álvaro de Campos está reunida no volume Ficções do Interlúdio, lançada pela Companhia das Letras como parte da coleção Fernando Pessoa Definitivo. Nela, não está reunida toda a obra de Campos, o heterônimo mais profícuo de Pessoa, que chega a confundir-se com este em alguns momentos.

O Sono - Álvaro de Campos

O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim —
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.
Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
E o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.


O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.

Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?,
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.

Meu Deus, tanto sono! ...

Álvaro de Campos - Depus a Máscara

Depus a máscara e vi-me ao espelho. —
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.

Postar um comentário