terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

NORTE DO MEU AMOR, Antônio Tavernard



NORTE DO MEU AMOR, Antônio Tavernard




Vovô, dá-me tua bênção!
Vou falar de ti,
Norte do boi-bumbá, do putirum, do coco,
da pimenta e mel, do cabra e do caboco
da mixira, do angu, do aluá, do açaí,
da fibra de uacima, do sebo de ucuúba,
da baunilha, do uirapuru, do bacuri,
do Jesus vegetal – a carnaúba;
simbiose de raças e de zonas,
Norte da Paulo Afonso, Norte do Marajó,
assombros naturais ultrapassados só
pelo titã das águas: o Amazonas;
Norte da pororoca e do crivo de renda,
de mulheres fecundas e dos corcéis sem brida,
de existências humanas pela lenda,
de entidades lendárias pela vida…
Cérebro e coração da pátria, castigado
por todo o sol do céu, mas não vencido
com teu Calvário: a dor,
com teu Tabor: o amor,
mártir e herói, santo e bandido,
de vida a agonizar nas caatingas queimadas
de morte a renascer nas várzeas ensopadas,
ó meu Norte querido,
como te amo assim transfigurado,
com um código: a honra, e um dogma: o dever,
com pageús e violas ao luar
por uns olhos cantando até cansar,
por uns lábios lutando até morrer.
Magro, moreno,
seguro, sereno,
voando no campo, em busca do touro,
ou só contra mil, na lei do cangaço,
por fora és de couro,
por dentro és de aço!…
Subjugaste o mar e domaste a rajada
com quatro gravetos e um trapo de pano
– gravetos e pano
que são a jangada,
jangada que é
a marca da tua audácia e da tua fé
tatuada no peito do oceano.
Norte de escravos que serão senhores
na realização das tuas certezas,
da Amazônia de todos os horrores,
da Amazônia de todas as belezas,
teus irmãos te venderam. Pouco importa!...
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