domingo, 7 de fevereiro de 2016

Ulysses e forma, por Robert Brazeau



Ulysses e forma

Robert Brazeau

 

Polêmico e considerado difícil, romance de Joyce oferece ao leitor uma educação dos sentidos


          Parte daquilo que faz com que Ulysses seja um texto tão notoriamente difícil é a maneira com que parece menosprezar a forma tradicional do romance. Composto em seguida ao realista Retrato do Artista Quando Jovem, o livro só aparenta subscrever esporadicamente à doutrina do realismo literário, e mesmo quando o faz temos a impressão de que é apenas por tempo suficiente para nos colocar em apuros com referências cada vez mais obscuras, com pensamentos, piadas ou associações que não se consegue costurar em um único “texto”.    Poderia ser argumentado que em Ulysses Joyce experimenta com aspectos formais do romance para emular os efeitos desnorteadores da modernidade urbana, capitalista, e os vários tipos de anomia e alienação que geralmente acompanham a existência contemporânea. Ou seja, ele empregaria uma estrutura que possuiria um sentido em si mesma – o romance – e então desestabilizaria a capacidade dessa forma para criar ou projetar sentido. Com isso, ele imitaria a experiência de viver em um mundo que deveria fazer sentido, mas que raramente faz – ou, pelo menos, raramente faz pelas razões que pensamos que deveria fazer.
          Recentemente, o romance de Joyce viu-se no centro de uma pequena controvérsia quando o escritor Paulo Coelho ofereceu a seguinte crítica do livro que muitos consideram a obra em prosa mais grandiosa da literatura de língua inglesa: “Um dos livros que fez mal à humanidade foi Ulysses, que é só estilo. Não tem nada ali. Se você disseca Ulysses, dá um tuite”. O escritor irlandês Roddy Doyle também lamentou o estatuto elevado que o romance alcançou, sugerindo que Ulysses pode oferecer bastante em termos de inovação formal, mas muito pouco que emocionaria a maior parte dos leitores. Esse argumento foi refutado pelo livro bastante cativante de Declan Kiberd, Ulysses and Us: The Art of Everyday Living (Faber and Faber, 2009). Nesta obra, amplamente acessível a leigos, Kiberd desdobra o argumento atraente, ainda que dúbio, de que o público leitor de Ulysses tornou-se o acadêmico, sério e livresco, porque Ulysses foi originariamente reclamado e apropriado pelas elites do movimento modernista como um exemplo perfeito de ideologia estética ou literária.  Mas é realmente verdade que Ulysses só é um livro difícil porque vários professores universitários e críticos culturais o afirmaram? Os incontáveis leitores que se debatem com o texto monumental apenas o fazem porque disseram a eles que deveriam achar o romance impenetrável? O rei está nu, afinal de contas, e o Ulysses simplesmente permanece lá, como qualquer outra obra, para ser lida e discutida?
          A maior parte dos leitores do romance, mesmo aqueles que se divertem com ele, teriam que admitir que há muito no Ulysses que é bastante difícil de entender, que dirá se divertir no sentido de uma leitura convencional. As ruminações hipereruditas de Stephen, no “Proteu”, são citadas pela maior parte dos leitores como uma fonte de dificuldades, e inúmeros outros abandonam o texto em algum ponto da Praia de Sandymount (onde se passa o episódio). Da mesma maneira, o estilo de “Sereias”, as longas inserções de “Cíclope” que acabam dominando o capítulo, a forma alienadora do “Gado do Sol”, a prosa sinuosa e cansada do “Eumeu”, o que quer que seja o “Ítaca”, e muito mais, mortificaram muitos lei- tores, fossem eles acadêmicos ou não. O estilo característico desses episódios, e aquilo que Joyce está insinuando so- bre o romance como gênero quando os mistura, confirma que algo deliberado e interessante está acontecendo nestes momentos do texto, mas também coloca, eu diria, os maiores desafios para os leitores dessa grande obra. Em um lugar ou outro, muitos começam a sentir que não estão tirando nada da experiência de Ulysses; ou seja, que estão lendo palavras, mas não o romance. Quando chegamos à conclusão, o romance passa a brincar com a noção de efificácia narrativa, dando-nos palavras demais para descrever seu movimento hesitante e indeciso em direção a nada em particular, e certa- mente a nada definitivo. A linguagem está lá e é frequentemente muito bela e tocante, mas não fica claro o que deve- ríamos estar “tirando” da leitura do romance como um todo.
          Se os eventos descritos não se cristalizam para formar o que acreditamos ser uma totalidade convencional, se as experiências dos personagens não se aglutinam para formar uma realidade confiável e compreensível, e se os pensamentos, desejos e palavras não ficam costurados para tecer um tema coerente, então o que temos? É possível defender que depois de Ulysses surge o romance escrito no modo do “como se”: pós-Joyce, ele passa a ser composto “como se” a experiência tivesse sentido e o romance pudesse nos dizer por quê, ou “como se” pudéssemos conhecer os outros e nós mesmos, ou “como se” a modernidade e a história realmente possuíssem algum significado abrangente, “como se” o projeto, o plano e a intenção reinassem sobre a contingente e o acidental, e talvez até mesmo “como se” Ulysses nunca nos houvesse ensinado o contrário. Sendo assim, mesmo que não o abandonemos, mesmo cheguemos ao fifinal de suas mil e tantas páginas e então possamos reivindicar alguma competência sobre ele, também precisAmos de alguma maneira esquecê-lo para continuar acreditando no romance como uma forma bem sucedida e satisfatória. Esta pode ser a ironia fifinal de Ulysses: aqueles que de fato completam a tarefa de trabalhar para entendê-lo encontram em seguida a tarefa de tentar reinstaurar sua concepção pré-Ulysses, ao menos no que se refifira à literatura. Estamos então bem mais defasados do que aqueles que abandonam o texto; temos que desaprendê-lo para continuar acreditando na narrativa como uma forma privilegiada que nos ajuda a entender a realidade material do nosso cotidiano.
Se essa obra força-nos a sacrificar nossa crença em formas sociais e narrativas estáveis, então com o que o Ulysses nos deixa?
          As detalhadas descrições do romance são inesquecíveis: Stephen no topo da torre Martello olhando para a “vasilha de águas amargas” [bowl of bitter Waters], ou seja, para a Baía de Dublin, a máquina de guardar moedas de Deasy, o fígado de porco de Bloom queimando na cozinha enquanto serve o chá para Molly no andar de cima da casa da Rua Eccles, no. 7, o som da língua do gato lambendo o papel no qual o fígado estava embrulhado, o calvo Pat, “um garçom ruim de ouvido” [bald Pat is a waiter hard of hearing], os gárrulos jovens em “Gado do Sol”, o café intragável no abrigo dos cocheiros em “Eumeu” – todos esses detalhes e milhares de outros dão vida a esse romance brilhante e transbordante, que nos intima a olhar para os detalhes do mundo à nossa volta por seu sentido real. Ulysses oferece ao leitor cuidadoso uma educação no uso dos sentidos, do corpo, para além do poder da mente de tentar fazer nosso mundo razoável. O cotidiano normalmente faz sentido para nós quando o encaixamos em um esquema filosófico ou psicológico de algum tipo, chegando mesmo ao ponto no qual o emprego dessas ordens (a ideológica, a erótica, a estética, a religiosa…) torna-se inseparável da realidade que pensamos estar apreendendo, mas que na realidade estamos sempre inventando. Ulysses não nos conta simplesmente que o mundo que nos rodeia é interessante ou belo, mas ao invés disso é mais desafiador celebrar a realidade diária, enfadonha, por aquilo que ela é, do que por aquilo que desejamos que ela seja.

Traduzido por Fabio Akcelrud Durão

Robert Brazeau é professor da Universidade de Alberta, Canadá, e coeditor da Eco-Critical Joyce

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