quarta-feira, 8 de julho de 2015

“Fernando Pessoa me encanta e me oprime” - GUILHERME S. ZANELLA



“Fernando Pessoa me encanta e me oprime”
GUILHERME S. ZANELLA


Leia entrevista exclusiva com José Paulo Cavalcanti Filho, o maior colecionador de objetos pessoais do poeta


Maior colecionador de objetos pessoais de Fernando Pessoa, José Paulo Cavalcanti Filho acaba de comprar em leilão em Lisboa a escrivaninha e os óculosdo poeta.
A aquisição faz parte do projeto pessoal desse advogado pernambucano e ex-ministro da Justiça (governo Sarney) demontar as peças da vida desse imenso quebra-cabeça feito de heterônimos. A ideia é reconstruir a figura do homem “real”que se esconde atrás desse mito da literatura portuguesa. O resultado foi “Fernando Pessoa – Uma Quase Autobiografia” (Ed.Record, 2011).
Membro da Academia Pernambucana de Letras, José Paulo Cavalcanti também compõe hoje a Comissão da Verdade, que visa a apurar os registros que indiquem violações de direitos humanos durante o regime militar.
Em entrevista à CULT, Cavalcanti Filho explica abaixo sua obsessão pela vida do autor de “Tabacaria” e também o que espera da Comissão da Verdade.

CULT – Qual foi o seu primeiro contato com a obra do Fernando Pessoa?
José Paulo Cavalcanti Filho – Em 1966, ouvi “Tabacaria” recitada pelo ator português João Villaret. Nessa época, ainda não sabia que Villaret era Deus. Nem que Pessoa era esse gênio absoluto. Foi o começo de uma paixão que até hoje me encanta e oprime. Tanto que nunca mais parei de lê-lo, com obsessão. Tudo. Sempre.
Aos poucos, fui sendo tomado por uma angústia indefinida. Explico: o grande Octavio Paz, ao início de um livro sobre Pessoa, comparando a insignificância da vida à majestade da obra, disse que, nele, “a obra é a vida e a vida é a obra”. O que é verdade, certamente, mas também não é. Porque, por trás do autor, há um homem que dorme, acorda, se veste, trabalha e sonha. “Mas quem era ele?”, eis a questão.
Não só isso. Sempre quis saber mais. Qual era a tabacaria da “Tabacaria”. Quem era a pequena que comia chocolates? Existiu mesmo um Esteves, aquele que conversava à porta com o dono da tabacaria? Procurava esse livro e ele não existia. E então, no mais íntimo, pouco a pouco se formou o desejo de escrevê-lo. Foi mais ou menos assim.

Quando tomou a decisão de fato de escrevê-lo?
A decisão se deu em um momento mágico, quando tentava escrever a “biografia” do heterônimo Álvaro de Campos. Porque então percebi, claramente, que Pessoa só escrevia sobre o que estava em torno dele.
Nos outros escritores, é comum que, nos textos, apareçam pedaços da vida, nomes de amigos, por aí. Em Pessoa, não. Era mais. Era um estilo próprio.
Vamos ao que fui percebendo. Por que Álvaro era de Campos? Por conta de um sósia (os narizes eram rigorosamente iguais), Ernesto Campos Melo e Castro, oito anos mais novo que Pessoa. E que tinha muitas outras de suas características: era beirão, judeu de Covilhã e engenheiro.
Por que nasceu em 15 de outubro? Porque nesse dia nasceram Virgílio e Nietzsche, duas das admirações literárias de Pessoa. E nasceu onde? Em Tavira, terra do avô paterno de Pessoa, o general Joaquim Antônio de Araújo Pessoa.
E por que era engenheiro naval? Porque essa era a profissão do genro da tia Anica, Raul Soares da Costa, que dormia então num quarto ao lado do seu. E viaja a Newcastle-on-Tyne. Por quê? Porque lá era cônsul outra de suas admirações literárias, Eça de Queirós.
E, em “Opiário”, viaja pelo Mediterrâneo. Por quê? Porque também Pessoa fez essa viagem. Mas, diferentemente de Pessoa, que vai até Lisboa, no poema a viagem é interrompida em Marselha. Por quê? Porque Rimbaud fez essa mesma viagem quando voltou da África para morrer e desembarcou em Marselha.
Por fim, Campos escreve como o homossexual que, no fundo, talvez Pessoa quisesse ser. Mas só até quando surge em sua vida Ophélia Queiroz. A partir daí, Campos passa a escrever como Pessoa. Tanto que, fosse o Campos dos primeiros tempos, seria feliz não casando com a filha de uma lavadeira, como está na “Tabacaria”, mas sim se, ao invés disso, se casasse com algum marinheiro.
Então reli as quase 30 mil páginas que escreveu e tudo se encaixava. A grande descoberta, portanto, é que a obra de Pessoa é como um testamento que esperou mais de 70 anos para ser desvendado.

Como coletou informações, fez contatos e traçou os rumos da pesquisa? Como foi compor a figura de Pessoa com base em seus heterônimos?
Fui mais de 30 vezes a Lisboa, contratei um jornalista e um historiador, em Portugal, para conferir cada página que escrevi, li todos os livros, passei centenas de horas, muitas, na Biblioteca Nacional, na Casa Fernando Pessoa, na Torre do Tombo, nas igrejas, nas conservatórias, conversei com muitos que o conheceram, inclusive anônimos, na rua, que conversavam sempre com ele e iam ao seu quarto.
Tentei até desenterrar o corpo do amigo Sá Carneiro, que foi sepultado no cemitério de Pantin, em Paris, na esperança de que no caixão estivessem as cartas que Pessoa lhe escreveu.
Digo, sem medo de errar, que tentei conferir tudo. Ninguém acreditará na quantidade de correções dos textos anteriores que estão no livro, que vão até ao que não tem importância.
Para ficar num exemplo tosco, na transcrição dos papéis de Pessoa, consta que ele comprava sapatos na Sapataria Contexto. Pedi a meu historiador para conferir onde era. Não havia nenhuma com esse nome. Então pedi que começasse a procurar desde o começo da Rua do Ouro e fosse subindo até a Restauradores, verificando se havia alguma sapataria com nome semelhante a Contexto. Tudo naquele tempo, claro.
E encontramos, vizinha à Casa Lourenço e Santos, onde fazia ternos, a Sapataria Contente, a mais famosa da Lisboa daquele tempo, dando-se que quem transcreveu a anotação simplesmente se embaralhou na péssima letra de Pessoa. Trocou o “nte” por um “xto”. Nem mesmo detalhes assim foram descuidados. E penso que o resultado não ficou mal.

O senhor já afirmou que Fernando Pessoa era um escritor sem imaginação e usava óculos de 3 graus mesmo tendo 12 graus de miopia. Essa ótica singular de mundo influenciou sua literatura?
Essa história de escritor sem imaginação é quase uma brincadeira, porque uso a expressão não no seu sentido corrente, algo como a capacidade de sonhar (e poucos no mundo sonharam tanto quanto ele), mas no estilo de escrever.
Sem imaginação porque poderia usar um nome qualquer, na “Tabacaria”, mas preferiu usar o do amigo Joaquim Esteves, um vizinho da família, que frequentava sua casa e que declarou seu óbito, só para constar. Desses quase anônimos, e tantos há em nossas vidas, que passam por esse insensato mundo quase sem deixar registros! “Sem metafísica”, como a ele se referia Pessoa.
Assim, como que juntando peças de um quebra-cabeça, foi se formando a figura implausível do meu amigo Fernando Pessoa. Um homem extremamente vaidoso no vestir; e, ao mesmo tempo, extremamente discreto no conviver. Foi uma bela aventura.

O senhor já adquiriu diversos itens pessoais do Fernando Pessoa. É para acervo pessoal ou existe algum plano futuro?
Penso que tenho quase tudo dele, e a intenção é destinar a algo público. Farei isso. Há só um risco, o de antes me acontecer algo desagradável. Por isso já disse a mulher e filhos que, se algo acontecer, por favor, tirem isso do inventário e transfiram a quem possa usar. À Academia de Letras, talvez.

Como conciliou a paixão pela literatura com a carreira política? Como se deu esse avanço?
Hoje eu não concilio, estou fora da política. Nem filiado a partido político sou. Na Grécia Antiga, havia a polis, a cidade, o patrimônio público e a idios, o patrimônio particular. Por isso se dizia dos que se ocupavam das causas públicas, que eram políticos: uma homenagem. E, dos outros, que eram idiotas: algo menor.
Se for me considerar político nesse sentido grego, aceito.

O sr. foi ministro da Justiça, é advogado, consultor da Unesco, do Banco Mundial e figura atualmente na Comissão da Verdade. Onde se encontra o vínculo com a literatura?
O destino, penso que foi o destino. Mas esse percurso interfere no ato de escrever de duas maneiras, uma boa e uma ruim. A boa é que me permite conhecer melhor a natureza humana, o insensato coração, a alma dos homens, que para Pessoa “é um abismo”. A ruim é não ter tempo para nada.

Em entrevistas, o senhor afirmara que em princípio não iria fazer parte da Comissão da Verdade. Por que repensou a ideia?
Foi diferente. Eu simplesmente imaginei que havia mais gente querendo fazer parte da comissão, ligada aos partidos. E eu não sou nada. Mas essa não é missão que se possa recusar e aceitei com devoção. Por espírito público.

Qual a sua participação na Comissão? Atende a algum interesse específico?
Somos todos iguais nela. Se acertarmos ou se errarmos, faremos isso juntos. E seremos julgados pelo indeterminado cidadão comum, no fim dos trabalhos. Mas estou otimista. Corrigindo, sou otimista. Vai dar certo.

Como o senhor classifica os desdobramentos que essa iniciativa inédita terá no cenário político brasileiro?
Com tranquilidade. Não estamos na comissão para julgar ninguém. Nosso dever é contar um pedaço da história do Brasil, com equilíbrio, mas com determinação.

http://revistacult.uol.com.br/home/2012/07/fernando-pessoa-me-encanta-e-me-oprime/
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