quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

A verdadeira história por trás da trégua na Primeira Guerra Mundial no Natal de 1914

A verdadeira história por trás da trégua na Primeira Guerra Mundial no Natal de 1914
Por Jéssica Maes, em 29.12.2014


Há 100 anos algo milagroso aconteceu na noite de Natal ao longo da Frente Ocidental. Depois de meses de luta amarga, os soldados de ambos os lados se reuniram em terra de ninguém em um show espontâneo de paz e boa vontade. Eis o que aconteceu naquele dia histórico – e por que ele marcou o fim de uma era.
Em dezembro de 1914, a guerra estava entrando em uma nova fase: um cerco prolongado acontecia em trincheiras estáticas ao longo de uma frente de 750 km. Durante os quatro meses anteriores, os soldados estavam morrendo em um ritmo terrível, e não havia um fim para a guerra à vista. Mas, durante o Natal, as coisas de repente ficaram calmas, pelo menos por um tempo.

“Nós não atirar”

Na noite antes do Natal, um capitão britânico servindo na Rue du Bois ouviu um sotaque estrangeiro do outro lado do fosso, dizendo: “Não atire depois da meia noite e nós também não o faremos” e, em seguida: “Se você for inglês, saia e converse com a gente, nós não vamos disparar”.
Tropas da Comunidade de Nações que lutavam na Bélgica e França começaram a ouvir sons estranhos vindos de toda a terra de ninguém; soldados alemães estavam cantando músicas natalinas. As tropas aliadas aplaudiram e comemoraram, gritando por mais. Os soldados de ambos os lados começaram a cantar em uníssono, trocando versos em línguas alternadas.
Escrevendo em seu diário na época, o sargento major do regimento, George Beck, fez a seguinte observação: “Alemães gritaram para nós e nos pediram para jogar futebol com eles, e também para não disparar e eles iriam fazer o mesmo. Às 2h (do dia 25) uma banda alemã passou ao longo de suas trincheiras tocando ‘Home Sweet Home’ e ‘God Save the King’, que soou grandioso e fez todo mundo pensar nas nossas casas”.
No dia seguinte, alguns soldados se atreveram a espiar além da terra de ninguém. Pedaços de pinheiros podiam ser vistos em observância da ocasião. Alguns alemães, em um esforço para levar a uma paz temporária, içaram lanternas acima das trincheiras. Se tiros não fossem disparados, seria tomado como um sinal de trégua. Em um ponto, um alemão foi ouvido gritando: “Nós bom. Nós não atirar”.

Os grandalhões confraternizam

Então, com muito cuidado e grande coragem, soldados alemães e aliados desarmados saíram de suas trincheiras para ficar no topo de suas defesas. Perto de Neuve Chapelle, um soldado irlandês descaradamente atravessou a terra de ninguém onde foi recebido não com fogo de metralhadora, mas com um charuto. Seu ato de bravura inspirou outros em sua tropa a fazer o mesmo. Cenas semelhantes começaram a se repetir em outros lugares, com soldados caminhando em direção a trincheira do outro, ou simplesmente se encontrando no meio caminho.
E quando eles se encontraram, os militares trocaram saudações de Natal da melhor forma que podiam. Eles começaram a dar presentes uns aos outros sob a forma de lembranças, cigarros e alimentos como carne, vinho, conhaque, pão preto, biscoitos, presunto e até mesmo de barris de cerveja. Eles mostraram fotografias da família e entes queridos que estavam em casa. Alguns soldados até começaram a jogar futebol com bolas improvisadas.
Notavelmente, cenas semelhantes ocorreram em dezenas de pontos distintos desde o Mar do Norte até a fronteira com a Suíça.
Os brigadistas do coronel George Laurie, depois de saberem o que estava acontecendo, o avisaram do ocorrido. “Acredita-se possível que inimigo possa estar contemplando um ataque durante o Natal ou Ano Novo. Vigilância especial será mantida durante este período”.
No entanto, o coronel Laurie deu ordens para não atirar no inimigo no dia seguinte, a não ser que eles atirassem primeiro. Às 20h30 da véspera de Natal, ele sinalizou para o quartel-general da brigada. “Os alemães têm iluminado suas trincheiras, estão cantando canções e nos desejando um Feliz Natal. Elogios estão sendo trocados, no entanto, estou tomando todas as precauções militares”. Ele ainda acrescentou que nenhum tiro havia sido disparado desde 20h.
Laurie passou a descrever como os soldados de ambos os lados estavam se misturando. Os alemães, escreveu ele, eram “homens finos, limpos e bem vestidos. Eles nos deram bonés, crachás de capacete e uma caixa de charutos. Um deles afirmou que a guerra terminaria em três semanas, já que haviam derrotado a Rússia!”.
O quartel-general da brigada respondeu às 00h35 do Dia de Natal dizendo que comunicação alguma, de qualquer tipo, poderia ser realizada com o inimigo e que eles não estavam autorizados a se aproximar das trincheiras sob pena da abertura de fogo.
Mais tarde, o coronel relembrou: “Você não tem ideia do quão agradável tudo parecia com nenhuma bala de fuzil ou cartuchos voando ao nosso redor”. Em seu diário, o tenente Kurt Zehmisch, do regimento Saxony 134, escreveu que “Nenhum tiro foi disparado”.
Após o evento, os soldados estavam ansiosos para compartilhar o que tinha acontecido com seus entes queridos. Henry Williamson, na época um cabo de 19 anos da London Rifle Brigade que sobreviveu à guerra para se tornar um escritor, enviou uma carta do front para a mãe dele. “Na minha boca está um cachimbo presentado pela princesa Maria. No cachimbo tem tabaco alemão. Ha ha, você diz, [isso] é de um prisioneiro ou foi encontrado em uma trincheira. Ah, não! [O cachimbo] veio de um soldado alemão. Sim, um soldado alemão vivo em sua própria trincheira. Maravilhoso, não é?”.
A trégua também permitiu que as tropas de ambos os lados recolhessem e enterrassem seus mortos, o que também não era pouca coisa. Era cruel para um militar saber que os restos mortais de companheiros ainda estavam a céu aberto.
Abaixo, veja uma reconstituição da Trégua de Natal de 1914 produzida pela Sainsbury em parceria com o Royal British Legion.

Bolsões de resistência

Mas a trégua não foi honrada em todos os lugares. Em um incidente que só veio à tona recentemente, três soldados – dois britânicos e um alemão – foram mortos, apesar da paz temporária. Ao contrário da maioria dos relatos, nem todos os setores ao longo da linha de frente que separava as tropas aliadas dos alemães estavam exalando calma e tranquilidade. Pelo menos 250 soldados morreram no dia de Natal, incluindo 149 soldados da Comunidade de Nações, embora a maioria deles tenha sucumbido a ferimentos infligidos anteriormente.
No caso dos três soldados mortos, tudo começou de madrugada, quando militares britânicos da Brigada de Guardas atiraram em uma lanterna alemã enquanto ela estava sendo içada – uma declaração de recusa em reconhecer a trégua proposta.
 “Havia muita comoção acontecendo na linha de frente alemã, a cerca de 140 metros de distância. Depois de alguns momentos, havia objetos acesos acima do parapeito alemão, que pareciam lanternas chinesas para nós”, conta o cabo Clifford Lane, do regimento H Company Hertfordshire. “Os alemães estavam gritando para a nossa trincheira. Recebemos ordem para abrir fogo rápido, o que fizemos. Os alemães não responderam ao nosso fogo e continuaram com suas celebrações”. O britânico conta que a Brigada de Guardas era a mais disciplinada do exército e por isso atendeu às ordens superiores e ignorou a trégua. “Eu me arrependi muito depois, porque teria sido uma boa experiência”.
Assim, com alguns trechos da frente em um estado de trégua temporária e outros não, os soldados foram colocados em grande perigo. No setor de Lane, um franco-atirador alemão acertou Percy Huggins, que estava servindo de sentinela auditivo em um posto avançado a apenas 20 metros do lado inimigo. Em retaliação, o sargento Tom Gregory assumiu o cargo, conseguiu localizar o atirador, e o matou. Alguns momentos depois, enquanto procurava por mais snipers, ele próprio foi baleado e morto por um segundo atirador alemão.
Curiosamente, o evento inspirou os britânicos a “estudar a arte do sniping”.

O último suspiro de uma era morta

Assim foi a Trégua de Natal de 1914. Em alguns lugares, ela continuou por mais de um dia. Mas quando generais souberam do acontecido, garantiram que isso nunca ocorreria novamente. E, apesar de tentativas esporádicas em anos posteriores, ela nunca se repetiu.
Um século depois, é fácil descartar todas as lembranças e homenagens como sendo excessivamente sentimentais e piegas. O que é muitas vezes esquecido, no entanto, é o que a paz temporária representava no esquema maior das coisas. Há uma razão muito boa para uma trégua nunca mais ter acontecido nesta guerra e nas guerras subsequentes – e muito disso tem a ver com a natureza mutável da estratégia militar, o novo papel dos soldados e como eles se engajam com o inimigo e os alto riscos envolvidos nas nações industrializadas em uma guerra sem compromisso. Os políticos e líderes militares já não conseguiam mais tolerar tal confraternização em face a exércitos de massa existentes em uma época de fervor revolucionário. Era uma questão de controle.
A Trégua de Natal de 1914 também pode ser vista como o último suspiro do romântico século XIX, o gesto final de uma era que contou com soldados “cavalheirescos” e heróis galantes que podiam enfrentar seus adversários cara-a-cara. Os soldados profissionais da Primeira Guerra Mundial foram substituídos por recrutas sem nenhum senso de tradição militar. Campos de batalha, assim como as fábricas, tinham se transformado em locais de trabalho industrializados.
Guerras não eram mais definidas por movimento e batalhas decisivas. Em vez disso, se tornaram uma batalha de atrito na qual exércitos de milhões eram lançados contra outros exércitos de milhões. Enquanto isso, nos lares dos militares, multidões se reuniam para fornecer apoio material com sua força industrial.
Finalmente, os soldados não tinham realmente aprendido a odiar uns aos outros. Muitos deles viam-se como peões em um jogo que não entendiam, lutando contra um inimigo por razões que não eram imediatamente óbvias.
A trégua de 1914 aconteceu apenas alguns meses após o início das hostilidades. Muitas dessas tropas eram verdes, ainda não tinham sido ensanguentadas pelos horrores que estavam por vir. No Museu Imperial da Guerra, em Londres, historiadores como Alan Wakefield dizem que a amargura e o ódio ainda não tinham tomado conta de ninguém.
“A guerra ainda não tinha ficado, como se diz, tão suja nessa fase”, disse Wakefield. “Foi em 1915, na verdade, que chegaram coisas como gás venenoso. Dirigíveis Zeppelin bombardearam Londres, alemães afundaram o navio Lusitânia com vítimas civis. E a máquina de propaganda ainda não se alimentava com isso e criava esse tipo de ódio entre as duas forças”.
A guerra começou a se tornar uma atividade vingativa e altamente impessoal muito depois do Natal. E, ao contrário da Segunda Guerra Mundial, em que os fatores ideológicos eram evidentes para quase todo mundo, a Grande Guerra foi para muitos um conflito estranho, um desperdício, algo sem sentido.
O início da Primeira Guerra Mundial marcou o verdadeiro início de uma nova era, mas foi a Trégua de Natal de 1914 que puxou a cortina final sobre a que estava morrendo.


https://hypescience.com/historia-real-por-tras-da-tregua-na-primeira-guerra-mundial-no-natal-de-1914/

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Verbalizando o verbo

Verbalizando o verbo

francisco vaz Brasil


Primeiro veio o verbo: in verbis;

Depois vieram os substantivos,
adjetivos, pronomes, is acentos 
e as outras traquinagens gramaticais

Foi, então que Dom João, 

Fugindo dos franceses, ao banhar-se
Com as negas do leite, ali, 
no Forte Copacabana e abraçado 
a uma mulata do Sargentelli gritou:
Se é para o bem das minhas morenas
E felicidade geral no favelão
Diga ao povo das senzalas que “Eu Fico!”

Foi da primeira conjugação, na primeira pessoa

E a traquinagem continuou no século XIX.

Em seguida, Pedro II, recém chegado de Miami

E montado em sua jumenta, às margens do igarapé
Ipiranga, onde lindas lavadeiras banhavam-se
E lavavam as roupas e as partes baixas,
Empunhou sua chibata e mirando as Krikas
das negras -que eram roxas, gritou em alto tom:
“Independence or Death!”

E dali se afastou alegremente, entre um gole 

e outro de tiquira junto com trezentas moças morenas

Logo veio a Duquesa de Santos

pegou a jumenta de Dom Pedro
e a acomodou nas partes mais íntimas
de seu armário...

E, in verbis veio a carne

Pois carne não vinga sem carne
E sem verbo não se pare um poema...

ÉGLOGAS PARA UM SENHOR CHAMADO CARNAVAL

ÉGLOGAS PARA UM SENHOR CHAMADO CARNAVAL
Francisco Vaz Brasil


toda gente se achegou
por necessidade
por sadismo
talhando pedra e barro
aos empurrões
e palavrões
à praça
perplexa e apática

os blocos
- palhaços mambembes
costelas viventes
de uma inflação muda:
               punhal afiado

os blocos passando
- desfile macabro
corpos fantasiados
batucada fantasma
em desfile
na álgida metrópole

o Teatro –da Paz –
taciturno observa,
há tempos imemoriais
na espessura do gesso
na pauta sonora e fria
no espaço da moldura
nas vozes suplicantes
das noites da belle èpoque

no terraço dos edifícios
as pedras não entenderam e se calaram
em sua saliva de pó e calcário

nas escolas (de samba)
surgiram equações no gesto
e dúvidas no esquadro:
os passos seriam milimétricos;
os giros do compasso eram a agonia
da porta-estandarte e o mestre-sala tremia
como quem nasce (oh, carnaval)
em círculos de bronze
rodas de samba, brazões e tradições...

as evoluções do passista
no tapete vivo de carne e asfalto
são a esperança
e a voz do crooner , desafinada,
era talho e atalho no corpo
inerte e inerme
da plateia
(que se oferece dúbia,
nas curvas, como um rio
marmóreo, límpido, onírico)

a praça sozinha,
em meio à multidão, sorri
sua forma bem lavada
em barras de suor,
lágrimas felizes
e aço em combustão

mas o carnaval
nasce assim, maduro:
é o tempo
paridor de estrelas
cubos, alvoradas e cristais;
lágrimas congeladas,
sorrisos y sorridentes
- brincantes forjados em laboratório

é o carnaval
que da estrutura dos ritmos
criou a linha do viver
e o carnaval está nas gentes
incrustado como a ostra
à espera da semente perolar

está no tempo a descoberto
para o orvalho e o raio
sob a chuva e as margaridas
com prêmios de mil centavos

sim, e ele explode em nós
em glóbulos, nas artérias
e dele correm os homens tranquilos
em rodas e pedais do esquecimento

para quem amou
nele está o segredo, ou no umbigo,
o silêncio antigo, o ruído das palavras
o atrito e a entrada da lâmina
no subterrâneo do prazer!

e o museu com o que se disse
                  e o que não se disse
e o passado em retângulos de mármore
vê o carnaval como paralelos
cravados sobre o chão

lá estão o moço e a moça
os seus estremecimentos
e a criança
- seu medo de ser aborto e natimorta

no bar do parque, aqui sim,
aqui gasta-se o níquel
e o don Juan deseja o mulher do próximo
- aqui se ama, se amou, se amaram
o índio e a loira sob os lençóis do horizonte

a gênese do carnaval
líquido, alegre, sujo, loucoricida,
entrementes, é imensa e única:
- de um fio faz-se o tecido,
- por um fio faz-se a massa
  estonteante da mulher amada
(margens calculadas para o amor)
e por um fio fez-se o poema e a roupa
por um fio faz-se um filho e um rio
por um fio faz-se encurtar distâncias
por um fio também jorra
o sangue dos que fazem o crime, a guerra

por um fio,
podemos salvar o nosso carnaval...

[Publicado no jornal Folha do Norte, de Belém,

Em 30 de janeiro a 5 de fevereiro de 1978]

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Indizíveis Francisco Vaz Brasil

Indizíveis

Francisco Vaz Brasil


No instituto médico-legal

Dissecaram o corpo da palavra
Com um ereto cinzel diamantado...
- a placa de Petri, horrorizada, observa
Paredes hirtas, tijolos escarlates
Espectros imemoriais, silêncios lancinantes
(gritos, lascívia, preguiça, prazer...)

De gesso, tosco pensamento urge:

A palavra, sonora e fria solenemente 
Reage, nega, renega, sonega, protesta,
Em súplicas, réplicas e tréplicas;
Mexe, remexe, fragmenta-se em sóis:
Pedaços de literariedades e sons de cítara escorraçada...

E o meu computador insiste em escondê-la

E agora multiplica-se, saltando como uma matrix
Projetando-se na tela
(e não sei como ordená-las
Em frases para dizer que te amo,
Nem canções que explicitem adeus)
- puras reflexões incorpóreas, sem arquitetura.

Murmúrios, marulhos, lamúrias, entretendendo-se,

Originam a frase (?)
Travestida, mal-acabada entre grãos de areia multicolor,
entre verbos e pronomes, sujeitos mal-predicados,
Predicativos de erros e metáforas sem rumo,
Intertextualidade arrítmica
( um rosto novo, pele nova e opressora)

A geografia de teu corpo, palavra,

Inacessível-sensaborosa-transcendental,
Está na curva, inscrita na íris do olho,
Circunspecta, onde dúvida e incerteza pairam
Numa canção do aonde se insere o onde
E o quando não tem porque,

E a seta de um seio duro 

aponta a direção

do pensamento-incoeso-incoerente-perplexo

desamparado-circunflexo
a- nexo, a-plexo,
ponto desconectado...

Silêncios perniciosos de fonemas inservíveis,

Cobras y lagartos mudos – e tu, palavra, não sais

- você não sabe o que é sentir-se 

hirto como um morto,
Náufrago do pensamento perdido:
- parir um poema é mais fácil que criá-lo.


Se bem que além-mar os peixes combinam danças

E seus colares de letras indizíveis
projetam meu olhar em tua direção, palavra...