segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Harpa XXXII, Souzândrade





Harpa XXXII
Souzândrade


Dos rubros flancos do redondo oceano
Com suas asas de luz prendendo a terra
O sol eu vi nascer, jovem formoso
Desordenando pelos ombros de ouro
A perfumada luminosa coma,
Nas faces de um calor que amor acende
Sorriso de coral deixava errante.
Em torno de mim não tragas os teus raios,
Suspende, sol de fogo! tu, que outrora
Em cândidas canções eu te saudava
Nesta hora d'esperança, ergue-te e passa
Sem ouvir minha lira. Quando infante
Nos pés do laranjal adormecido,
Orvalhado das flores que choviam
Cheirosas dentre o ramo e a bela fruta,
Na terra de meus pais eu despertava,
Minhas irmãs sorrindo, e o canto e aromas,
E o sussurrar da rúbida mangueira
Eram teus raios que primeiro vinham
Roçar-me as cordas do alaúde brando
Nos meus joelhos tímidos vagindo.

O que você fala nem sempre (quase nunca) é o que o outro entende, REVISTA BULA



O que você fala nem sempre (quase nunca) é o que o outro entende
REVISTA BULA

Desde cedo, descobri — da forma mais curiosa possível — que não vemos as cores da mesma forma. Até hoje ainda acho muita graça quando discuto com minha querida mãe sobre cores que transitam entre laranja, rosa e vermelho. Minha paleta é imensa, vejo rosa-bebê, pink, fúcsia, vinho, ocre etc. As nuances dela também são várias, mas nunca batem com as minhas quando estamos nesses tons. Se vejo pêssego, ela vê rosa-chá, se vejo amadeirado, ela vê vinho claro. Geralmente, terminamos o assunto rindo (e com certa pena uma da outra), já que reciprocamente nos consideramos daltônicas. Jamais saberemos qual das duas nasceu com defeito de fábrica.

A bem da verdade, quando olhamos para uma laranja, sabemos que ela é laranja porque aprendemos assim. No entanto, como ainda não podemos enxergar o mundo com os olhos alheios, não dá para saber se a pessoa ao lado está realmente vendo a cor do mesmo jeito que nós, embora a batizemos com o mesmo nome. Quem garante que o cara do lado não chame de verde toda cor que, para você, é inevitavelmente roxa?

Se não conseguimos nos entender diante de algo tão (em tese) objetivo como as cores, imagine perante situações conotativas, que exijam compreensão e interpretação. Para total desespero, mesmo com todo o esforço dos diversos idiomas e suas regras objetivas, dificilmente conseguiremos fazer-nos entendidos exatamente como queremos. Certo é que, entre o que sai da boca de um e o que o cérebro do outro entende, existe enorme abismo, um verdadeiro limbo interpretativo.
Há vários anos, um dos vestibulares do Centro-Oeste lançou questões de interpretação sobre determinado texto do memorável escritor Bernardo Élis. Antes de o gabarito oficial sair, o próprio autor foi convidado a comentar a prova numa escola e, juntamente com os professores, fez um gabarito preliminar. Qual não foi a surpresa de todos quando o gabarito oficial saiu e as respostas não batiam com as do próprio escritor! Indagada, a coordenadora da banca limitou-se a responder (com certa propriedade, é verdade) que o eu-lírico fala mais alto e, portanto, o próprio autor pode, muitas vezes, não compreender o que seu eu-poético quis dizer. Em tempo: o gabarito não foi alterado. Bernardo Élis que aprendesse a compreender melhor seu eu-lírico.

Levei anos de terapia para introjetar que sou responsável apenas por parte do processo de comunicação. Ajeito-me da melhor forma possível para expressar com objetividade minhas mensagens, mas frequentemente o negócio embanana. Às vezes, explicações mais aprofundadas são suficientes para desfazer o boró, mas certamente muita coisa é engolida de maneira equivocada. Sempre que leio alguns comentários de leitores nas colunas desta revista, pergunto-me se eu mesma não deveria aprender a me interpretar melhor. Vai que o eu-lírico quis dizer uma coisa que eu não soube captar, mas que o leitor pegou direitinho…

O cenário complica ainda mais quando se consideram outras variantes: linguagem corporal, segundas intenções, sentimentalidades, meias-palavras, carência vocabular (por desconhecimento do falante ou limitação da língua)… A verdade é que pouco do que se expressa costuma ser objetivo e literal.

Enfim, antes vivêssemos num mundo em que a comunicação fosse despicienda. Antes passar uma mensagem fosse tão objetivo quanto, sei lá, beber um copo d´água. Já nem sei mais se beber um copo d´água é assim tão objetivo. Depende de quem bebe. Depende do contexto. Depende.

Mas quer saber? Que saco seria se o mundo fosse cheio de verdades universais.

http://www.revistabula.com/7496-o-que-voce-fala-nem-sempre-quase-nunca-e-o-que-o-outro-entende/

sábado, 24 de dezembro de 2016