domingo, 2 de outubro de 2016

POT-POURRI DE LEITORES ETC. ETC., Elias Ribeiro Pinto



POT-POURRI DE LEITORES ETC. ETC.,
Elias Ribeiro Pinto




JORNAL DIÁRIO DO PARÁ, COLUNA DESTA QUARTA (7/9/16)
Eu estava na janela de casa, feito Carolina, no tempo em que o tempo passava na janela e só Carolina não via. Pois lá eu estava, vendo a banda passar (que hoje está mais para formação de quadrilha)
Outro dia, aqui na Padre Eutíquio, quase chegando na Praça da Bandeira, quando eu voltava de um balão matinal pela Cidade Velha, uma pessoa me parou. “Você não é o colunista etc. etc.” “Sim, sou eu etc. etc.”, respondi.
Que ele gosta muito de ler a coluna, prosseguiu, em seguida a ambos os etc., mas seu gosto maior é quando me debruço sobre os botecos idos e vividos, as histórias, as lendas, personagens da boemia belenense. Disse para eu escrever mais sobre o tema aos domingos. Na página de domingo, observei, costumo escrever sobre livros, mas de vez em quando, admiti, abro espaço para umas e outras, até no embalo de obras que narram a vida de bares e seus frequentadores, daqui e de alhures. Mais de alhures, que quase não dispomos de épicos da boemia papaxibé.
Outros leitores, por sua vez, pedem mais literatura, indicações de livros, comentários sobre as novidades literárias, sobre escritores, episódios e causos. Inclusive no meio da semana.
Em um dia mais recuado, ao fugir de uma chuva, abrigado sob a marquise do Olympia, aí foi uma leitora que, depois de me olhar, reolhar, disse: “Você não é aquele colunista etc. etc.”. Papo vem, papo vai, antes de a chuva estiar e abrir uma brecha para uma corrida até em casa (quem vai para casa não se molha etc. etc., a não ser que você seja seguido por uma virose, ou, pior, um assaltante), ela também opinou: “Ah, eu gosto quando você fala das suas andanças por Belém”.
O que me fez lembrar de um dia ainda mais recuado. Eu estava na janela de casa, feito Carolina, no tempo em que o tempo passava na janela e só Carolina não via. Pois ali eu estava, vendo a banda passar (que hoje está mais para formação de quadrilha), quando uma senhorinha surge no horizonte, vem se aproximando, se aproximando, me olhando, me olhando, aquilo já começa a me inquietar, esta moça, quer dizer, esta senhorinha está diferente, não sei não. “Você não é aquele colunista etc. etc.”. Confirmo, surpreso. “Ah, desculpe vir lhe olhando desse jeito. Sabia que o senhor morava por aqui. Adoro quando o senhor escreve sobre o nosso bairro, a Campina.” Ah!
Acho que já lhes contei de uma vez, passando pela esquina da Braz de Aguiar com a Dr. Moraes, onde tem um DeliCidade. Uma figura maltrapilha revirava uma espécie de contêiner com o lixo da loja. Ao me ver passar, ele levantou a vista. Eu apressei o passo, certo que viria um pedido, um trocado. Aí escutei a formidável admoestação: “Elias, não gostei muito daquilo que escreveste sobre o Manuel Bandeira”. Ou alguma coisa parecida.
A figura em questão, viria a saber depois, vivia do que catava, recolhia, mas tinha sido estudante, entrou na universidade, lia bastante, mas se desguiou, caiu na rua. Ele costumava me ler quando lhe caía nas mãos um jornal passado, ou nas bancas. Depois desse dia, encontrei-o ao longo dos bares da Braz, quando eu ainda bebia no Gil, lá para perto da Generalíssimo, ou mais aqui, no saudoso Boteco da Braz, do amigo Luiz André Barata, já perto da Serzedelo. Ele sentava-se no meio-fio e eu era o único a entender sua fala engrolada, ou julgava entender. O seu interesse maior era a poesia, literatura, de maneira geral, mas também se queixava de políticos. Prometi-lhe alguns livros que não sei se cheguei a repassar. Nunca mais o vi.
Bem, voltando ao leitor do primeiro parágrafo, estou com vontade de atender seu pedido neste domingo com um pot-pourri de artigos que escrevi sobre bares, uma seleção boemia. Vamos ver se acho o caminho das pedras, on the rocks.

Christina's World by Andrew Wyeth By Shelley Esaak



Christina's World by Andrew Wyeth

An In-Depth Look at Christina's World



Andrew Wyeth (American, 1917-2009). Christina's World, 1948. Tempera on gessoed panel.

 

About Christina's World

Andrew Wyeth painted this in 1948. His father, N. C. Wyeth, had been killed at a railway crossing just three years earlier, and Andrew's work underwent a significant change after the loss. His palette became muted, his landscapes barren and his figures--if present--seemed plaintive. Christina's World epitomizes these traits, and conveys the impression that it is an outward expression of Wyeth's inner grief.

Inspiration

Anna Christina Olson (1893-1968) was a lifelong resident of the Cushing, Maine farm pictured in Christina's World.
She had a degenerative muscular disorder (undiagnosed, but sometimes identified as polio) that took away her ability to walk by the late 1920s. Eschewing a wheelchair, she crawled around the house and grounds.

Wyeth, who had summered in Maine for many years, met the spinster Olson and her bachelor brother, Alvaro, in 1939. The three were introduced by Wyeth's future wife, Betsy James (b. 1922), another long-term summer resident. It's hard to say what fired the young artist's imagination more: the Olson siblings or their residence.

Models

We have three here, actually. The figure's wasted limbs and pink dress belong to Christina Olson. The youthful head and torso, however, belong to Betsy Wyeth who was then in her mid-20s (as opposed to Christina's then-mid-50s).

The most famous "model" in this scene is the
Olson farmhouse itself, on the National Register of Historic Places since 1995.

Technique

The composition is perfectly asymmetrically balanced, though parts of the farmhouse were rearranged by artistic license to accomplish this feat. Wyeth painted in egg tempera, a medium that requires the artist to mix (and constantly monitor) his own paints, but allows for great control. Notice the incredible detail here, where individual hairs and blades of grass are painstakingly highlighted.

Critical Reception

Christina's World was met with little critical notice after its completion, mainly because (1) the Abstract Expressionists were making most of the arts news and (2) the founding director of MoMA, Alfred Barr, snapped it up almost immediately for $1,800. The few art critics who commented at the time were lukewarm at best. During the ensuing six decades the painting has become a MoMA highlight and is very rarely loaned. The last exception was to an Andrew Wyeth memorial show at the Brandywine River Museum in his native town of Chadds Ford, Pennsylvania.

More telling is how large a part Christina's World plays in popular culture. Writers, filmmakers and other visual artists reference it, and the public has always loved it. 45 years ago you'd have been hard-pressed to find a single Pollock reproduction within 20 square city blocks, but everyone knew at least one person who had a copy of Christina's World hanging somewhere on a wall.

Where to See It


http://arthistory.about.com/od/famous_paintings/ss/andrew_wyeth_christinas_world.htm?utm_content=20160809&utm_medium=email&utm_source=exp_nl&utm_campaign=list_esl&utm_term=list_esl

A CASA, ANTONIO JURACI SIQUEIRA



A CASA,
ANTONIO JURACI SIQUEIRA



Quem casa tem que ter casa
diz um rifão popular.
Mas para que serve a casa
além do verbo morar?
Para alcovitar segredos
agasalhar sentimentos
acumular esperanças
saudades recordações?
De que se faz uma casa
fora o verbo construir?
De palha de pau a pique
de barro areia tijolo
pedra cal cimento armado
tábua lona papelão?
E a casa feita se sonhos
com paredes de ilusão?
E a construída de insônias
em suadas prestações?
E a casa de mãe joana
onde todos põem a mão?
Quantos nomes tem a casa
e quantas casas num nome?
Palácio choça cabana
pensão castelo caverna
rancho maloca barraco
banco de praça prisão...
Mas haverá diferença
da casa em que nós moramos
daquela que mora em nós?
E quem habita uma casa
além do verbo habitar?
Em cada casa uma história
em cada canto um mistério
em cada copa um sabor
em cada quarto um gemido
de gozo renúncia ou dor.
Cada parede um segredo
cada teto uma goteira
cada janela um sorriso
cada porta uma surpresa
num abraço de chegada
num adeus de despedida.
                                                           Mas existe mesmo a casa
                                          além do verbo casar?
* * *
(Do livro: NA TEIA DO POEMA, Belém, 2011)