sábado, 10 de outubro de 2015

FLORZINHA DE JAMBU, Jamil Damous



FLORZINHA DE JAMBU
Jamil Damous




(Para Dolores Coelho)

Ai florzinha de jambu
Não digo nada a ninguém
Não digo que estou sofrendo
Assim longe de Belém

Ai florzinha de jambu
Te recebi com amor
Num post do facebook
Que uma amiga me mandou

Ainda véspera do Círio
E já teu cheiro e sabor
E já até tremelicas
E Nazica nem passou

Mas amanhã de manhã
Na hora em que ela passar
Ai florzinha de jambu
Será menor meu penar

Pois sei que estarás aqui
Como Nazica também
Pois na manhã de domingo
O Rio passa em Belém

"Círio no Exílio", Jamil Damous



"Círio no Exílio"
Jamil Damous


outubro, domingo
as folhas do outono caindo
no exílio de um país distante e frio
me lembro que a essa hora vem vindo
numa cidade longínqua do brasil
vem vindo vem vindo
a essa hora sob o sol do equador
o andar o andor o ardor
de tanta gente na manhã quente
tão diferente desta aqui
e sinto o frio como se estive ao sol daí
e como um hambúrguer com gosto de tucupi
e onde passas te saúdo e aplaudo e é aqui
é mesmo por aqui que eu sei que passas
no asfalto negro da saudade
nas avenidas de outra cidade
eu sei que passas por aqui
eu sei que passas por aqui
e vejo então que não te devo
a promessa que fiz
de estar aí em todo círio e ser feliz
distante estou aqui e hoje bem sei
que não passas só em belém
passas aqui também
passas por onde houver um filho teu
todos os teus filhos
os crentes e os ateus
senhora de nazaré
além de toda fé
toda razão
bem dentro do coração
estás em mim e fim
um sim dentro do não
                                                                                                                           
Em um dia do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, o autor, que deveria estar em Belém, naquele domingo de outubro, para pagar uma promessa,  pensativo, declarou ... “E agora? Nazica vai se aborrecer, pensei. Já me permitia a intimidade de chamá-la pelo apelido carinhoso. Foi quando me dei conta de que estava subestimando o poder de Nazica. E aí rezei. Nazica, tu és grande demais para só estar numa única cidade do mundo, uma quente e úmida cidade do Norte do Brasil. Nazica, tu estás no mundo inteiro, tu estás aqui, nesta pequena cidade do Maine, nesta fria manhã de outono. E, caminhando sozinho, parei naquela rua cheia de casinhas de tijolos amarelos, e na cinzenta manhã da Nova Inglaterra, Nazica passou. Voltei para a casa dos amigos americanos com a alma limpa, o dever cumprido. Onde comeria no almoço uma deliciosa torta de maçã. Juro que ela tinha gosto de tucupi."”

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Elogio do Alexandrino, Souzândrade




Elogio do Alexandrino
Souzândrade

Asclepiádeo verso: à evolução do poema
Das sestas, cadenciar d'altas antigüidades,
já porque bipartido em fúlgidas metades
Reata em conjunção opostos de um dilema,
E já por ser de gala a forma do matiz
Heleno na escultura e lácio na linguagem
Reacesda, de Alexandre, em fogos de Paris:
Paris o tom da moda, o bom gosto, a roupagem;
Que desperta aos tocsins, galo às estrelas d'alva,
Que faz revoluções de Filadélfia às salvas
E o verso-luz, fardeur das formas, de grandeza,
o verso-formosura, adornos, lauta mesa
Ond' tokay, champanh', flor, copos cristal-diamantes
Sobrelevam roast-beef e os queijos e o pudding.
Porém, mens divinior, poesia é o férreo guante:
Ao das delícias tempo, o fácil verso ovante,
o verso cor de rosa, o de oiro, o de carmim,
Dos raios que o astro veste em dia azul-celeste;
E para os que têm fome e sede de justiça,
O verso condor, chama, alárum, de carniça,
D'harpas d'Ésquilus, de Hugo, a dor, a tempestade:
Que, embora contra um deus "Figaro" impiedade
Vesgo olhinho a piscar diga tambour-major,
Restruge alto acordando os cândidos espíritos
Às glórias do oceano e percutindo os gritos
Réus. Ao belo trovoar do magno Trovador
Ouve-se afinação no mundo brasileiro,
Acorde tão formoso, hodierno, hospitaleiro,
Flamívomo social, encantador. Fulgura
Luz de dia primeiro, a nota formosura,
Que ao jeová-grande-abrir faz novo Éden luzir.







Biografia: Joaquim de Sousândrade  (1833 - 1902)

 
Joaquim de Sousa Andrade, nascido na vila de Guimarães, no Maranhão, formou-se em Letras pela Sorbonne, em Paris, onde fez também o curso de engenharia de minas. Republicano convicto e militante, transfere-se, em 1870, para os Estados Unidos. Morando em Nova Iorque, funda o periódico republicano "O Novo Mundo", publicado em português. Retornando ao Maranhão, comemora com entusiasmo a Proclamação de República. Dedica-se ao ensino de Língua Grega no Liceu Maranhense e passa, no final da vida, por enormes dificuldades financeiras. Morre em São Luís, abandonado, na miséria e considerado louco. Sua obra foi esquecida durante décadas. Resgatada no início da década de 1960, pelos poetas Augusto e Haroldo de Campos, revelou-se uma das mais originais e instigantes de todo o nosso Romantismo. Em Nova Iorque, publica sua maior obra, o poema longo O Guesa Errante (1874/77), em que utiliza recursos expressivos, como a criação de neologismos e de metáforas vertiginosas, que só foram valorizados muito depois de sua morte. Em 1877, escreveu: "Ouvi dizer já por duas vezes que o Guesa Errante será lido 50 anos depois; entristeci - decepção de quem escreve 50 anos antes".

http://www.jornaldepoesia.jor.br/soua.html

Viagem sentimental pelos nomes dos livros. Por Edival Lourenço



Viagem sentimental pelos nomes dos livros

Por Edival Lourenço



Em Colunistas

REVISTA BULA


Valendo-se da própria memória afetiva, o autor empreende algumas viagens sentimentais ao mundo dos livros, passando por uma centena de títulos, dos mais antigos, como Odisseia, aos mais recentes como naqueles morros depois da chuva. O leitor também poderá empreender suas próprias viagens. É só ativar a memória e soltar a imaginação.

Nada de novo no front: naqueles morros depois da chuva, o espião que veio do frio, qual dom Quixote, sem temer a guerra e paz, com pinta de dom casmurro, se alimenta das vinhas da ira, no fio da navalha, numa grande jornada noite adentro, feito o apanhador no campo de centeio, em busca do castelo dos destinos cruzados, na montanha mágica, numa estação no inferno ou a leste do éden.

Ulisses, com o pé na estrada, sua odisseia, qual homem sem o qualidades, na volta do parafuso, apaixonado como o amante de lady chaterley, namora sua Lolita, por quem os sinos dobram, num amor nos tempo do cólera.

No processo de metamorfose, encarando crime e castigo, diante da cavalaria vermelha, num meridiano de sangue, o conde de monte cristo celebra a festa do bode, pelos sertões, na guerra do fim do mundo.
Naqueles mundos de vazabarros, na hora dos ruminantes, feito a máquina extraviada, levando vidas secas, onde ratos e homens vivem cem anos de solidão, pior que o velho e o mar ou o coronel em seu labirinto.
Ana Karenina, pergunte ao pó, se o sol também se levanta pelos irmãos karamazov para, em busca do tempo perdido, viver a divina comédia entre o som e a fúria, enquanto agonizo ou procuro a morte em Veneza, qual Drácula ou o homem invisível.

Doutor Fausto, a sangue frio, do jeito de um grande gatsby, olhai os lírios do campo, incidente em antares, ou no morro dos ventos uivantes levantado do chão, rumo ao farol, cruzando o tempo e o vento, passando por grande sertão: veredas. Lobo da estepe numa centopeia de neon, sob o trópico de capricórnio.

Sem quase memória, mas sem temer a náusea ou a peste, com orgulho e preconceito, Hamlet, uma espécie de Pedro Páramo, o cavaleiro inexistente nas cidades invisíveis, entre almas mortas, pelo atalho dos ninhos de aranha, repete as viagens de Gulliver, sem se importar com a vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy ou o sorriso do lagarto. E ainda grita: viva o povo brasileiro, sargento Getúlio, neste admirável mundo novo de 1984!

José e seus irmãos, como o estrangeiro batendo o tambor, supera a invenção de morel, um conjunto de ficções no jogo da amarelinha sobre folhas de relva ou o memorial do convento do paralelo 42.

Moby Dick sai em busca de as cidades e as serras ou do deserto dos tártaros, mas encontra é a terra desolada, no coração das trevas e promove a revolução dos bichos e liberta os miseráveis. Mas tudo são os novelos do acaso, noves fora nada: nada de novo no front.

http://www.revistabula.com/5063-viagem-sentimental-pelos-nomes-dos-livros/

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

terça-feira, 6 de outubro de 2015