domingo, 14 de dezembro de 2014

Morte e Vida Severina, João Cabral de Melo Neto



Morte e Vida Severina
João Cabral de Melo Neto



— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte Severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.

sábado, 6 de dezembro de 2014

ÉGLOGAS PARA UM SENHOR CHAMADO CARNAVAL, Francisco Vaz Brasil



ÉGLOGAS PARA UM SENHOR CHAMADO CARNAVAL
Francisco Vaz Brasil





toda gente se achegou
por necessidade
por sadismo
talhando pedra e barro
aos empurrões
e palavrões
à praça
perplexa e apática

os blocos
- palhaços mambembes
costelas viventes
de uma inflação muda:
               punhal afiado

os blocos passando
- desfile macabro
corpos fantasiados
batucada fantasma
em desfile
na álgida metrópole

o Teatro –da Paz –
taciturno observa,
há tempos imemoriais
na espessura do gesso
na pauta sonora e fria
no espaço da moldura
nas vozes suplicantes
das noites da belle èpoque

no terraço dos edifícios
as pedras não entenderam e se calaram
em sua saliva de pó e calcário

nas escolas (de samba)
surgiram equações no gesto
e dúvidas no esquadro:
os passos seriam milimétricos;
os giros do compasso eram a agonia
da porta-estandarte e o mestre-sala tremia
como quem nasce (oh, carnaval)
em círculos de bronze
rodas de samba, brazões e tradições...

as evoluções do passista
no tapete vivo de carne e asfalto
são a esperança
e a voz do crooner , desafinada,
era talho e atalho no corpo
inerte e inerme
da platéia
(que se oferece dúbia,
nas curvas, como um rio
marmóreo, límpido, onírico)

a praça sozinha,
em meio à multidão, sorri
sua forma bem lavada
em barras de suor,
lágrimas felizes
e aço em combustão

mas o carnaval
nasce assim, maduro:
é o tempo
paridor de estrelas
cubos, alvoradas e cristais;
lágrimas congeladas,
sorrisos y sorridentes
- brincantes forjados em laboratório

é o carnaval
que da estrutura dos ritmos
criou a linha do viver
e o carnaval está nas gentes
incrustado como a ostra
à espera da semente perolar

está no tempo a descoberto
para o orvalho e o raio
sob a chuva e as margaridas
com prêmios de mil centavos

sim, e ele explode em nós
em glóbulos, nas artérias
e dele correm os homens tranqüilos
em rodas e pedais do esquecimento

para quem amou
nele está o segredo, ou no umbigo,
o silêncio antigo, o ruído das palavras
o atrito e a entrada da lâmina
no subterrâneo do prazer!

e o museu com o que se disse
                  e o que não se disse
e o passado em retângulos de mármore
vê o carnaval como paralelos
cravados sobre o chão

lá estão o moço e a moça
os seus estremecimentos
e a criança
- seu medo de ser aborto e natimorta

no bar do parque, aqui sim,
aqui gasta-se o níquel
e don Juan deseja o mulher do próximo
- aqui se ama, se amou, se amaram
o índio e a loira sob os lençóis do horizonte

a gênese do carnaval
líquido, alegre, sujo, loucoricida,
entrementes, é imensa e única:
- de um fio faz-se o tecido,
- por um fio faz-se a massa
  estonteante da mulher amada
(margens calculadas para o amor)
e por um fio fez-se o poema e a roupa
por um fio faz-se um filho e um rio
por um fio faz-se encurtar distâncias
por um fio também jorra
o sangue dos que fazem o crime, a guerra

por um fio,
podemos salvar o nosso carnaval...

[Publicado no jornal Folha do Norte, de Belém,
Em 30 de janeiro a 5 de fevereiro de 1978]

UM PASTOR CHAMADO CARNAVAL E SEUS VINTE E OITO CARNEIRINHOS, Francisco Vaz Brasil



UM PASTOR CHAMADO CARNAVAL E SEUS
VINTE E OITO CARNEIRINHOS
Francisco Vaz Brasil



era uma vez entre outras
um velho que com seu cajado
abria corações de concreto.

seu mastim era grande e calmo
como uma manhã deserta de multidões
- gerando seios

então, ele teve a idéia de cruzar
meridianos e paralelos do inferno
arcar a terra inteira
impregnar seu peito alado e melancólico
com todo o húmus de deuses e geografias

enquanto batia o cajado
seus vinte e oito carneirinhos
saltavam o latifúndio do espaço
como nas noites álgidas
o elétrico carro macabro

daí, os senhores foliões surgiram nos asfaltos
(tempos mais amenos)
com um frevo andróide tresloucado
embebedando as auroras
com serpentinas de sorrisos
e ânforas de mentira e alegria!

- vamos batuqueiros
machuquem bem forte os tamborins do ócio
que os esqueletos balançam seus corpos nus
ante um júri de fantasmas

- vamos pierrot – retrato frustrado
da indizível realidade,
tente o nexo da frágil columbina

- olhem o bloco de sujos
com a fantasia feita de sonho e miséria,
burguesmente fedendo a cachaça!

- olhem o rei momo
com sua barriga de féretros carnavais
tentando adentrar a quarta-feira!

- (look at here my friend:
desnude a mascara, sorva de um só gole
seu amor de carnaval!

e vamos senhoras e  senhores
que o poeta fotografa seus bailarinos atos
- o flácido asfalto
passo a passo vai parindo no samba
ventres crescidos
– foliões com signos de finados!

- e agora sambista do bloco do esquecimento?
- e agora mestre-sala
(resumindo a vida num só cálculo,
exprimindo tua esperança no ritmo de um só pé)?

- e agora brincantes dos sujos?
as parábolas se espalham na avenida
unidas apenas por um cordão
de palavrões bem ritmados por sorrisos!

como o senhor carnaval morreu
na quarta-feira
a esquálida porta-estandarte
caída numa poça de confetes chora
enrolada por uma bandeira de molambos
como um trapo esquecido num varal
do teatro de tristezas de antigos carnavais...

[publicado em Poemática, 3º caderno do jornal
O Liberal, em 3 de março de 1974, p.15]